Alexandre Honrado – Sébastien Bohler e o nosso cérebro

 

Alexandre Honrado | Sébastien Bohler e o nosso cérebro

 

Já repeti muitas vezes (e em tantos contextos) que numa linha conservadora de interpretação da cultura, a  que mais amiúde produzimos e reproduzimos e onde alicerçamos os nossos universos, em especial brandindo aquilo que queremos impor aos outros só porque nos consideramos detentores de algum valor que aos outros possa interessar, o que é uma estupidez sem cura, já disse e repito que encontrar alguém capaz de pensar“ fora da caixa” produz em mim um efeito encantatório, um prazer que dificilmente saberei traduzir por palavras. Os grandes sentimentos são assim mesmo. O mesmo se passa comigo e com a desilusão: quem se mostra igual ao que é e não me desafia, cedo ficará para trás ou arredado do meu convívio. Não consigo levar à boca todos os dias a mesma tosta, não sei se me faço entender.

Entre os que descubro, estremeço a ler um autor que declara que o cérebro humano dificilmente foi preparado para a ecologia, para uma economia sustentável, para um equilíbrio entre as espécies. É um cérebro incapaz e doente que prefere o consumo excessivo, o fazer, consumir e comer demais, todos os vícios, o desinteresse pelas coisas ou o interesse pelo que têm de mais supérfluo e descartável… Ou, por outras palavras, o nosso cérebro guia-nos racionalmente para a destruição do planeta em nome do prazer imediato.

Esta é a tese defendida por Sébastien Bohler no seu último ensaio: “O inseto humano”. O título remete-me para Franz Kafka e para essa obra-prima sobre o egoísmo que é  o seu livro “A Metamorfose” (de 1915).

Bohler não diz muita coisa que outros não tenham dito, mas pensa de uma forma intensa de um modo como poucos terão conseguido pensar. Digamos que se a ficção do passado criava cenários de fim de mundo, apenas como entretenimento e procura de emoção, foi substituída pela mais dura realidade, onde inúmeros relatórios e resultados científicos nos alertam para o fim do mundo, manifestado à cabeça pelo gelo a derreter sob os efeitos do aquecimento global e a assim inevitável subida das águas.

Estamos todos conscientes do desastre que temos pela frente, exceto talvez Donald Trump e um punhado de imbecis como ele. Mas com toda essa informação à disposição, não abandonamos os nossos hábitos (que são prejudiciais a todos).

Vivemos de cabeça curvada (sobre smartphones e práticas poluidoras que damos às nossas crianças como objeto de uso e prática de vida: somos parricidas, infanticidas, assassinos voluntários da vida, terroristas que por vezes interpretam discursos renovadores e se escondem em práticas destruidoras. Temos cérebros preguiçosos e viciosos, somos pouco cultos, pelo menos na aquisição de uma cultura que nos podia libertar, e desdenhamos dela só porque sim).

Bohler, Doutor em neurociência, colunista do programa “La Tête au carré” na France Inter, diretor da revista Brain & Psycho, partilha connosco os seus pensamentos e reflexões sobre a permanente incoerência do ser humano. Ao lê-lo, pensamos na importância do cérebro e na forma como o maltratamos. É do cérebro que saem as maiores inovações, a sensação de prazer imediato, a negação da bondade e a malevolência mais assustadora. Instrumento ambivalente na origem de muitos avanços, é também protagonista de todos os recuos. Estudos recentes registam que estamos a negar ao cérebro as suas capacidades: não o estimulamos, não o cuidamos, não nos apetece, simplesmente, enriquecê-lo. Já não usamos 10 por cento dos seus recursos e potencialidades – coisa pouca mas que nos distinguia das outras espécies – mas a percentagem desce dia a dia.

Não pensamos, porque temos um motor de busca ao alcance. Não procuramos os locais dos acontecimentos, porque há sempre um audiovisual feito por algum estranho ser do passado que registou o que queríamos ver. E normalmente perdemos o interesse pela visão, a menos que caiba na palma da mão e venha de uma aplicação qualquer que descarregámos sem sabermos ao certo para quê. Já nem sequer vamos às aulas para aprender, mas para pedir um certificado que nos torne qualquer coisa, que não sabemos ao certo o que é.

Perdemos também a memória – ninguém sabe nada sobre acontecimentos nacionais e internacionais com mais de 48 horas de ocorridos? –e todavia registamos todos os instantes numa orgia inútil de fotos tiradas pelo telemóvel e regurgitadas nas redes sociais. Comi esta sobremesa, sujei o meu vestido, a prima Alice teve gémeos, este sou eu no banho, este sou eu num hotel, em cueca e meia, antes da missa. E por aí fora.

Frases como esta assustam: “O cérebro é o objeto mais complexo do universo. É a próxima “terra incógnita”. […] nunca teríamos conseguido destruir o mundo sem essa inteligência incrível …

Vivemos no estrada secundária e terminal de um mundo que faz cada vez menos sentido. (Sébastien Bohler). Hoje, o longo tempo é inexistente. Não pode competir com todos os centros de distração que nos cercam. (Sébastien Bohler).

Somos, portanto, matéria prima para ditadores, ditaduras e para um fim do mundo muito doloroso e nada abonatório de uma espécie com algumas qualidades e um punhado de provas dadas bem interessantes.

Pensar “fora da caixa” antes que a caixa feche o cérebro, irremediavelmente. É só o que nos resta?

 

Alexandre Honrado
Historiador

 


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