Jorge C Ferreira

 

Quartos

O quarto crescente. O quarto minguante. O quarto de viver. A renda do quarto em atraso. O frio da rua. O dinheiro que não chega. A lotaria que só sai a quem tem dinheiro para jogar. O casino da Santa Casa. A raspadinha da moda. Barata e de prémio imediato. O santo engano. O malvado do dinheiro.

Os livros lidos na biblioteca municipal. O papel reutilizado. Um lápis afiado com uma faca manhosa. Molhar o bico negro do lápis na língua. A escrita a fluir. Mais um papel para rasgar. Escrever de novo. Guardar e esperar. Uma gaveta grande e com chave. Uma fechadura que não fecha.  Uma cadeira que é pouco usada. Os sapatos calçados. Tudo preparado para o fim da história.

Meia lua e uma parte de casa. Um casal e dois filhos. A cozinha e a casa de banho comum. Os banhos racionados. A pia de despejos. A partida do chefe de família para o trabalho. A lancheira de madeira, a marmita de metal, a comida para aquecer na tasca onde se compra o vinho. O pão. O alimento das mãos cansadas. Uma quase religião. O alimento de beijar. O alimento benzido.

O encontro ocasional no corredor. A conversa de ocasião. A pouca vontade de falar. Todas as palavras guardadas numa parte da cabeça que as envia para os dedos. Voltar ao quarto. Voltar à escrita. Não saber nada do que acontece. As portadas das janelas fechadas. Alguns pregões. O toque da gaita do apara-tesouras. Aquele que dizem que chama a chuva. Intuir que o dia está a começar. Uma carcaça e um café com leite.

Lua Cheia e a patroa da casa. A que cobra as rendas das partes da casa que aluga. O carrapito. Um xaile preso com um broche de pedra falsa. Um fio de ouro com a foto do falecido marido numa medalha. Refere-se sempre a ele como: – o meu falecido. Nunca ninguém soube o nome do homem. Fotografias do falecido, assinadas pelos fotógrafos e colocadas em molduras ovais, enchem as paredes. Num nicho, santas alumiadas por pavios mergulhados em azeite e uma foto do dito cujo em ponto pequeno. Um verdadeiro altar. Um perigo de incêndio.

Lua Nova e a inquilina do quarto do fundo. A rapariga de horários desencontrados e perfumes baratos. Rapariga de todas as noitadas. De muito trabalho. Um homem que chama seu e, por vezes, lhe grita desaforos. Um homem sem ofício. Uma sombra na noite. Brilhantina no cabelo e bigode penteado. – Toma conta de mim. Diz a nossa rapariga enquanto paga a renda do quarto. É a luz da casa. Por vezes uma luz triste e magoada. Muitas vezes os seus olhos parecem pedir ajuda. A boca quase sempre calada.

O homem do lápis abre as portadas para espreitar o dia. Uma catrefa de palavras esquecidas, entram-lhe pelo quarto. Nenhuma lhe serve. Fecha de novo as portadas. Decide deitar-se e esperar pelo sonho. Sabe que nasceu de um sonho e de sonho em sonho tem viajado. Não sabe a fase da lua em que estamos. Navega à bolina. Olha para a foto da Mãe que tem na mesa de cabeceira e com ela se deita. Um pijama quente e vários cobertores. Gosta do peso da roupa. Os pés custam a aquecer. Enrola-se nele e espera que algum calor lhe invada o corpo.

«Do que te foste lembrar! Que tempos!»

Voz de Isaurinda.

«Lembras-te? Era mais ou menos assim.»

Respondo.

«Sim, mais ao menos. Algumas invenções. Manias tuas.»

De novo Isaurinda e vai, o pano na mão.

Jorge C Ferreira Novembro/2018(187)  

 



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