Crónica de Jorge C Ferreira | Quando a terra treme

 

Quando a terra treme
por Jorge C Ferreira

 

Há um som que assusta. Uma vela que se apaga. Um corpo que é engolido. Cai a vida e a morte entre pedras que deixaram de ter a sua função. Ninguém segura ninguém. Ninguém sabe de ninguém. Tudo é desastre. Tudo é colapso. Tristeza. Tormento. Ninguém acende uma vela. O sagrado oxigénio. A falta que o ar nos faz.

Tudo treme uma e outra vez. Muitas vezes. O sossego que deixou de existir. Tudo o que, derrubado, não se ergue. Tudo o que é destroço de vidas por encontrar. Uma montanha de sapatos sem pés. Pés que deixaram de caminhar. Casas que deixaram de ser abrigo. Casas sepultura. Ainda as guerras não esquecidas que impedem o que é urgente. Terras sacrificadas por loucuras inenarráveis. Fanatismos. Sempre os fanatismos. A afirmação da força. Essa eterna estupidez. Tantas vezes, as religiões.

Retroescavadoras removem o considerado perdido. Aparecem memórias de pessoas despedaçadas. Por vezes um pedaço de corpo humano. Nunca ouvi falar no número de desaparecidos. Quem sabe da existência de quem? As ditaduras querem limpar o terreno sempre com rapidez. Fazer esquecer os acontecimentos. Evitar a revolta popular. Calar a voz dos que chamam exaltados e antipatriotas. Acalmar a populaça. É assim que falam. Acreditem.

Depois temos as terras de ninguém. Terras sacrificadas. Terras que perderam o futuro. Gente que sobrevive. Gente que só é falada quando a desgraça acontece. Quando as imagens são marcantes para abrir um telejornal. As tendas. O frio. A falta de condições para que viver faça sentido. O provisório que tende a ser definitivo. Tantos milhões para tanta porcaria. Tão pouco para quem necessita. Sempre o mesmo. Sempre a falsidade e a mentira. Nunca a resposta eficiente e pronta sem olhar a meios. Depois o apelo à caridadezinha. Há quem se desfaça da tralha que tem no sótão e pense que ganhou o tal reino dos céus.

Naquelas terras há um silêncio profundo quando tudo se apaga. É a altura certa para ouvir o gemido de alguém que ainda tenta sobreviver. Páginas de livros que voam entre o nada. Não sabemos a quem pertencem. Já não sabemos nada. Vamos limpando a nossa memória. Noites sombrias adormecem na penumbra da morte.

A namorada esquecida. Uma casa desaparecida. Um coração vermelho na mesa de cabeceira. Uma foto de um momento único. Assim se faz a lista de tudo o que resta. Momentos desgastados. Olhos secos de tanto choro. A esperança que apareça, mais um pedaço dela no meio do lixo que arrastam. O dia inteiro passado junto ao lugar onde tudo acontecia. O remorso de não estar com ela. De a ter deixado só para ir trabalhar.

Há cidades que são cidades mártires. Cidades a quem parece que marcaram com um qualquer sinal para o mal acontecer. Cidades bombardeadas. Cidades abaladas por todas as vertigens. Cidades sacrifício. Será que deviam existir ali?

Por vezes teimamos em viver onde temos a sensação de que não vamos ser felizes. É pedra sobre pedra que tudo é construído. Pedra que pode significar desafio, desgraça ou abrigo. As pedras nossas de cada dia. Construir algo que é sempre uma interrogação. O degredo dos infelizes. Viver a desventura.

«Horrível o que falas. Choro sempre que vejo aquelas imagens na televisão.»

Fala de Isaurinda.

«É tudo muito triste. Estamos todos sujeitos a isto.»

Respondo.

«Cala-te. Nem me fales nisso. Fazes-me medo.»

De novo Isaurinda e vai, a persignar-se.

Jorge C Ferreira Fevereiro/2023(387)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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21 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Quando a terra treme”

  1. Ferreira Jorge C

    Obrigado Ivone, minha Amiga/Irmã. Teremos nós culpa disto tudo? Será que merecemos tudo isto? A nossa descida da Avenida de todas as Liberdades continua firme. Chegará o dia. A minha imensa gratidão pela tua presença. Beijinhos

  2. Ferreira Jorge C

    Obrigado Fernanda. Um comentário que me comoveu. Quem escreve agradece toda essa generosidade. As palavras saltam do peito. Muito grato pela sua presença. Abraço grande

  3. Regina Conde

    A crónica que nunca terás pensado em escrever, a coragem das tuas palavras. É dolorosa a realidade que está a acontecer. O futuro assusta. Não devemos desistir e acreditar sempre no que nos une. Quando vejo imagens dos que sofrem questiono-me como é imensa a força de viver e lutar. Meu querido Amigo um abraço imenso.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Regina. Sermos solidários. Sentirmos as dores dos outros como nossas. Saber da injustiça deste mundo. Muito grato pela tua presença. Abraço grande

  4. Branca Maria Ruas

    As marcas brutais do horror das guerras.
    Os náufragos que procuravam um vida melhor que não chegam a conhecer.
    A exploração dos que são aliciados por um trabalho que, afinal, é uma escravidão.
    Os crimes, as violações, os assédios, a violência.
    Tanto dinheiro para alguns e as escassas migalhas para quem precisa de comer, de sustentar os filhos, de viver!
    E, no meio de tanta injustiça que nos revolta e nos tira o sono, ainda o drama da terra que treme….
    Restam-nos o Amor, a Fé, a Arte para conseguirmos descobrir a Luz ao fundo do túnel.
    A escrita e as leituras fazem parte dessas preciosas “boias de salvação”.
    Obrigada por nos ajudares nesse caminho!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria. Um mundo do avesso. As injustiças. Os que se julgam impunes. A nossa vontade de mudar tudo. De ver o avesso das coisas. A minha imensa gratidão por estares aqui. Abraço grande

  5. Maria Luiza Caetano Caetano

    Sempre a palavra própria e sensível, para descrever o horror de tão trágico momento. Que dor, emocionei-me. Como a Isaurinda, “choro sempre que vejo aquelas imagens na televisão. Sei que também chora com a dor dos outros.
    Abraço grande meu amigo.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Luiza. Nunca tive vergonha de chorar. Evito a raiva porque só nos faz mal. A injustiça causa-me angústia. Não entendo nada. Cada vez sei menos. Grato pela sua companhia. Abraço enorme

  6. Claudina silva

    Querido Poeta não tenho palavras para te parabenizar pelo teu triste mas tão realista texto. Sentimentos de dor e tristeza que estamos a viver! O Mundo está mesmo muito zangado! Um grande abraço! Obrigada !

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Claudina. Estes horrores são uma violência que não sabemos combater. Depois os que querem ganhar à custa dos outros sempre presentes. Muito grato por estares aqui. Abraço grande

  7. José Luís Outono

    Emocionei-me com a leitura deste traço triste e até demolidor do teu recordar.
    Penso no ontem, e cruzo-me no hoje num reflectir forçoso, de que somos capazes e o amanhã tem de nascer sorriso em todos os calendários.
    Mas não é fácil, e em cada abertura de esperança há sempre “venenos” provocadores e até assassinos.
    Brilhante coragem quando o escreves e multiplicas “num poema verídico”.
    Grande abraço … e que o teu apelo seja no mínimo analgésico deste correr por entre cortinas imprevisíveis desta Terra sem programa justo!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado José Luís, Poeta. Tens razão, meu Amigo. Muito assassino à solta. Muita desgraça desnecessária. Não te sei explicar mais. O que disseste é certeiro. Grato pela tua presença. Abraço forte

  8. Filomena Geraldes

    É assim que se diz. No balbuciar da voz.
    Numa tremura dos lábios.
    Num gemido
    que se estica da garganta.
    Numa multidão de gritos.
    De sombras. De negritudes.
    De opacidades
    Na incapacidade de
    fazer parar a terra.
    A terra que se move. Oscila. Danças de morte. Sepulturas. Apodrecidos corpos.
    Outros tantos que ressuscitam.
    Ressuscitam? Como? Como?
    Existe uma acesa chama que os mantém.
    Um fôlego.
    Um arquejar. Arfar.
    Um beijo de vida.
    Um sítio onde as cidades são esqueletos.
    Um faro. O latido de cão.
    Um choro. Convulsivo.
    Um ser. Frágil.
    Um abraço.
    Uma vitória entre tantas outras.
    Derrotas.
    Tamanhas perdas. Danos. Amargos. Abandonados. Esquecidos. Doridos.
    Infortúnios sem dó.
    Só.
    Porque tremeu a terra…

    Choro. Como tu, cronista.
    Choro pois a terra sempre treme. Algures.
    E tu .
    Também sabes de dor.
    Por que tremeu a terra?
    Nem eu sei…
    Só sei
    que choro.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Mena. Sempre brilhante, mesmo quando a desgraça está presente. Também choro contigo ao olhar para este mundo. A tua presença aqui é muito importante. O que dizes. O que sentes. A minha enorme gratidão. O meu abraço imenso.

  9. Eulália Coutinho Pereira

    Extraordinária esta forma de escrever. Em cada palavra a emoção. Os corações choram com as imagens da destruição.
    A força da natureza que não cede a acordos de paz.As outras guerras são feitas pela vontade dos homens. A ambição e o poder são factores de destruição.
    Esta só tem um lado. Treme a terra, cidades feitas em destroços, vidas debaixo dos escombros. Ninguém saberá quantos desapareceram.
    A luta pela sobrevivência. A luta pelo auxílio.
    Os corações choram de dor.
    Porquê a guerra?
    Obrigada Amigo.
    Um abraço.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Eulália. Sempre assertivos os seus comentários. A revolta deste mundo que maltratamos. Ser solidário é cada vez mais importante. Muito grato por estar aqui. Abraço grande.

  10. Lénea Bispo

    Por mais evolução que haja na sociedade, a nível tecnológico, científico , artístico , , no fundo não resolvemos as nossas necessidades ideológicas que é o desejo de viver em paz e com os direitos que nos assistem assegurados e estão consignados na Constituição . Contra acidentes naturais , somos impotentes , mas no resto, não há encontro de vontades. Este mundo não é para nós!!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Lénea. Brilhante o teu comentário. Talvez seja a arte, a cultura a melhor forma de dar a volta a ezte mundo que não nos pertence. A minha imensa gratidão por estares aqui. Abraço enorme

  11. Fernanda Luís

    Jorge, fiquei muito emocionada com a sensibilidade da sua crónica. Palavras tão apropriadas para descrever o horror, a tragédia, a tristeza, que nos atingem o coração, os sentidos.
    Palavras como se tivessem vida própria.
    Amei muito. Grande talento de escrita.
    Bem haja, sempre.
    Abraç

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Fernanda. Um comentário que me comoveu. Quem escreve agradece toda essa generosidade. As palavras saltam do peito. Muito grato pela sua presença. Abraço grande

  12. Ivone Maria Pessoa Teles

    O que poderia acrescentar? Está cá TUDO. Que mundo este. Tenho a sensação de que está zangado connosco. Atravessamos tempos difíceis, ingratos, tão injustos para muita gente. Vamos continuar a acreditar que cada um de nós pode contribuir para um MUNDO MELHOR. Não podemos desistir. Talvez possamos descer a Avenida com ALEGRIA, braço com abraço. Um beijinho à Isaurinda. Beijinhos da tua Amiga/ Irmã Ivone.

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