Jorge C Ferreira

 

“A procissão da vida”

 

Essas árvores sem folhas. Essas folhas de pisar. Esse andar almofadado. Um atapetado caminho. Um capote e uma bengala. O chapéu e a barba crescida. Uma mulher que se benze ao passar frente a uma igreja. Os caminhos que continuam a ser os mesmos. Muda tudo e nada muda. Continuam a acontecer as coisas que já aconteciam todos os dias.

A idade! Os anos que se juntam a um número que determina a nossa idade. Esse caminho irreversível para o fim de tudo. Toca a sirene dos bombeiros. Tocam os sinos das igrejas. Um anúncio de algo terrível que teima em não acontecer. Viram-se cartas e deitam-se búzios. Rezam-se terços sem fim. Rosários gastos de tanta oração. Ardem velas junto à imagem de uma santa. É a hora de passar pela vida. Vamos aproveitar.

O jardim de todas as estações. As flores de todas as cores. Uma rosa especial. Uma imensa ternura aveludada. Uma rosa sem espinhos. Uma flor única que não esperávamos encontrar. A agonia das rosas negras. O seu eterno desaparecimento. O amarelo dos girassóis. Um pintor louco. A vida a passar.

Os bancos de pedra. Os bancos cama. Os bancos dos amores proibidos. Os bancos escondidos da gente que passa. O namoro de uma vida. Um amor prometido e jurado. Um modo de viver encantado. A vida que se desencontra. A desencontrada agonia. Um fio ao pescoço com uma promessa pendurada. Os bancos a gritarem os mais profundos desejos.

As horas que passam rápidas. Uns raios de sol envergonhados. Um café numa esplanada perdida. Outro café e as mãos a voarem. Uma luta de dedos. As mãos livres de anéis. As mãos que querem libertar os corpos. Os dentes a rangerem. Tanta vontade contida. A vida por vencer.

Os lagos, os riachos, as repesas. As pedras que nos ensinam o caminho da glória. O receio de chegar ao interdito. A anunciada aventura de novo interrompida. Fica tudo aprazado para o mar imenso. Para o Oceano maior. Para a mais funda fossa. Para a abissal ternura. A vida prometida.

Outras terras. Outros sítios. Outros mundos. Outros povos. As danças tribais. O fogo, a água, o vento, o ar, os quatro elementos. Os amores desatados. Uma equação a duas incógnitas por resolver. O x e o y das ruas estreitas. Forças maiores que o caminho. A força da vida.

Cada dia uma nova imagem. O roxo debruado a ouro do enorme senhor dos passos. A cruz sem fim. A procissão que não sai da igreja. A imagem que teima em ficar. Há amores assim. Amores de ficar. Amores prisão. Amores rezados. O copo e vela. O andor sem santo. Os pendões. O pálio, o sr. prior e o santíssimo. O desamor de muitas imagens arredadas dos altares. A procissão da vida.

Escreve-se sobre coisas nunca escritas. Uma escrita de autores desconhecidos. Frases curtas. Sincopadas. Desamadas. Desarmadas. Desencantadas. Tudo no princípio do que nunca aconteceu. Uma história sem razão. A equação por resolver. O amor por decifrar. A vida uma incógnita.

«Começas bem o ano, começas! Olha o que misturas para aqui!»

Fala de Isaurinda.

«São os passos da vida. Uma procissão incrível! Não achas?»

Respondo.

«Queres que te diga que sim? Quem não te conhecer que te compre!»

De novo Isaurinda e vai, o pano na mão.

Jorge C Ferreira Janeiro/2019(191)

 

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