COVID-19 | Alexandre Nascimento Presidente da Distrital de Lisboa do Partido Aliança- Um olhar político sobre a pandemia

Alexandre Nascimento é Presidente da Distrital de Lisboa do Partido Aliança

 

  • Como é que avalia a atuação das autoridades locais no ataque à atual pandemia por covid-19?

Em vez de enumerar erros estratégicos, criticar a ausência de algumas medidas ou entrar em considerações políticas que podem, sempre, ser interpretadas com algum grau de subjetividade, consoante o grau de limpeza das nossas lentes partidárias, prefiro cingir-me a factos.

É que os números estão publicados, são factuais e de impossível contestação.

No concelho de Mafra os números de infetados estão a crescer de dia para dia e não se vislumbram (ou pelo menos não são públicas) quaisquer medidas para inverter esta tendência.

Nas 24h anteriores à data em que respondo a esta questão (13 de julho) foram conhecidos 10 novos casos em Mafra, numa população de apensa 85 mil residentes, enquanto que, no mesmo período, foram conhecidos 254 novos casos em toda a Área Metropolitana de Lisboa, na qual habitam cerca de 3,5 Milhões de pessoas e um total de 306 casos em todo o País que, como sabemos, tem cerca de 10,2 Milhões de habitantes.

Como dizia alguém em tempos… “É fazer as contas!”.

Preocupante!

  • Que outras medidas tomaria se fosse poder no concelho de Mafra?

Bom… não consigo dizer exatamente o que faria de melhor ou diferente e preferia até não entrar nesse tipo de especulação, uma vez que quem está fora do executivo camarário não tem uma real noção dos meios que podem estar à disposição das equipas municipais numa situação como esta.

Estamos a falar da implementação de estratégias e da tomada de decisões que têm a ver com a Saúde Pública e com a vida das pessoas. Demasiado importante… demasiado sensível! Estas questões têm que ter uma abordagem extremamente séria e responsável.

Bem sei que o normal em política é aproveitar os constrangimentos de quem tem que decidir e desembrulhar sucessivos pacotes de medidas e propostas, mais ou menos avulsas, mesmo quando se desconhecem os meios existentes no terreno

A ALIANÇA não entra nesse tipo de especulação e aproveitamento circunstancial e inopinado. Isso não é sério!

Tempos exigentes requerem bom senso e responsabilidade e eu, de facto, não conheço grande parte dos meios nem das ferramentas disponíveis para o combate à Pandemia no nosso Concelho.

Que montante financeiro é possível alocar num cenário desta gravidade. Que recursos existem. Quantos são os Recursos Humanos e, muito importante, qual a “máquina” que a ARSLVT (Área Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo) tem implementada no concelho de Mafra para conseguir apresentar soluções que fiquem à disposição do Município.

Podemos tentar lançar medidas com algum grau de acerto, mas, estando fora das estruturas municipais, é quase impossível fazer uma avaliação credível.

Há, no entanto, um dado que é irrefutável… ou não se está a fazer o suficiente, ou algo está claramente errado na estratégia da Câmara de Mafra!

Os discursos, intervenções e artigos das pessoas podem ser mais, ou menos, tendenciosos, mas os números… esses não mentem! Mafra tem apresentado, ao longo dos últimos dias, taxas diárias de infetados superiores às do resto do País e da AML.

Facilmente concluímos que a situação está longe de ser famosa e, muito menos, de estar controlada.

  • Como é que olha para o futuro pós-covid, em termos da repercussão que os novos hábitos/atitudes/medos possam ter na atividade política e na expressão económica, social e cultural?

Com muita preocupação, naturalmente!

Os primeiros sinais estão já aí e são muitíssimo preocupantes.

Não vou falar do enorme impacto económico, da mais que previsível profunda recessão, do galopante crescimento do desemprego, do encerramento de milhares de empresas, do aumento da dívida pública ou da chamada “Nova pobreza” que aí vem.

Tudo isso, com maior ou menor impacto, são já hoje, infelizmente, dados adquiridos.

Preocupa-me o facilitismo com o processo educativo e a falta de exigência que pode crescer na nossa Escola.

Preocupa-me o aproveitamento circunstancial de uma Justiça já de si pesada e morosa.

Preocupa-me a falta de acesso à Cultura… sob todas as suas formas. Um país sem Cultura é um país muito mais pobre.

Preocupa-me muito o aproveitamento casuístico e setorial que uma Pandemia com estas caraterísticas pode trazer… e os primeiros sinais (vários) já estão aí.

A preocupação com a Saúde Pública não pode, sob nenhum pretexto, servir de justificação para cercear os Direitos, Liberdades e Garantias que são um dos pilares fundamentais de um verdadeiro Estado Democrático.

Olhando para Mafra, por exemplo, não sei o que vai acontecer doravante com as assembleias presenciais, com os plenários e com os deveres de informação e divulgação previstos na Lei. Espero, e quero acreditar, sinceramente, que não… mas temo que, a reboque de uma série de justificações que se prendem com as circunstâncias extraordinárias de confinamento e restrições, a participação política e cívica fique seriamente comprometida. A ver vamos!

Espero que os tempos que agora atravessamos nos sirvam de exemplo e inspiração para que, no futuro, não possamos cometer os mesmos erros.

Se há coisa que este estranho e imprevisível Vírus nos ensinou é que não estamos, País e municípios, minimamente preparados para situações extremas e de emergência nacional.

Discutir, criar e implementar planos estratégicos de emergência nacionais, regionais e municipais, parece-me ser da maior prudência e do mais elementar bom senso.

Dotar as nossas Unidades de Saúde de meios humanos e materiais que consigam responder com eficácia e em tempo útil é absolutamente imperioso.

Repensar o licenciamento e funcionamento dos lares é urgente e prioritário.

Reequacionar a distribuição física e os espaços dentro das escolas e infantários é uma questão de responsabilidade coletiva.

Aumentar, restruturar e equipar as nossas Forças de Segurança é não só premente como fundamental para garantir a estabilidade social em tempos de emergência ou calamidade.

Preparar o futuro e mitigar os danos ao máximo, tem que envolver o esforço de todos mas depende, principalmente, dos nossos decisores políticos.

Pelo que conheço dos protagonistas, não auguro, infelizmente, grande sucesso!


Nota do diretor

Nesta fase que é já (ainda) de desconfinamento, o Jornal de Mafra pediu aos principais lideres políticos do concelho de Mafra, que a partir de 3 perguntas, iguais para todos, lançassem um olhar político sobre a pandemia que assola o concelho, o país e o mundo.

PS, PAN, CDU, CDS-PP e Aliança responderam às questões que colocámos. Não contactámos o BE, uma vez que esta força política não tem estado ativa no concelho. Com o PSD, não foi possível entrar em contacto, uma vez que aquele partido não dispõe de um contacto telefónico público e que nem o endereço de email da sede concelhia (info@psd-mafra.com), nem o endereço da concelhia de Mafra registado na página nacional do PSD (geral@psdmafra.com) se encontram ativos.

Ainda no quadro que estamos a descrever, o Jornal de Mafra pediu uma entrevista a Elísio Varandas, médico de saúde familiar no concelho de Mafra e único Presidente de Junta por um partido da oposição, entrevista que foi concedida e que contamos publicar ainda esta semana.

Pedimos ainda uma entrevista a Hélder Silva, Presidente do Conselho Municipal de Segurança de Mafra e Presidente eleito da Câmara Municipal de Mafra, entrevista exclusivamente dedicada a temas covid-19, pedido em relação ao qual não obtivemos, como vem sendo habitual, qualquer resposta.


O Jornal de Mafra e a DGS Aconselham


Mantenha-se protegido
Cuide de si, cuide de todos!


   

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