Jorge C Ferreira

 

A Arte

Tentar ocupar o vazio. O espaço sem espaço. Uma simulação de ser. Uma aventura que sabe sempre a pouco. As letras a cavalgarem-se. Um galope alargado. Um abecedário que escreve o nome de todos os obstáculos que se vão ultrapassando. Até ao fim da dor. Até à linha final.

Um tempo enganado, um tempo de enganar. Um tempo que, por vezes, custa a percorrer. Há sempre mais uma árvore atravessada no caminho. Uma floresta de enganos e um não saber da próxima corrida, da próxima desventura.

Acreditar que, todas as noites, as palavras saem do dicionário e se vão misturar, dançar, eu sei lá que mais fazer. Acreditar que, pela manhã, estarão várias folhas, outrora brancas, preenchidas de frases com e sem sentido. Acreditar que alguém as ordenou e desordenou e que, agora, estão ali à espera do golpe final.

Uma mão que caminha por entre o preto e o branco e vai fazendo sombra ao já criado. Fantasias. Magias. Fantasmas e feiticeiras. Fogueiras que só a noite acende e tapetes onde só os mais ousados voam. Serão estes os caminhos da infinita criação?

As mãos que se misturam com as vozes que poucos ouvem. Uma coisa que não se diz a toda a gente. O perigo da incompreensão. A tristeza por falta de prazer. A desolação que castiga os corpos. O que muitos ouvem e têm medo de dizer. A acusação. As fogueiras de outros tempos. O cheiro da carne queimada.

A tinta. A muita tinta. Os desenhos que não aparecem. Aguarelas e óleos escritos em letra artística. As palavras de todas as cores. As cores de todos os sentidos. A procura da perfeita harmonia. O papel, a tela. As palavras desenhadas. Uma música de fundo e acreditar que é possível atingir o limite de todas as coisas.

As dores que sobrevêm. O estado de ansiedade. O inquieto tremer de tudo aquilo em que tocamos. Dores que vêm de um fundo tão profundo que permanecem por conta própria. As dores de parto. Um texto parido. Uma Mãe sem sexo. Uma agonia. Outra dor.

Não se sabe nunca o que vai nascer. Começar sem saber do fim. Nunca saber como se vai acabar. O FIM que não existe. Porque nada acaba. Nunca nenhuma obra artística está acabada. Tudo é uma constante mutação. O que é de hoje não serve para amanhã. Amanhã alguém irá dar uma nova volta às letras encantadas. Outras palavras nascerão. Outras frases terão lugar. Quantas obras ficarão eternas?

O pianista está louco. A partitura a mudar conforme o estado de alma de alguém que desconhece. A divina aparição a acontecer. As teclas, os martelos e um cantor que está de folga e se senta na cauda do instrumento. Um copo vazio. Uma bebida esquecida.

Tudo a nascer do nada. Tudo a preencher o tal vazio de que falámos ao princípio. O que teria sido antes de tudo se iniciar? O poder não acontecer. As mãos atadas. Os dicionários fechados a cadeado. Os pigmentos encerrados em caixas fortes. O papel queimado. Outra vez as fogueiras!

Não, não podemos permitir mais crueldades. Vamos seguir as mãos e a sua infinita vontade de fazer. Vamos amar a arte.

Isaurinda, hoje escrevi um texto que muitos podem dizer que se trata de uma coisa sem sentido. Eu acho que tem todo o sentido do Mundo. Foi aquilo que as minhas dores me pediram. Fica assim. Depois leio-te tudo.

Jorge C Ferreira(Reino de Valência) Junho/2018(173)

 



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