Crónica de Jorge C Ferreira | A Poesia e os Poetas

 

A Poesia e os Poetas
por Jorge C Ferreira

 

A Poesia é um mistério. Muitas letras escondidas numa arca antiga que se vão juntando. A Poesia tem templos onde o belo se celebra. Templos guardados por deusas, feiticeiras, alquimistas e gente que se diz que levita. As palavras dos poemas vestem sonhos e enigmas. São tintas de todas as cores. Falar com Poetas é falar com algo mais longínquo. É viajar e sonhar através do seu falar.

Há quem diga as palavras dos poetas, verso a verso num encantamento. Há quem os cante, os musique e lhe dê uma emoção diferente. Há também quem estude a poesia e tente encontrar o seu significado, o que pode ajudar muita gente a  pensar e a se regenerar. Toda esta gente, quando se junta numa sala, transforma-se numa espécie de irmandade que comunga do mesmo sonho. Todos buscam o belo. Todos sonham acordados.

Que ninguém me diga que nunca teve vontade de escrever uma quadra. Uma quadra para colocar no manjerico que ofereceu a uma namorada. A poesia é luz, cor, paixão e também solidão, dor, agonia. Há poetas que são vários eus e vivem demasiadas vidas. Os sentimentos entregues nas palavras. As linhas de um caderno cansado a ganharem sentido. Os vários sentires. Os vários sentidos das ruas que percorrem. Os sapatos a gastarem calçadas. Um calceteiro a desenhar outro poema num passeio da cidade que brilha. Cidade branca e brilhante. Cidade rio. Cidade luz.

Conheci poetas lunáticos. Poetas que escreviam em guardanapos com borras de café. Poetas do tempo em que os cafés eram os lugares de todas as tertúlias. Os criadores viviam no meio da vida. Criavam durante cansadas noites. As noites em que a liberdade assomava entre as luzes ténues. As madrugadas de versos mastigados e as bebidas engasgadas. Por vezes, uma ideia brilhante, uma luz que se sobrepunha ao breu da noite. Ao fundo a sala dos bilhares. Poemas escritos sobre o pano verde. Bolas que giravam e se encontravam. Duas brancas e uma vermelha. A carambola perfeita. O final do poema.

Os poetas dos salões, dos lustres e dos pesados cortinados. Os sonetos perfeitos e uma tristeza naquelas salas enormes. Os retratos pintados a óleo da vetusta gente. Os candelabros e as velas a incendiarem o tempo. Um tempo cansaço. Um tempo desabado. Tempo a deslizar para a eterna penumbra.

A loucura dos poetas. Os poetas loucos e a vontade de ultrapassar o risco. A fronteira das estradas que desaguam num rio grande e pleno de sonho. O poeta à janela a gritar à lua. Poeta lobo, poeta azul, poeta sonhador. Poeta saudade. Poeta suicidado. O último poema escrito com uma letra tremida. O toque do doce veneno. O cântico da agonia. A escrita sacrificial.

Chegam deusas com mãos de prata. Mulheres que cantam o amor. O erotismo numa pluma aguçada. O desejo a ser sentido em cada verso. Mulheres que comandam a paixão. Camas abertas à alegria. As vontades que se juntam no corpo de quem se sente capaz de qualquer dança. O acto perfeito. O poema beijado e adorado. Os gritos do prazer. O vento a entrar pelas janelas entreabertas. O brilho de um candeeiro alto vindo da rua. A noite que não queremos que acabe.

Futuro, passado, poemas e poetas caminham juntos numa estrada de nuvens.

«Olha que hoje, deu-te forte. Que poesia estranha essa.»

Fala de Isaurinda.

«Apeteceu-me. Foi como uma libertação. Uma vontade antiga.»

Respondo.

«Sim, sim. Tens tanta coisa para contar. E acabas nisto.»

De novo Isaurinda e vai, um ar meio preocupado.

Jorge C Ferreira Julho/2022(354)

 


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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19 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | A Poesia e os Poetas”

  1. Maria Luiza Caetano Caetano

    Maravilhoso o que acabei de ler, é um deslumbre esta poesia. Tenho lido coisas suas que me encantam. Mas esta sublime poesia, entrou fundo em mim.
    Como deve ser belo para alguém, viver uma tarde no meio de poetas. Num canto e em silêncio escutar. Só escutar os poetas! Ouvir a magia das palavras, que só a eles pertencem. Poesia é vida.
    Obrigada, por tanto querido poeta. Beijinho grande.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Luiza. Amiga tão generosa. Fico muito feliz que tenha gostado. É tão gratificante. Beijinho grande

  2. Branca Maria Ruas

    A poesia é fundamental. Quem a lê tem uma maior tendência e aptidão para viver de um modo poético, sonhador. E, tal como disse o grande poeta António Gedeão, “o sonho comanda a vida…”
    Escrever poemas não é o mesmo que ser poeta. Mas a escrita tem um poder libertador. Uma catarse emocional que pode ser terapêutica.
    Os poetas fascinam-nos. A poesia encanta-nos. Mas há muitas formas de fazer poesia. Uma pintura, um pôr do sol, uma carta, um texto em prosa, um momento vivido com intensidade… Tudo pode ser um poema. Depende de cada um esse modo de sentir. E quem sente desse modo, vive a vida de forma poética, mesmo que não seja poeta.
    Tu vives poeticamente a vida, escreves poemas e és um poeta!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria. A Poesia é a salvação. O nosso encanto cantado. Com os Poetas vamos ao fim do Mundo. Tão bom o que dizes. Beijinho

  3. António Feliciano Pereira

    Bom dia, Jorge!
    Belo texto, uma prosa cheia de poesia uma poesia em prosa.
    Gostei!
    Um abraço, Jorge!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado António. Que bom vê-lo aqui. A Poesia é um enredo. Uma história muito antiga. O princípio de tudo. Abraço

      1. António Feliciano Pereira

        Terei todo o gosto sempre que a inspiração me der asas!
        Um abraço, Jorge!

  4. Isabel Soares

    Uma crónica poema. Belíssima! Difícil de comentar, por isso mesmo. A poesia em prosa. A magia das palavras na tentativa de decifrar os poemas e os poetas. Dizer o indizível. A poesia aproxima-se deste “desafio” e aproxima-se da sua resolução. O “olhar”belo que desvela os mistérios da vida e do mundo. Dirá a sua essência? O belo e o bem numa sintonia caótica. Num namoro improvável, mas sem divórcio. Pode ler-se isto nesta crónica?! Pode!
    O cronista, também poeta, desnuda-se, em terreno próprio, para apontar significados e sentires sobre uma matéria familiar e numa linguagem que se transforma nesta mesma matéria.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Isabel. Sim, a Poesia é isso mesmo a nudez das palavras improváveis. Nunca a conseguiremos explicar. Bela o seu comentário. Abraço

  5. Isabel Campos

    “(…) O cântico da agonia (…)” e o cântaro de água pura, uma libertação. Doze canadas de bençãos… A Poesia, salva.

    Beijinho

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Isabel. Deixaste um Poema e eu fiquei sem fala. Belo o que dizes. Amiga sempre. Beijinho

  6. Eulália Pereira Coutinho

    Maravilhoso. Que bom este regresso. A reflexão da vida pelo olhar do Poeta. Tudo dito e tão bem dito.
    A poesia é luz, sentimento, descoberta, liberdade, paixão. Poesia é vida.
    Obrigada Amigo por esta viagem de emoções.
    Grande abraço.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Eulália. Tão bom o seu comentário. Assim nos vamos reinventando. O sabor das palavras. Grande abraço

  7. Filomena Geraldes

    Poeta.
    Sou uma devoradora de poemas. Sem eles depressa definharia.
    Ou me transformaria em nuvem.
    Ou nem sequer seria.
    Chamem-me o louco. O ausente.
    O frágil. O que sangra. O intérprete da linguagem dos répteis. O que esconde as asas por baixo do casaco de quadrados. O que seduz
    a noite. O amante da lua. O lobo macho da alcateia. O que escreve
    na areia. O que já nem escreve. Só o pensamento desenha palavras.
    Chamem-me o prodigioso.
    O alquimista.O vernáculo.
    O analfabeto. O filho da mãe
    O alcoólico. O monge sem hábito.
    O senhor das águas.
    O eleito. O vidente. O rei do tudo e do nada. O peregrino. O sem-terra.
    Chamem-me o que não tem poiso. Vive debaixo das raízes do mundo.
    O náufrago. O que se deitou com as mulheres de pés sem solas.
    O que é azul.
    O que provou a água do mar.
    O que é eterno.
    Chamem-me o poeta.
    Hoje. Só esse. O que escreveu o que eu devorei!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Mena. Minha Amiga Poetisa. Belíssimo o que escreveste. A busca do impossível. Há sempre mais uma palavra. Tão grato. Beijinho

  8. Regina Conde

    Preciosa crónica. Apenas posso agradecer por partilhares o que tão bem escreves. És um Poeta que adoro ler. Beijinhos meu Amigo.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Regina. Muito grato pela tua presença e pelas tuas palavras. A poesia merece-te. Abraço grande

  9. José Luís Outono

    Escreveste muito bem. A liberdade da poesia, num sentir livre e descobridor da “pontuação” dos poetas no seu enredo apelativo.
    Direi … que traçaste mapas na conjugação do escrever poético, lembrando tempos idos onde o guardanapo era o cofre da inspiração, e quantas vezes se perdia no arejamento local.
    Rendo-me à tua prosa definidora de momentos do ontem, do hoje e do amanhã onde abraças momentos imensos também desafiadores da poesia sempre livre e gritadora de sementes pessoais.
    Bravo!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado José Luís. Meu Amigo, Poeta. Sabes que a Poesia não se define. É a palavra que se liberta, a imaginação inteira. Muito grato pela tua presença neste espaço. Abraço enorme

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