Tempos e tempos
por Jorge C Ferreira
Quando, sentado no meu “descanto”, olho para este novo tempo, vêm-me à memória o tempo em que o tempo me faltava. A correria de sítio em sítio e a noite a escapar-se. A manhã a chegar. O emprego à espera. Eu sem tempo para dormir. Um banho e uma corrida de táxi até à Praça da Figueira. Entrar na Suíça pelo lado de trás. O mesmo empregado, não era necessário falar, o pequeno almoço do costume. Uma corrida até à Rua dos Sapateiros. Entrar e picar o ponto. Aquele relógio não parava. A hora mudava de cor depois da hora de entrada. A cadeira, a secretária finalmente.
Este “descanto”, já foi encanto. Já aqui escrevi muitas vezes encantado. Agora, de vez em quando, acontece. Os dedos a esgrimirem letras que se vão unindo. Os pensamentos mais rápidos que a escrita. Há, vai haver, coisas incompletas. Coisas estranhas. Coisas meio loucas. É aí que somos chamados ao nosso melhor, à criação, à reinvenção, ao refazer do já feito. À busca da palavra perfeita. Tantas vezes retirar palavras. As letras resmungonas que não se querem alinhar. A agulha e a linha. A falta do dedal. Os dedos feridos de alguma acidez.
Aqui também se pensa no amor. No feito e no por fazer. Da perfeição e da imperfeição. Dos corpos que uniram e voaram até sítios impensáveis. Nos fracassados actos de amor. Da vergonha e da impotência. Do aveludado da vida numa cama de lençóis negros. Tanta seda naqueles corpos por inventar. A cama que não era nossa. Acreditar num futuro feliz. Esperar que tudo acabaria por se resolver. De repente o desabar do edifício por construir. A vida presa por um fio. As pastilhas e o álcool. O corpo castigado. A cama vazia porque nós não contamos. Somos o que resta. O acordar cansado, pesaroso, baço. O duche retemperador e nova corrida. Aquele tempo não parava e nós éramos resistentes.
As namoradas que nos faziam sentir felizes. Também o tempo passado com elas era contado. Mas também já se encontrava muito espírito livre e liberto. Muitas vezes as noites acabavam num lugar desconhecido. Gente que se juntava para tornar vivos os desejos ambicionados. Havia casas com muitas divisões. Casas com portas a bater e gente a sair e a entrar. Era difícil arranjar uma divisão vaga. Alguns sinais esfuziantes de vida e a madrugada a deliciar-se de assim ser vivida. Um relógio de pé alto tocava de quarto em quarto de hora. As horas tocadas. Horas que não percebíamos. Horas que passavam sem darmos por isso.
Disso tudo apenas recordações esquecidas em conversas sem nexo. Agora o tempo está diferente. Nunca mais deram corda ao relógio de pé alto. Nunca mais vi aquele amigo que nunca largava a viola. Disseram-me, um dia, que se tinha perdido entre os canais de Amsterdão. Muitos deixaram a imortalidade muito cedo. Uma gravata com flores era uma audácia. Um dia deram-me uma comprada numa loja especial da baixa, e eu claro que a usei apesar das bocas dos do costume.
Que tempo se seguirá a este tempo?
“Sabes uma coisa? Tu não tens vergonha nenhuma. Linda vida sim senhor! O que a tua Avó não deve ter passado.”
Fala de Isaurinda.
“Estou só a comparar tempos que nos vão marcar a vida. Tempos tão diferentes!”
Respondo.
“Estou a ver, estou a ver. Ganha juízo!”
De novo Isaurinda e vai, a mão direita a benzer-se.
Jorge C Ferreira Março/2021(291)
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Uma crónica muito bela de uma Vida Cheia.
A tua escrita cinematográfica, faz-nos sentir personagens à época, quer a tenhamos vivido, ou não.
Uma vida que é um orgulho para os teus familiares e amigos e claro, para a Isaurinda também.
Bem hajas, mago das palavras
Obrigado Cristina. Tão bom ter aqui as tuas palavras. Muito grato. Abraço
Existe sempre um apelo do passado. Uma voz interior que nos leva por longos corredores, com ou sem janelas. Escuros ou tão luminosos que nos encadeiam a vista. O tempo das geadas ou o tempo das macieiras em flor.
O passado. Os dias cheios. As rotinas. O tédio. Os escapes. As fugas. Os encontros clandestinos. Os excessos. Os tempos boémios.
Somos levados pela mão do poeta a percorrer parte do que foi a sua vida. Somos espetadores de um filme que nos enreda, encanta, palavras dele, inebria, seduz ou espanta.
Um filme sem intervalo.
Um argumento em que nos revemos. Com legendas. Legendas recriadas pela mente de um excelente contador de estórias. Vividas. Inteiras. Amplas. Tão longas quanto corredores. Com ou sem janelas…
O meu sorriso. Agradecido.
Obrigado Mena. Tão bom o que escreveste. Esta é a forma de viver uma estória juntos sabe tão bem receber estes comentários que são textos sublimes. Abraço
Entre compassos, o tempo tem todo o tempo do mundo para fazer presença. Uma leveza contada como quem se encanta pelas ruelas de uma Lisboa antiga. Uns sabem viver, outros, vivem para lembrar até que o relógio dê as badaladas do adormecer…
Gosto muito quando escreves o (s) teus tempos, há toda uma sabedoria onde a saudade se mistura com as aventuras embarcadas qual nau das tuas descobertas. Abraço meu amigo. Fica bem!
Obrigado Cecília. Que saboroso o teu comentário. A arte de saber dizer. É muito bom ler estes textos. Dão força a quem escreve. Abraço.
Podemos dar voltas à imaginação; voar muito alto e aproveitar as correntes de ar sem que saiamos do mesmo sítio onde vivemos todas as ilusões libertárias!
Não deixaremos de existir: passaremos a ter outra compostura, outro modo de apreciar e um outro encanto para criticar até ficarmos exaustos, deprimidos porque o mundo não muda só por uma única vontade. Estaremos sempre à mercê de novos ventos, novas poesias, novos mitos, novos Sísifo!
Um abraço, Jorge!
Obrigado António. Por vezes damos a volta à viva desvivida. Às madrugadas acordadas. Uma vontade pode ser a vontade que falta para mudar o mundo. A Poesia é, foi e será sempre uma chave para o novo. Abraço
Lindo. Outros tempos. Outra forma de vida. Belas memórias do tempo em que, entre tantas correrias, com tanta falta de tempo, havia tempo para tudo.
Hoje o tempo arrasta-se. Os sorrisos perdem-se atrás das máscaras. Um tempo cheio de rasuras.
Recordar é muito bom.
Obrigada, meu amigo, por estas vagens no tempo.
Um grande abraço.
Obrigado Eulália. Quantas vidas já vivemos? Os ritmos e as vontades tão diferentes. Esta estranha vida que estamos a viver. Tão grato pela sua presença neste espaço e pela sagacidade dos seus comentários Grande Abraço
Tempos e tempos. Tempos bem diferentes, vividos intensamente. A juventude que se afirmava de uma forma exaustiva, noite e dia. Foi mesmo tempo de mudança. Que bem devia ficar, com a sua gravata de flores. Como me apetece falar destes tempos, se bem que eu sou mais dos anos sessenta. Também tive amigos e foi bom, mas as recomendações dos pais eram muitas. Eu compreendia e aceitava. Também me diverti, mas sempre com a minha mãe, por companhia. Como sempre, foi tão bom ouvir tudo o que tão bem disse. Sim porque as suas palavras, não se lê-em. Ouvem-se. Com prazer! Saudades, todos temos de certeza, da beleza da juventude . Abraço imenso, meu amigo.
Obrigado Maria Luiza. Os tempos e as várias intensidades com que os vivemos. As vontades e os desejos. A correria por vezes sem sentido. Tudo o que vivemos e não vivemos Tempos que não podemos desperdiçar. Abraço grande.
Tempos e tempos. Conheci, conheço, esses tempos. Vim de trás, também outros tempos, em que era tudo diferente, porque…….” eram outros tempos “. Havia a família, muitas recomendações, mas muita compreensão. Mas foi no exercício da profissão que conheci, por dentro, tempos desses. Tenho grandes amigos/as que conheci e de quem fui e sou amiga. Se um dia tivermos oportunidade falaremos sobre eles. Enriqueceram-me e ajudaram a ser o que sou, quem eu sou. Tiveste uma gravata às flores e tiveste outras roupas, também enfeitadas.. Não é a roupa que faz uma pessoa. São as flores que tens dentro de ti que são importantes. Não é só rebeldia. Tantas vezes é a afirmação do ” SER”. Beijinhos muito ternos, meu amigo/ irmão.
Obrigado Ivone, minha Amiga/Irmã. Viver o que temos a viver no tempo certo. Temos tanta conversa em atraso! Quanto tempo seria necessário para colocar tudo em dia. É tão bom ter-te aqui. Beijinhos e abraços
Tanta vida, tantos excessos. Se fosse possível os dias terem mais horas seriam esgotadas. As novidades deveriam ser consumidas. As noites não tinham horas. A loucura de viver à exaustão.
Sei de um tempo e de quem assim viveu.
Os anos foram sendo retirados à vida.
Na actual existência é tudo do avesso. Que fazer com este tempo que parece não passar, no entanto, já passou tanto tempo.
A linda Isaurinda crítica como sempre. Tão assertiva. Sinto que a conheço. Excelente crónica meu Amigo que teve uma gravata às flores. Abraço.
Obrigado Regina. Que bom ter-te aqui. Esses tempos de degolar vontades. O Avesso que nos embriagou. Este agora não é tempo é um vazio, um nada. Grande abraço