Alice Vieira

 

Falando de cafés
Alice Vieira

 

Mário de Sá Carneiro escreveu um poema—talvez dos mais conhecidos—dedicado à sua mesa de café.

”Minha mesa no café/ quero-lhe  tanto…A garrida/ toda de pedra brunida/que linda e fresca que é // Sobre ela posso escrever/ os meus versos prateados/ com estranheza dos criados/que me olham sem perceber….”

E por aí fora.

Lembrava-me sempre destes versos de cada vez que me sentava à mesa do “Toninho”,o café mesmo em frente da minha casa. Também eu queria muito à minha mesa—embora fosse de fórmica e não de pedra brunida…–aquela ali mesmo ao canto, e como ficava aborrecida quando alguém a ocupava. O que, diga-se, era raro acontecer, porque eu entrava naquele café ainda antes das sete da manhã, e a essa hora era raro estar cheio. O Sr. Josué nem perguntava nada, já sabia o que eu queria, e também sabia que eu não iria sair dali tão cedo. Aquela era a minha segunda casa. Lembrava-me de ter lá entrado pela primeira vez com a minha filha ao colo…e a criatura já passou dos quarenta…

Ali os amigos deixavam recados para mim, ali os carteiros entregavam encomendas para mim quando eu não estava em casa, ali eu deixava as chaves de minha casa para quem precisasse delas (ou eu me esquecesse das minhas, o que já tinha acontecido algumas vezes…). E ali eu escrevia sem limite de horários. Quer dizer : nunca houve por lá nenhuma daquelas placas a dizer “proibido estudar”, nem serviam almoços a partir das onze da manhã, como a esmagadora maioria dos cafés , empurrando-nos para fora.

Ali eu sabia que me podia sempre acolher—porque nunca, mas mesmo nunca fechava. Domingos, feriados, Natal, Ano Novo, aquelas portas estavam sempre abertas—e só fechavam bem para lá das onze da  noite. Diziam, a rir, que era por minha causa e por causa dos taxistas da praça em frente

Chatices, neuras, mágoas, muito disso foi lá resolvido.

Ali eu encontrava gente de quem gostava muito  : o Raul Solnado, o D. António Ribeiro (antes de ser cardeal, evidentemente), a cantora  Dulce Cabrita, o Dinis Machado –sempre envolto nas suas nuvens de fumo–uma vez por outra o Almada Negreiros.

Ali eu tinha reencontrado o segundo homem da minha vida, quarenta anos depois de nos termos separado. O “Toninho” passou também a ser a sua segunda casa.

Nunca pensei que o “Toninho” não fosse eterno.

Mas não foi.

O Sr. Josué morreu, e os filhos optaram por outras vidas.

Um dia, há quase dois anos, as portas fecharam.

E eu fiquei órfã. Até tive de me socorrer de uma psicóloga.

Porque eu pertenço àquela geração que escrevia nos cafés. E que ainda  não sabe escrever noutro lado.

Que teria sido de mim, há muitos anos , estava eu a começar a trabalhar no “Diário de Lisboa”, sem o “Orion”, no Calhariz, onde eu escrevia enquanto esperava pelo primeiro homem da minha vida, que não tardaria a descer a Rua Luz Soriano e entrar ali?

Que teria sido de mim, nos anos sessenta, sem o Café Cujas, na rua do mesmo nome em Paris, ( que só fechava das 6 às 7 da manhã para limpeza), onde escrevia horas a fio, esperando pelos amigos que tentavam amenizar-me a lonjura da pátria?

E que seria agora de mim, também, sem o “Central” na Ericeira, com o sorriso da senhora, que assim que eu entro me pergunta “então, muito trabalhinho hoje?” (e, já agora, espero que as obras acabem depressa e enquanto eu estou em Lisboa e chove desalmadamente…)

Lembro-me um dia, numa conversa com o escritor Augusto Abelaira, (que abancava diariamente num café da Rua Barata Salgueiro, em Lisboa) ele me dizer: “ se um dia os cafés fecharem, eu deixo de escrever”. E rimos ambos, porque então os cafés não fechavam.

Eram eternos, pensávamos nós.

Mas—aleluia!—o “Toninho” reabriu anteontem.

Ou seja: abriu um café no lugar onde estava o “Toninho”. A placa com o nome foi retirada –aqui para nós: um disparate, pois assim deixou de poder ser classificado entre as “lojas com história” aqui da freguesia ( a nossa presidente da Junta bem tentou, honra lhe seja feita)—e em seu lugar teremos agora “A Virtuosa”. A abrir às sete da manhã (pelo menos é a intenção dos novos donos) e a fechar às sete da tarde, como toda a virtuosa que se preza.

Eu até percebo que não feche às onze da noite : esta rua que, há meia dúzia de anos tinha grande movimento (aqui havia um hospital, um lar de enfermeiras, farmácias, tribunais, o Instituto Francês ) agora é um deserto, porque tudo isso fechou.

Por dentro está diferente, claro, mas isso não me assusta.

Veremos se vai manter os bons hábitos do “Toninho”.

Veremos se volto a ter a minha segunda casa aqui mesmo em frente.

Veremos se vai ser, como o outro foi, o meu porto de abrigo para curar neuras, chatices e mágoas.

Veremos se já nem é preciso continuar a socorrer-me da psicóloga.

Bem preciso.

 



Pode ler (aqui) as crónicas quinzenais de Alice Vieira