OPINIÃO POLÍTICA | Mário de Sousa – O regresso

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O regresso

 “Regresso. Num comboio igual ao que me trouxe, numa manhã igual aquela em que parti. No entanto, tudo me parece diferente. Apaziguado, essa é a palavra. É assim que me sinto, nesta viagem de regresso.”i

 

Revejo nestas palavras de Carlos Porto todo o vazio que me atingiu na hora do regresso a casa após o fecho das urnas. Apaziguado pelo dever cumprido mas triste pela atitude desistente de tantos portugueses. Seria possível esperar uma atitude diferente nestas eleições? Julgo que não.

E não porque esta ‘deserção’ radical na ida às urnas de voto é a demonstração óbvia da diminuição da confiança na política, nos partidos políticos e nos políticos em geral. Todo o cinzentismo eleitoralista que antecedeu o dia 26 de Maio reforçou a ideia de que o funcionamento da democracia como fator favorável ao fortalecimento da coesão e bem-estar social não necessita de esclarecimentos e muito menos sugere questões com respostas urgentes.

Realmente, a forma vertiginosa como tem crescido o alheamento do processo democrático, afetando cerca de 2/3 da população votante, é um fenómeno que divide de forma vincada as atitudes da sociedade frente ao voto que no fundo diz respeito a uma importante área da vida social que é a cultura política. Além disso parece muito provável que a abstenção na escolha de políticos e políticas possa estar de alguma forma ligada a um fenómeno social de diferenciação de valores culturais e éticos.

Não é por isso difícil de presumir que esta falta de interesse por parte dos eleitores em sufragarem pelo voto projetos políticos, seja caucionada por uma crescente desconfiança do cidadão comum na elite política que procura o seu apoio. Os sucessivos casos de abuso de poder, corrupção, nepotismo e enriquecimento fácil, conduzem fatalmente primeiro a uma crispação, e depois à desmotivação na expressão dos seus entendimentos e perceções políticas.

E foi o que aconteceu. Com o aproximar da data das eleições todos os dias surgiram casos desprestigiantes protagonizados pelas elites financeiras e políticas, por classes profissionais, tudo sequiosamente absorvido pela comunicação social que as tratou em parangonas obliterando por completo estas eleições para o Parlamento Europeu.

Sempre à espera de tirarem dividendos fáceis da escorregadela alheia os partidos não foram capazes de formular programas e estratégias compreensíveis e suficientemente abertas que esclarecessem os eleitores sobre o seu projeto europeu. Em vez disso, entraram numa guerrilha desprestigiante, vazia, de agressividade gratuita, negligenciando os problemas que afetam o país e que presumivelmente deveriam fazer parte dos seus ideais programáticos.

Pelo caminho, foram ignorados fatores sociais tão importantes como os baixos índices salariais praticados, pensões que não chegam e pensionistas que não podem continuar à espera, apoios sociais claramente insuficientes, políticas de natalidade que não descolam, uma saúde muito pouco saudável, largas regiões do país de que muito se fala mas que continuam à espera não de visitas mas de políticas de apoio ao seu desenvolvimento, desempego jovem disfarçado com estágios remunerados e contratos precários, uma escola e uma universidade desajustadas das necessidades reais do mercado de emprego, enfim uma total ausência por parte dos partidos na formulação de objetivos políticos estratégicos para a convergência da nossa sociedade com a Europa.

Com esta ‘obscuridade’ bem patente nas suas estratégias de discurso, os partidos acabaram por desencadear campanhas muito pouco edificantes que originaram conflitos pessoais e políticos com os seus adversários, desgastando a sua legitimidade e provocando uma ‘apatia política’ no eleitorado. Atitudes negativas que não dignificam a política, que não favorecem a estabilização funcional da coesão social e que retiram à discussão a dimensão política, social e cultural essencial ao nosso estado civilizacional.

É urgente que deixe de ser assim! Na esperança de que isso aconteça lembro mais uma vez Caros Porto:

“Regresso. Num comboio igual ao que me trouxe, numa manhã igual aquela em que parti. No entanto, tudo me parece diferente. …”

 

Mafra, 29 de Maio de 2019
Mario de Sousa


PORTO, Carlos, Fábrica Sensível, Lisboa, Edições Cotovia, 1992, pag.115

 

 


Pode ler (aqui) os outros artigos de opinião de Mário de Sousa.


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