Alice Vieira

 

O COBERTOR DE PAPA
Alice Vieira

 

De vez em quando somos alertados para qualquer coisa (ou qualquer animal, ou qualquer planta) que, de repente se encontra em vias de extinção.

O que sofremos com o lince da Malcata não tem explicação (mas, para dizer a verdade, com o passar dos anos já não sei ao certo o que lhe aconteceu)

Depois foi a cabra-montês, depois os burros, e por aí fora.

No entanto o que verdadeiramente me preocupa neste momento é a anunciada extinção dos cobertores de papa.

Segundo me lembro de ter lido há tempos num jornal, parece que, nos dias que correm, existe apenas um único fabricante, a viver numa pequena aldeia lá para as bandas da Guarda. Em morrendo (e que tenha vida longa é o que eu desejo) morre a arte com ele.

E não porque não haja ninguém a quem ele a possa transmitir, não senhora, não é isso. O que acontece é que já não há lã de qualidade. Lã a sério, lã sem modernices de fibras misturadas, aquela lã em rama, grossa, aquela honesta lã churra de ovelha.

É verdade que a procura também já não é o que era. Basta entrar num qualquer hipermercado ou centro comercial e somos inundados por anúncios de edredons com penas disto e daquilo, todos garantindo mais calor, menos peso, e maior facilidade de lavagem e arrumação. Nos dias de hoje, com casas cada vez mais pequenas e pouco tempo para tratarmos delas, não há nenhum cobertor de papa –pesado, a ocupar muito espaço e a exigir demasiado tempo e esforço na limpeza—que possa competir com eles.

Mas também não há nenhum édredon que tenha aquele cheiro único que imediatamente nos traz à memória os invernos de lareira e chá de lúcia—lima, e aquele xarope de cerveja preta e rodelas de laranja que curava todas as gripes, e o molho de agriões que a avó punha a ferver com açúcar para depois nos dar a beber a calda, que milagrosamente nos tirava a tosse de um dia para o outro.

Todas as minhas doenças de infância se curaram com cobertores de papa. Também tomava remédios à mistura, claro, e os xaropes, e os chás—mas sempre tive a certeza de que o principal factor de cura eram os dias e noites enrolada no cobertor de papa, que me fazia transpirar e me protegia de todos os males.

Lembro-me de ter lido “A Ilha do Tesouro” durante uma pneumonia. E ainda hoje esse livro –um dos livros da minha vida…-está associado ao cheiro das papas de linhaça e ao cobertor que as mantinha a ferver, aconchegadas ao meu peito.

Um dia, quando os cobertores de papa definitivamente desaparecerem, vamos todos ter muitas saudades deles, e um último exemplar estará certamente num museu, com direito a visitas guiadas, e as crianças vão passar diante dele e dirão “que bonito”

E uma ou outra talvez pergunte: “e servia para quê?”

E um leve cheiro a linhaça e a lúcia-lima andará decerto pelo ar.

 



Pode ler (aqui) as crónicas quinzenais de Alice Vieira