OPINIÃO POLÍTICA | Matilde Batalha (PAN) – Não há saúde sem saúde mental

Opinião Política – Matilde Batalha (PAN)
Não há saúde sem saúde mental

 

A pandemia tem tido um impacto sobre todos nós, a vários níveis. Estamos a atravessar como coletivo um período difícil e desafiante que tem impacto na nossa saúde geral e mental. Andamos há quase um ano em estado de alerta, com limitações nos contactos sociais, sem ver os nossos familiares, confinados em casa, com perda de rendimentos, entre muitas outras realidades individuais e familiares. Estamos cansados. A Organização Mundial de Saúde (OMS) refere que 60% da população se encontra em Fadiga Pandémica, isto é que se encontra em sobrecarga emocional, cansada do esforço de adaptação constante e do sentimento de imprevisibilidade. Esta fadiga pandémica reflete-se em menor capacidade cognitiva e emocional para fazer escolhas e aderir às limitações que a pandemia impõe.

O investimento em saúde mental quer em termos de intervenção, quer de prevenção e literacia para a saúde mental, tem sido descurado no nosso país e isso torna-se ainda mais evidente no meio desta crise. Continuamos a assistir a um preconceito e estigma associado à doença mental que dificulta que quem sofre procure ajuda. Já existiam antes desta pandemia dificuldades em aceder a cuidados de saúde mental. Há utentes em lista de espera para consulta de psicologia em Centros de Saúde há mais de um ano e o concurso para colocação de 40 psicólogos e nutricionistas (número muito aquém do necessário) de 2018 para os Cuidados de Saúde Primários continua ainda a decorrer, enquanto as pessoas continuam à espera. O recurso ao privado não é acessível a muitos infelizmente.

Sabemos que nos últimos meses:

  • Agravou os sintomas dos indivíduos que já se encontravam previamente diagnosticados e 1 em cada 4 portugueses sofre algum tipo de doença mental;
  • Surgiu sintomatologia ansiosa e depressiva em indivíduos que não tinham historial prévio;
  • Aumentou o uso de psicofármacos;
  • Um em cada três profissionais e saúde apresenta níveis de burnout severo;
  • Aumentou o número de casos de violência doméstica durante o confinamento (em 60% segundo OMS);
  • Somos uma sociedade em luto, com muitos lutos adiados dados os constrangimentos dos rituais e do processo de despedida dos entes queridos… e mais haveria a dizer, sobre as famílias, as crianças, os adolescentes, os desafios educativos e stress profissional e financeiro.

É excelente que o SNS24 disponibilize uma linha de aconselhamento psicológico – 808 24 24 24, existindo também uma linha autárquica em Mafra – a linha que une 261 810 261. Urge encontrar solução por videochamada e com tradutor de língua gestual, para as situações de pedidos de ajuda de indivíduos surdos ou com baixa audição.

Estas linhas são um apoio de imediato e a primeira linha que deve orientar e encaminhar para intervenções de continuidade e proximidade e não para uma lista de espera.

É urgente investir em equipas e serviços de saúde mental. Investir em saúde mental é investir na saúde física, na prevenção da doença. Teria repercussões ao nível da diminuição da fatura do SNS, das pensões antecipadas e das baixas médicas; aumentaria a produtividade e qualidade de vida das pessoas, e isso não tem preço. Acreditamos que investir na saúde mental implica mudanças na forma como vivemos como sociedade. Uma sociedade com mais tempo para a família, para a desconexão profissional e com tempo para o auto-cuidado e solidariedade.

Sem saúde mental não há saúde, não somos apenas corpo, somos um todo indissociável e as emoções, pensamentos, comportamento, o corpo e a sua fisiologia, as nossas relações, o que comemos, como vivemos estão interligados e influenciam-se mutuamente.  Devemos pensar não só no aqui e no agora, mas também no futuro.


Matilde Batalha
Psicóloga clínica e deputada municipal pelo PAN

 


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