Crónica de Jorge C Ferreira | Um tempo parado

  Um tempo parado por Jorge C Ferreira   Anda no ar um receio imenso. Há quem lhe chame medo. Andamos todos a começar a ter sinais de uma maleita que nos cerca. Qualquer sinal nos faz ficar alerta. Nos faz criar ilhas. Nos faz ficar sozinhos. Há dois anos que andamos nisto. Há tanto tempo que andamos mascarados! Os testes, as vacinas, as várias doses e apesar de tudo ainda não nos sentimos à vontade. Chegamos a desleixar outros cuidados de saúde por causa disto. Desde que isto começou…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – No Tem-Tudo

  No Tem-Tudo por Licínia Quitério   – Traz lugar? Pergunta o homúnculo por detrás do balcão, por debaixo dos capachos e dos mata-moscas pendentes do tecto, entalado entre os grandes frascos de rebuçados e a pirâmide multicolor dos alguidares de plástico. Ao silêncio de incompreensão do cliente, repete, aparentemente agastado: – Traz lugar ou precisa de um saco? É que temos poucos. Assim se fala na Drogaria Moderna, de João Cipriano (Herd.os), Lda, mais conhecida no bairro pelo Tem-Tudo. Fica numa dobra de velha Calçada de Lisboa, sinuosa como…

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Crónica de Jorge C Ferreira | O correr do tempo

  O correr do tempo por Jorge C Ferreira   Esta travessia que se vai tornando longa. Os dias que caminham nas páginas dos calendários. Calendários que não tenho em casa. Os meus relógios parados tremem por não dar horas. No entanto o tempo continua o seu caminho. A terra continua o seu caminho. As nuvens passam e deixam um sonho a voar em nós. Gosto de ver a dança das nuvens. O seu deambular. Por vezes imagino-me seu companheiro. Quantas viagens inventadas. Quantos mundos por inventar. Uma doçura que…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Ano Novo

  Ano Novo por Jorge C Ferreira   É apenas uma noite apontada no calendário. Mais um dia que brota da madrugada. Mas quem construiu este calendário assim o decidiu. Uma volta ao sol e mais um ano. Lembro-me dos calendários pendurados nas casas. Os dias riscados, os meses rasgados quando acabavam. Sempre tive pena de fevereiro, sempre o vi como um filho enjeitado. Os calendários de casa e os dos camionistas de longo curso, das garagens, os calendários famosos inundados de beldades. Esse tempo em que os mecânicos se…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Peixe fresco

  Peixe fresco por Licínia Quitério   Claudino assomou ao patamar dos degraus de mármore que davam acesso ao piso inferior. Havia um número considerável de fregueses na zona do peixe fresco. Um vozear de mulherio percorrendo as bancadas, avaliando tamanhos, preços, grau de frescura. Pareciam muito zangadas as mulheres. Não encontravam o que queriam e já iam na segunda volta. Poucos os homens, calados, dando só uma volta. Os vendedores gritavam, uns para os outros, com vozeirões de sotaque de mar,  arrastado. O chefe dos vendedores distribuia ordens a…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Natal

  Natal por Jorge C Ferreira   Estou a escrever este texto e ainda não sei como vai ser o Natal. Não sei sequer se ele vai acontecer. Esta minha triste sina de nunca saber nada sobre o futuro. Por isso não vos vou perguntar como foi o vosso Natal. Seria um contrassenso. Isto de escrever quase uma semana antes de publicar tem destas coisas. Correm-se riscos. Gosto de viver assim. Tive uma amiga que se dizia vidente encartada. Na rua era uma rapariga normal. Não voava. Nem deitava estrelas…

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Crónica de Jorge C Ferreira | O que vemos

  O que vemos por Jorge C Ferreira   Sobram-me noites nestes dias inquietos. Um dormir agitado e apressado. Assim andamos quase todos entre notícias que gritam crimes, violências, pandemias e banqueiros presos e por prender. Entretanto a festança dos nababos continua. Um foragido foi preso longe do país e lá apareceu o homem com um pijama de uma companhia aérea. Uma oferta para quem viaja no luxo de uma boa transportadora aérea. O homem também não deixa nada para trás. Ou será que tudo se agarra a ele? Não…

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Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – Guimarães

  Guimarães por Licínia Quitério   Quando há poucos anos estive mais uma vez em Guimarães, veio-me à lembrança a visita que ali fiz com os meus pais, no tempo em que eu era uma jovem rapariga com a curiosidade pelo mundo a crescer dentro de mim. À vista de novas terras, os meus olhos arregalavam-se e os ouvidos ficavam alerta para outros falares. Ali ia eu de novo, muitos anos volvidos, no comboio que me levava  pelo vale do Ave, lindíssimo de verdes e de águas e de sombras,…

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Crónica de Jorge C Ferreira | Os Muros

  Os Muros por Jorge C Ferreira   Tinha caído o muro de Berlim no dia anterior. Recebo em casa um telefonema de um grande Amigo: «querem ir passar uma semana a Berlim? Só pagam o voo.» A resposta foi imediata: claro que sim! Dois dias depois estávamos a voar para Berlim. Nos passaportes ainda vistos para a entrada na antiga RDA. Aterrámos em Berlim Oriental num voo da TAROM. Estarmos onde a história estava a acontecer levava-nos a correr todos os riscos. Foi uma semana de loucura. Os amigos…

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Crónica de Jorge C Ferreira | A Revolução

  A Revolução por Jorge C Ferreira   O processo revolucionário em curso percorria o seu sinuoso caminho. As reuniões eram intensas. Discussões intermináveis entre baforadas de fumo. Os cigarros sem fim. Barbas e cabelos grandes. As cabeças a explodirem de ideias. Uma ebulição de novidades. A liberdade a ganhar o seu espaço. Os direitos dos trabalhadores a aparecerem. Alguma dignidade. As colagens de cartazes. A propaganda. As palavras de ordem na boca dos poetas e nas paredes de Lisboa. O fim da guerra. As Mães de luto que continuariam…

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