Jorge C Ferreira

 

O Baile

Dos passos não dados, das pegadas apagadas, dos voos adiados, dos beijos esquecidos, dos textos errantes. De tudo isto também se faz o nosso caminho. Somos o somatório do conseguido e do inconseguido. Somos a festa do alegre desejo alcançado e do morrer de sede com um cantil cheio na mochila. Somos o baile, a cadeira e a vassoura. Muitas vezes dançámos com a tia velha, porque chegar à princesa era impossível.

Vou caminhando e vou pensando no quanto me falta caminhar. Um passo? Quanta vida no próximo caminho. Tanta questão sem resposta. Tanta resposta sem razão. O eterno desafio. Quando terá lugar a próxima dança.

Um banco de madeira. O pinho bruto. O desejo de correr. O estar sentado virado para a parede. Um monólogo sem espectadores. Um texto sem pontuação. Respirar no sítio certo. Descobrir o sentido das coisas. Um colete de forças  num cenário branco. A companhia que não chega.

O passeio ondulado. Ondas de diferentes cores e feitios. Um caminhar embalado. O perigo do enjoo. Passar pelos outros e outros que passam por nós. Outras vidas que caminham. Cabeças cheias de sonhos. Cabeças vazias. Cabeças cheias de tudo e de nada. Uma coisa difícil de se ver pelo modo de caminhar.

Sempre o cheiro do mar e o voo das gaivotas. A areia clara a um salto. Ouve-se o rebentamento. Uma onda a acabar a sua enorme viagem. Um mar que chega e parte. Um veleiro para parte nenhuma.

O sol. O calor. O suor. As pernas que se movem de forma mecânica. O coração tão longe. O outro lado do mundo. Partir numa jangada e ser capaz de chegar. Porque sempre se chega quando a vontade é grande.

Havia um conjunto que tocava todas as semanas no baile da sociedade recreativa. Vestidos de igual. Bem apresentados. As músicas do momento. Cantigas para sonhar. Coisas de fazer amor. Muito juntinhos sem sair do mesmo sítio. Os desejos a crescerem. Ir ao baile. Levar as damas ao buffet. O inesquecível pirolito.

Como no caminhar o caminho vai mudando. O piso muda de feitio e de material. Também nos bailes a música foi mudando. Novos conjuntos. Nova música. Nova maneira de dançar. Novas bebidas no bar. Novas luzes na escuridão.

Crescem os espaços a percorrer. As nossas pernas com mais dificuldade em alcançar a próxima etapa. O tempo a escassear. A roleta que não pára. Continuar a andar é obrigatório. Não podemos parar. – É proibido – grita-nos alguém ao ouvido. Alguém que não vemos só sentimos. Continuamos.

Uma namorada arranjada no baile. Um beijo roubado a caminho do bar. O rubor. O amor. A ilusão. O proibido. O acontecido. A primeira ida ao cinema as mãos sempre dadas. Um filme esquecido. Duas cadeiras lembradas para sempre. O namoro.

Cada vez mais suor. Cada vez a roupa mais colada ao corpo. Cada vez mais automática a forma de caminhar. Os  seios dela na transparência do tecido. Uma provocação que corre. O suor a sair por todos os poros.

Entre o baile e a caminhada nos percorremos hoje. Um monólogo pelo meio. Afinal, tudo isto não passa de um monólogo. Tão estranha esta nossa forma de passar por aqui. Esta viagem de encontros e desencontros. Este desassossego.

Caminhar sempre!

Beijos enormes Isaurinda, hoje não te leio isto. Ias dizer que estou louco, que apanhei muito sol. Ias-me aconselhar a usar um chapéu. Vou andar mais uma semana à vontade.

Jorge C Ferreira(Reino de Valência) Maio/2018(170)

 



Pode ler (aqui) as crónicas semanais de Jorge C Ferreira.