Cónica de Alexandre Honrado | Deixemos as utopias

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DEIXEMOS AS UTOPIAS

 

O século XX foi o século da morte – nunca houve tantas guerras, catástrofes e massacres na história do mundo e nunca as ideologias sucumbiram de maneira tão intensa, fazendo acreditar que os excessos cometidos eram a sua essência, louca visão.

Se o século que nos antecedeu foi o da morte, o  século XXI é um século de mortos. Não há cidade que se visite que não tenha os seus soldados desconhecidos aprisionados numa homenagem que da guerra, da derrota e da chacina conserva apenas o ar da matéria em decomposição e a vergonha pública da pedra a consumir-se com a poluição e a indiferença de quem passa: todos nós, com os nossos crepes de luto, com as nossas friezas, com a nossas tatuagens na memória (muito turisticamente ativos para não nos lembrarmos de nada).

O que somos não nos torna grande coisa. Devíamos ser preparados para as derrotas e para os fracassos, com uma sólida altivez de humanos aptos. Quando mil correm numa maratona, só um ganha. Quando cem fazem um exame, a melhor nota será do mais lesto e talvez apto, quando dez se reúnem num ministério, milhões cá fora sofrerão as consequências das suas teimosias sem grande solidez mas decisivas. Quando dois se amam, um é a distopia do outro por isso nem sempre dão certo.

É tão estúpido ver os ministérios da educação a obrigarem os professores a forjar o êxito – “passem todos como se eles soubessem!” -, se o que educam é nada e o que ensinam é apenas o que podem, pois quem não está educado não aprende, e a burocracia esmagou a pedagogia, e agora a escola é uma enfadonha folha de excel com professores que passam dez horas lá dentro, num esforço inglório e homicida. Alguns, ao saírem, fazem cem quilómetros para dizer em casa que estão vivos – e voltarem no dia seguinte ao ritmo da montagem, assim se fazem tijolos para a obra. Se quiserem conhecer os vossos filhos, tirem-lhes fotos. Está na moda. Mesmo se só os virem a dormir… É tão estúpido ver putos a “marrarem” até à exaustão para entrarem num curso onde provavelmente estarão sem vocação mas de olhos fitos nos rendimentos que os aguardam mais adiante.

Quando alguém perde, deve saber perder. É a consequência lógica do confronto, da dialética quotidiana. Quando alguém ganha, deve saber levar os derrotados consigo. Essa é a grande fórmula que opõe o direito do mais forte à saciedade, coisa que não faz sentido algum, à sabedora e ao rincão para cada qual. Em última análise, todos merecemos a terra que pisamos.

Esta prosa agastada insere-se na linha que percorro há muito, essa da filosofia do impuro, que em sentido estrito é um amor à sabedoria do que não é castrado, formatado, despigmentado, uniformizado, homofóbico, xenófobo, umbilical, fascista, em suma.

Somos impuros – é o único rigor. E o que somos não nos torna grande coisa. Leva-nos a correr para trás do ramo grosso, onde nos escondemos – por exemplo quando não votamos -, ou a espreitar com o ar do caçador que, armado, é sempre superior à presa. Podemos fazê-lo como aqueles transtornados que atentam contra a vida alheia ou como os dois transtornados, o do cabelo ridículo que vive no Palácio do Sol de Kumsusan e o outro, o do cabelo ridículo, que vive na Casa Branca. Também podemos acreditar no ser humano e fugir do enquadramento. Por exemplo, como eu, com esta espécie de filosofia barata, a preocupar-me com o estudo das questões gerais e fundamentais relacionadas com a natureza da existência humana; do conhecimento; da verdade, se é que existe em algum local; dos valores morais e estéticos, que alguns ainda devem perdurar; da mente; da linguagem, bem como do universo na sua totalidade. Coisas banais, dirão, estas que me cativam.

 

Alexandre Honrado

Historiador

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