Crónica de Jorge C Ferreira | O Mar e o Respeito

 

O Mar e o Respeito
por Jorge C Ferreira

 

Cheguei a vossa casa e entrei numa alegria imensa. Primeiro abraçámo-nos e beijámo-nos com muita força. Um abraço de vida. Como se tivéssemos regressado de um tempo antigo. Há sempre um abraço maior na vida de qualquer pessoa. Depois começaste a contar a tua aventura e foi um tempo de sonhos e pesadelos.

O mar, o azul imenso. Olhar as nuvens. Ver o seu tipo e trajecto. Navegar. Ser levado pelos golfinhos nas suas danças maravilhosas. Esperar que um peixe voador caia dentro do barco. Há um cheiro e uma luz diferente. A sensação de estarmos por nossa conta. Ver, num ecrã, a próxima terra. Procurar quem anda por perto.

As ilhas, esses rochedos que navegam connosco. Terra onde vive gente que trabalha e gente que se recreia. Ir de barco ao restaurante. As comidas diferentes. A vida a ser acrescentada. Os outros navegadores. Marinheiros sem farda. Gente em busca da liberdade inteira. Aprender a viver.

A beleza do deslizar de um veleiro. As velas das quais não fixei nome nem função. Apenas uma atracção por aqueles barcos em que o navegar se sente no corpo todo. Saber os costumes de cada porto. Vaguear por um mar sem fim. O piloto automático e a roda do leme. Aprender a conhecer o vento. Velejar com ele. Os sentimentos vestidos de todos os azuis. Os peixes de todos os lugares.

O mar aberto. O Oceano imenso. Saber que temos de navegar muitos dias para chegar ao próximo lugar. Ao próximo destino. Uma linha que foi traçada e que nem sempre é cumprida. A água vai mudando de cor. Apercebermo-nos da profundidade imensa. Começamos a ser cada vez mais um ponto. Parece que estamos perdidos, mas, na verdade, transformamo-nos em perdição. Inventam-se lugares esquecidos. Pensamos no que vive por baixo de nós. Dormem-se apenas períodos de quatro horas. Muita coisa de que tomar conta para tomarmos conta de nós.

Prevêem-se as tempestades. Tentamos fugir delas. Muitas vezes elas apanham-nos. Um jogo muito perigoso. Não lhes conseguir fugir. Estudar outras rotas. Saber que se vai sofrer muito, que estamos numa zona onde ninguém nos virá buscar. Quando as coisas vão cedendo temos de ser nós a agigantarmo-nos. As ondas enormes, um céu fechado, o barulho ensurdecedor do vento e o mar a tornar-se inclemente. É então que entramos em modo de sobrevivência. Estamos cada vez mais pequenos perante o que nos é oferecido para vencer.

De repente um barco entra em contacto connosco. Vai muito mais à frente e é maior. Ouve-se uma voz a tentar dar-nos coragem. Uma voz que nos foi acompanhando durante algum tempo. Uma companhia essencial. Sempre palavras de incentivo. De coragem. Apelar ao que nunca acreditámos. Por fim ultrapassamos o pesadelo como se tivéssemos saído de uma noite de trevas. Já éramos outros. O respeito que o mar nos merece continua vivo. Viverá para sempre.

Vêem-se os estragos no barco. Os nossos vão ser recuperados em terra, agora não temos tempo para isso. Ver a ilha, chegar e ter quem venha saber de nós. A festa inevitável no meio de algumas lágrimas. Uma senhora que diz que esteve a rezar toda a noite e de velas acesas sempre a pedir por nós.

Foi assim a conversa com o meu filho, com música de Amália e Poesia pelo meio. Era tempo de me vir embora. Repetimos o abraço. As lágrimas já tinham saltado incontroladas e imensas. Espero que ele conte toda esta viagem como deve ser. Beijo-te, meu querido.

«Só lhe faltava agora isso, esse miúdo sempre foi assim. Sempre com essas manias. Sempre atrevido.»

Fala de Isaurinda.

«Ele já é homem grande. Independente. É ele que tem de tomar conta da vida dele.»

Respondo.

«Sempre a defender o “menino”. E nós aqui sem saber de nada!»

De novo Isaurinda e vai, a benzer-se.

Jorge C Ferreira Maio/2022(351)

 


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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18 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | O Mar e o Respeito”

  1. Maria Matos

    O mar, a sua. beleza e os seus grandes perigos l
    O abraço maior que se dá sempre em qualquer ocasião da vida…
    As lágrimas e a cumplicidade com o filho.
    Parabéns, Jorge.
    Que texto!
    Muito obrigada

  2. Navegar é preciso; ou escrever é preciso.
    Os filhos aprendem a nadar e é vê-los mergulhar e afastarem-se. Arriscarem ondas distantes sem olhar para trás.
    Um abraço.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Sofia. Temos a mesma paixão, o Mar. Ele arriscou como eu nunca o fiz. Sempre o medo e o respeito. Depois é o curso normal da vida, numa onda, numa maré. Beijinho.

  3. Eulália Pereira Coutinho

    Excelente. O fascínio e o respeito pelo mar. A cumplicidade e orgulho da descoberta do mar.
    Uma viagem de sonho, com os perigos mais inesperados. Inesquecível.
    O abraço entre lágrimas que não precisa de palavras.
    Grande orgulho. Parabéns ao pai e ao filho.
    Obrigada Amigo. Grande abraço.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Eulália. Devemos resoeitar o mar. O medo é inerente. Vencê-lo um desafio. Tive medo por ele e emocionou-me a sua coragem e ter tido a noção da sa pequenez. Abraço

  4. Isabel Soares

    Mais uma lindíssima crónica! Depois de ler o comentário da Filomena fiquei sem palavras. É de amor que se trata. De vida! De afectos! De sentimentos! Estremecemos e choramos a ler este texto. Conduz-nos a repensar a essência da existência

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Isabel. O amor incondicional que é recíproco. Acompanhar os seus desafios. Abraçar com toda a força que temos. Abraço.

  5. Filomena Geraldes

    Um reencontro de uma dualidade que me fez estremecer. Inquietar. Por um lado, a alegria de pai e filho poderem estreitar o abraço, por outro, a sombra dolorosa de uma narrativa que fez abalar as emoções
    e trouxe ao de cima, o espectro do medo e da perda.
    Não me vou perder em divagar sobre esse mar. Não vou dissertar sobre a viagem em si.
    O sentimento de liberdade. Encantamento. Conquista. Leveza. Controle. Poder.
    Não, não vou por aí! A proximidade entre o homem e a natureza em fúria. A casca de noz que encontrou o “Adamastor”.
    Não me vou perder num discurso fácil e de lamechice. Vou antes, enveredar pelo que me parece mais apropriado.
    Existem momentos na vida em que nos apercebemos do quão somos frágeis.
    Não a temos nas nossas mãos. Somos ínfimos.
    Perante a adversidade damo-nos conta de que a coragem pode não ser o suficiente. Antes a lucidez. O sangue frio. A razão.
    Uma luta em que duas forças opostas se defrontaram. O homem e a natureza.
    Desta vez, o homem venceu!
    Voltou a porto seguro.
    Regressou. Possivelmente mais experiente e seguro de si. Quem sabe, grato!
    E ficou o abraço. O que estreitou pai e filho. O que falou mais alto. E isso era Amor!

    1. Isabel Soares

      Que comentário lindo!

    2. Ferreira Jorge C

      Obrigado Mena. Sempre belos os teus comentários. Sabes, somos dois homens de afectos e apaixonados pelo mar. Gostamos da aventura. O medo e o respeito pelo mar é um sinal de inteligência. Beijinho

  6. Maria Luiza Caetano Caetano

    O mar e o respeito. É preciso amá-lo de paixão e navegar nesse mar profundo. Medo sim. Muita coragem e inteligência, para enfrentar essa grande tempestade, de brutal dimensão e mesmo assim, ainda conseguem encontrar a beleza sobrenatural.
    Numa luta pela sobrevivência. Que grande aventura. Tal pai, tal filho. Que depois de vencida a tormenta. Se abraçaram com ternura, ouviram música e não esqueceram a poesia.
    Não esqueço a Senhora que rezou e não deixou que a luz se apagasse.
    Eu adorei. Obrigada ao pai e ao filho. Abraço-vos.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Luiza. Foi um reencontro lindo. Um abraço de mar. O sal a escorrer-nos pela face. O mar que amamos e respeitamos. Nossa paixão imensa. A ternura que adoramos. Beijinhos

  7. Cristina Ferreira

    Uma aventura muito intensa que felizmente acabou bem. Uma aventura que chega a confundir-se com a ficção. A aventura de um “menino atrevido” que tal como o seu pai, Ama o mar, que tal como o seu querido pai, também é poeta.
    Consigo imaginar a emoção do abraço. O abraço entre um pai orgulhoso e um filho que não voltou o mesmo.
    Abraço

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Cristina. Sofri aquele tempo todo. Mas, ao mesmo tempo, sentia uma alegria imensa por ele estar a cumprir um sonho. O Mar paixão sofrida. Abraço

  8. Regina Conde

    Meu Amigo como adoro a crónica. A. cumplicidade entre ti e o teu filho é uma emoção. O Mar que existe nos dois, vivem ao limite. Dias que terão sido intensos. Um legado forte “O Mar e o Respeito”. A Isaurinda sente a preocupação, aquele homem como fosse menino. Abraço enorme Jorge.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Regina. Sim, cúmplices. Adoradores do mar. O Abraço para além da onda gigante. As lágrimas de qem se ama. Abraço

  9. José Luís Outono

    “Aprender a conhecer o vento” , nos rasgos de memórias tranquilizadoras tecidas em momentos de apelo ímpar.
    Excelente “episódio” por aqui trazido e bem revelador de uma caligrafia com assinatura intensa!
    Grande abraço meu amigo!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado José Luís. Sempre assertivos os teus comentários. Quando nos dizem que o que escreveste tem a tua assinatura no modo como escrevemos é muito gratificante. Grande Abraço

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