Crónica de Alice Vieira | A história da minha vida

 

A história da minha vida
Por Alice Vieira

 

Eu só vou contar aqui o que me aconteceu há dias porque tenho muitas testemunhas, de contrário não dizia nem uma palavra porque ninguém me acreditava.

Estava eu na esplanada da praia, aqui na Ericeira. Relia um dos meus livros, porque às vezes os miúdos fazem-me perguntas muito específicas, e eu já não me lembro bem de todos.

Chega-se ao pé de mim uma senhora, que eu nunca me lembrava de ter ali visto, olhou muito bem para o que eu estava a ler e disse:

–” Leandro, Rei da Helíria”… É um livro muito bom!

Quando eu ia dizer “muito obrigada”  já ela ia embalada numa converseta sem paragens:

–Tenho de admitir que é um bom livro, mas a mulher que o escreveu é das piores pessoas que alguma vez conheci!  Para fazer uma ideia: o marido, que ela sempre tratou muito mal, morreu há uns meses e ela nem foi ao enterro! Tem 3 filhos, de que nunca quis saber, acho que nem nunca viu os netos, e anda sempre metida em sarilhos…

–Estou a ver que a conhece muito bem…

— Se conheço!! Acho mesmo que sou a  pessoa que a conhece melhor — até porque as minhas amigas  não têm paciência nenhuma para ela. Muitas até me dizem “mas por que é que tu perdes tempo com essa filha d…, desculpe, eu sou uma mulher séria, e nunca digo asneiras mas com ela perco a cabeça…E sabe? A maldade dela às vezes até me atrai! Como é possível? Ela devia estar na cadeia há que anos, mas ninguém se queixa dela! Têm medo, é o que é… E se eu for sozinha fazer queixa dela, ninguém me acredita, tais as coisas que ela faz!!

— E a senhora costuma vir aqui muitas vezes? — pergunto

— Eu? Quase nunca!!! Só o medo de a ver pela frente…Tenho a certeza que perdia a cabeça!

Faz uma ligeira pausa e eu aproveito:

— Estou  a ver que a conhece muito bem…

— Muito. Já lhe disse que devo ser a pessoa que a conhece melhor!

Insisto:

— Diga-me uma coisa: se a visse agora aqui, na sua frente, conhecia-a?

Deu uma gargalhada:

— Claro!!! Mas também lhe digo: se a visse agora aqui, desatava a correr e ia-me embora porque até me sinto maldisposta só de olhar para a cara dela. Do piorio! Garanto-lhe!

Foi então que eu me levantei da cadeira e lhe disse, muito calmamente:

— Então acho que é melhor  ir-se já embora porque essa pessoa sou eu!

Ninguém imagina a correria que ela deu — e  em segundos desapareceu.

As pessoas que estavam na esplanada ao pé de mim — ela falara sempre muito alto — são de opinião que ela estava ali à espera que, com aquela conversa toda, eu me distraísse e ela me roubasse (a minha carteira estava mesmo à vista)

Eu não sei. Se algum dos meus leitores tiver alguma ideia, por favor diga-me! Ofereço-lhe um cafezinho na praia.

Alice Vieira

 


Alice Vieira
Trabalhou no “Diário de Lisboa”, no“Diário Popular” e “Diário de Notícias”, na revista “Activa” e no “Jornal de Notícias”.
Atualmente colabora com a revista “Audácia”, e com o “Jornal de Mafra”.
Publica também poesia e é considerada uma das mais importantes escritoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.

Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Alice Vieira


 

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