Artigo Editorial| As ligações do PS Mafra à Junta de Freguesia de Santa Maria Maior (Lisboa)

Jornal de Mafra 2019.10.27 00h27m14s 037

 

No quadro das últimas eleições autárquicas entrevistámos Renato Santos, o então candidato do PS Mafra à presidência da câmara e atual vereador pela mesma força política, a quem perguntámos por uma explicação “para que haja pelo menos cinco dirigentes do PS Mafra a trabalhar na Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, em Lisboa, uma junta do PS”. A esta questão respondeu Renato Santos:

Renato Santos – Não. Não, acho que a competência é reconhecida e acima de tudo, eu acho que vai muito por aí. Todos nós temos funções diferentes, fazemos coisas das nossas áreas de formação, estar ali ou estar na Câmara Municipal de Torres Vedras é exatamente igual. Pessoalmente, não vejo como um cacique ou como um meio de pressão, não posso.

As relações que ligam o PS Mafra e a Junta de Freguesia lisboeta de Santa Maria Maior governada pelo socialista Miguel Coelho, atingiram agora uma dimensão nacional, sendo tema de um artigo assinado por Sandra Felgueiras, na edição de ontem da revista Sábado.

No centro deste caso está Sérgio Santos, ex-presidente da Comissão Política concelhia de Mafra do Partido Socialista, ex-vereador da Câmara Municipal de Mafra por aquela força política, atual deputado municipal em Mafra, candidato a deputado pelo PS e dado pela Sábado como chefe do Gabinete de Manutenção, Património e Compras da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior.

Ainda segundo a Sábado, a partir do momento em que Sérgio Santos inicia as suas funções na J.F. de Santa Maria Maior, pelo menos 9 militantes da concelhia de Mafra do Partido Socialista começaram a prestar serviços na referida junta. Destes, destaca-se o candidato à presidência nas autárquicas de 2021 e atual vereador pelo PS na câmara de Mafra, Renato Santos, a cabeça de lista à Assembleia Municipal de Mafra e atual deputada municipal pelo PS, Ana Ivo da Silva e Rita Pinto, candidata à presidência da Junta de Freguesia de Mafra pela mesma força política.

No artigo em referência pode ler-se que “nesta junta [J.F. de Santa Maria Maior] instalou-se uma rede de candidatos autárquicos de Mafra, além de dezenas de empresas que têm sede em Mafra, ou cujos sócios são militantes do PS de Mafra […]”, respondendo o ex-vereador, que “devemos ser a junta com mais diversidade de contratações”.

Não havia pessoas que quisessem fazer parte das listas, tivemos de ir buscar pessoas amigas [Sérgio Santos à Sábado]

Outra questão colocada pela revista, passa pelo facto de surgirem nas listas do PS Mafra candidatos não residentes no concelho, candidatos que também desempenham funções em Sta. Maria Maior, uma realidade que, na verdade, é transversal à maioria das forças políticas por todo o país, nomeadamente, quando concorrem em concelhos onde a sua implantação é fraca, como é o caso do PS em Mafra, onde nunca liderou a câmara e onde tem perdido peso eleitoral. A esta questão respondeu Sérgio Santos afirmando com alguma candura, que “não havia pessoas que quisessem fazer parte das listas, tivemos de ir buscar pessoas amigas“.

O artigo que temos referenciado revela ainda que haverá 19 empresas sediadas em Mafra, grande parte delas propriedade de militantes socialistas, que têm contratos com a J.F. de Santa Maria Maior, facto que para Miguel Coelho, presidente desta junta, “não parece extraordiná­rio”, até porque, afirmou “temos contratos com várias centenas de empresas” .

Entre as empresas citadas no artigo surge a Palavras Prováveis, uma empresa de construção civil que pertence a David Jorge Duarte Gomes, conotado com o PSD Mafra e a empresa AECI que tem um considerável volume de negócios com a câmara Municipal de Mafra.

Mafra é um concelho onde o PSD domina com maioria absoluta há décadas. Um concelho onde as oposições encontram muitas dificuldades e onde o PS tem surgido sempre como a maior força política da oposição. Um partido com poucos militantes, com poucos quadros e onde a experiência de gestão autárquica é pouca ou nenhuma. Um partido que tem perdido influência no eleitorado, contra um PSD muito hegemónico, muito focado, muito militante e dirigido por alguém que têm uma visão profissional da política, Hélder Sousa Silva, o atual presidente dos Autarcas Social Democratas.

As reais possibilidades eleitorais autárquicas do PS local eram já residuais e com este caso esfumaram-se. Não é crível que Sérgio Santos se mantenha politicamente ativo, de resto, ele próprio declarou à Sábado “não vou ter mais cargos políticos”.

A oposição suave que o PS Mafra tem, desde sempre, exercido no concelho, colaborando mesmo com a maioria, como no caso da recente remunicipalização da água, permite que o PSD se mantenha hegemónico, dilui o exercício da oposição e permite mesmo a este partido deixar passar situações como esta, que noutras circunstâncias poderia explorar politicamente.

É interessante e educativo assistir a uma sessão de câmara e a uma sessão de assembleia Municipal em Mafra (poder hegemónico consolidado do PSD) e em  Torres Vedras (poder hegemónico consolidado do PS) e comparar a forma como é exercido o poder e a oposição, em cada um dos concelhos

Por outro lado, o silêncio do PSD Mafra, que não reagiu agora à divulgação destes dados pela Sábado, como também não reagira quando em plena campanha autárquica publicámos a entrevista a Renato Santos, será o reflexo, ou a contra-moeda política, do ensurdecedor silêncio que o PS Mafra e diga-se, a restante oposição concelhia tem demonstrado, quando são divulgados casos semelhantes a este, mas que têm por atores políticos da maioria ou próximos da maioria.

Mafra é um concelho fofinho, tem muitos jornalistas fofinhos, as oposições são bem fofinhas e os poderes, quando a tática política o aconselha, correspondem também com fofuras.

É interessante e educativo assistir a uma sessão de câmara e a uma sessão de assembleia Municipal em Mafra (poder hegemónico consolidado do PSD) e em  Torres Vedras (poder hegemónico consolidado do PS) e comparar a forma como é exercido o poder e sobretudo, como age a oposição, em cada um dos concelhos.

Quanto às fontes da notícia da Sábado, as opiniões dos vários militantes do PS Mafra que contactámos, todos espantados pela dimensão que o caso tomou, dividem-se entre fontes internas da concelhia de Mafra críticas da atual direção, fontes ligadas a militantes descontentes em serviço na própria Junta de Santa Maria Maior ou fontes ligadas ao PSD Mafra.

Por diversos meios, sempre sem sucesso, o Jornal de Mafra tentou contactar Sérgio Santos e José Graça, o atual presidente da comissão política do PS Mafra, no sentido de obter reações e dar-lhes a oportunidade de exercer o contraditório.

Paulo Quintela
Diretor do Jornal de Mafra

 

 

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