Mário de Sousa

 

Das propriedades milagrosas da isca e da bifana

 

O modo como hoje em dia se constrói a notícia que domina o nosso quotidiano, leia-se informação política, é muito menos neutro do que se pode pensar. A sua seletividade em termos de alvo é cada vez mais assertiva mas cada vez menos percetível àqueles a quem se destina. Por um lado, é oferecida de forma detalhada e meio digerida, o que à primeira vista a torna convincente, mas por outro, fica pelo caminho não raras vezes, informação essencial para a compreensão e inteligibilidade do seu fio histórico e sociológico. Amputada de acordo com a intenção de quem a veicula, a notícia acaba por se transformar no seu contrário, numa não notícia, e este é o ponto fulcral da questão, pois as não notícias têm a particularidade de possuírem memória curta.

Vem isto a propósito de nos últimos tempos, Mafra ter sido palco de uma autêntica tempestade de notícias e consequentes não notícias, sobre o monumento à sombra do qual temos vivido. Primeiro foram os carrilhões e uma vez esgotado o tema por exaustão, logo surgiu uma nova questão chamada órgãos da basílica. Em qualquer dos casos tudo se resume e resumiu no saber-se quem paga, saga que no nosso país é recorrente para tudo, embora se saiba sempre à partida, quem é que terá de puxar os cordões à bolsa. A notícia conta-nos sempre que será uma entidade pública generosamente a substituir-se a quem de direito e a desembolsar a verba, mas a não notícia esconde na sua memória curta, que será o contribuinte a resolver o assunto, muitas das vezes de forma bem mais ´generosa’, e a arcar com a despesa.

 

Na minha última crónica falei na necessidade de Mafra prender a atenção de quem nos visita de modo a aumentar a permanência e concomitantemente, poder utilizar os bens e serviços que a Vila tem para oferecer. Neste contexto Mafra foi palco de um evento que fez deslocar à nossa Vila umas centenas largas de pessoas. Com um nome assaz curioso, o evento intitulou-se ‘Gala do Porco d’Ouro’ e que foi largamente noticiado, no antes e no depois. E ainda bem. E esta é a Notícia.

A não notícia vem logo a seguir. Diz a página de Internet do Município “A Gala Porco d’Ouro iniciou-se com um concerto de órgãos na Basílica do Palácio Nacional de Mafra, seguindo-se a cerimónia no Claustro Sul do Real Edifício de Mafra,…”.

 

Há uns meses a esta parte, conforme refiro no início destas linhas, foi anunciado com grito de alarme em horário nobre da RTP 1, que os órgãos iriam parar. E porquê? Porque tal como os carrilhões aguardavam verba que pudesse custear a sua manutenção. Por isso, foi o ciclo anual de concertos suspenso. E agora aqui temos duas razões concorrentes: disse a Camara ‘por falta de manutenção’, disse o Palácio Nacional de Mafra na sua página de Facebook “Por razões técnicas não haverá concertos a 6 órgãos no ano de 2018.”. Tratando-se de engenhos eminentemente mecânicos e acústicos não será difícil de conjugar as duas razões.

 

O que já não é fácil de entender é que, após o anúncio dramático do iminente colapso dos órgãos e de se ter partido para o cancelamento dos concertos nos primeiros Domingos de cada mês, privando os mafrenses de um dos mais belos e únicos espetáculos musicais, de repente se homenageie com um ‘concerto de órgãos’ a ‘Gala do Porco d’Ouro’.

Diz o resto da não notícia: não foram os 6 órgãos que tocaram. Foram só 3. Os outros 3 já estão em obras para serem ‘mantidos’. Mas então surge-nos a pergunta: Se para este evento podem tocar 3 órgãos, porque é que não o poderão fazer senão mensalmente, de dois em dois meses, para que os mafrenses os possam ouvir? Não surge a pergunta porque a não notícia tem memória curta.

 

Bom, não existem explicações para o fato de estes três instrumentos terem recuperado a saúde de forma tão rápida. Fala-se por aí que talvez se tenham sentido revigorados pela perspetiva de um bom almoço. Há muito que se especula sobre os poderes milagrosos da isca e da bifana saloia, de longe muito mais retemperadoras que a patanisca com queijo da serra.

Boas férias para todos.

 

Mafra, 26 de Junho de 2018
Mário de Sousa

 

 



Mário de Sousa
Mafra, Consultor de Informática de Gestão, Presidente da Comissão Política Concelhia do CDS-PP

Pode ler (aqui) os artigos anteriores de Mário de Sousa