Crónica de Alexandre Honrado – Só a democracia pode vencê-los

Crónica de Alexandre Honrado
Só a democracia pode vencê-los

 

Leio que uma sujeita menor a quem a liberdade de expressão garante a possibilidade de exprimir-se sem quaisquer mordaças, sendo dotada de um tempo de antena sem explicação, diz que não festeja e que jamais festejará o 25 de abril, o que é natural vindo de que vem, com o seu percurso trapalhão e trambolhão, onde vagamente já foi tudo, até comunista e animadora barata de aniversários menores. Tudo menor, portanto.

Este é mais um exemplo da grandeza da Democracia: um espaço maior capaz de acolher até os menores, um espaço cuja natureza é feita de liberdades e de garantias, de sentido de justiça, de promoção da equidade social. Um espaço, no entanto, construído num imenso encaixe de pudores que, para respeitar todos acaba por manietar-se e esquecer que só respeitando a sua essência poderá cumprir-se.

Fico contente, mesmo assim, ao ver que a Democracia resiste – mesmo quando vilipendiada pelos menores que lhe cravam punhais de circo nas costas sempre largas.

Quem mina a Democracia são obviamente os traidores da Democracia. Os que a corrompem, com ideias extremistas e antissociais, os que a roubam à descarada, os que fazem letra morta da Lei, a começar pela Lei maior da Constituição. Os oportunistas que usam a tribuna e o local que lhes paga o ordenado para criticar a tribuna e faltar ao respeito aos muitos que não tê ordenado. Os oportunistas que organizam desfiles para por em desfile o que odeiam e desdenham, traindo quem lhes deu a oportunidade de desfilar e existir.

A Democracia, no entanto, tem todos os recursos, mas depende da população para a qual foi criada. Por isso é tão frágil.

A Democracia está muito longe de ser o que alguns fizeram dela, apropriando-se como se coisa sua se tratasse.

Recordem como os militares de abril agiram: mudaram o regime mas não ficaram com o regime. Tornaram-no civil e sufragado e pluralista e capaz de procurar o destino que quisesse. Depois foram à sua vida – sem pedir nada em troca, talvez merecessem pedir um pouco mais, penso eu agora.

As grandes conquistas da nossa Democracia apareceram num breve lapso de tempo: do 25 de abril de 74 ao 25 de novembro de 75. Aí esteve o lado popular das decisões, algumas das quais ainda hoje nos beneficiam. Logo em 1974, todavia, o 28 de setembro – a “maioria silenciosa”, que não era maioria nem silenciosa, e que procurava arrastar Spínola nas decisões mais extremas dos recuos coisa que, creio, até lhe agradava muito – abanou o regime que nascia, mas que mesmo assim aguentou.

Com a benevolência de uma transição de grande valor humano, quase todos os telhados do passado foram deixados inteiros, mesmo sabendo que ferveu a pancadaria, os trauliteiros, as pedradas, os ataques a pessoas, propriedades, sedes políticas, símbolos – porque afinal fazia-se revolução e só se faz revolução opondo dois lados que se odeiem.

Hoje agitamos a indignação. Uma sondagem diz que 83 por cento dos portugueses acha viver numa Democracia defeituosa. Não duvido. É o que eu acho. Porque é defeituoso ver e ouvir os que traem. Apesar das instituições e do seu bom funcionamento, há traidores da Democracia, há mentecaptos (até nos órgãos de informação que se atropelam pelas audiências), há um desconhecimento profundo da cidadania, há ladrões à solta, corruptos e corruptores, criminosos cada vez mais organizados, e criaturas menores que se exprimem sem mordaça e se pavoneiam nos seus cinco minutos de fama.

De toda a parte chegam os vampiros. Só a democracia pode vencê-los!

 

Alexandre Honrado


Alexandre Honrado
Escritor, jornalista, guionista, dramaturgo, professor e investigador universitário, dedicando-se sobretudo ao Estudo da Ciência das Religiões e aos Estudos Culturais. Criou na segunda década do século XXI, com um grupo de sete cidadãos preocupados com a defesa dos valores humanistas, o Observatório para a Liberdade Religiosa. É assessor de direção do Observatório Internacional dos Direitos Humanos. Dirige o Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos Humanistas para a Paz, integrado na área de Ciência das Religiões da ULHT Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. É investigador do CLEPUL – Centro de Estudos Lusófonos e Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do Gabinete MCCLA Mulheres, Cultura, Ciência, Letras e Artes da CIDH – Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos da Globalização.

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