Crónica de Alexandre Honrado – Sempre a tilintar

 

Crónica de Alexandre Honrado
Sempre a tilintar

 

Eu nasci em Lisboa e andei a crescer por lá, entre asfalto e nuvens.

Quando era menino, o asfalto ainda era pouco e muito triste, a terra batida atirava-nos poeira para os olhos e as ideias que se trocavam em voz baixa mas não tímida eram espancadas e encarceradas; as nuvens contrariavam sempre o Sol, esse Sol que em Lisboa é pródigo e farto como um útero fértil.

Há qualquer coisa na atmosfera que nos convida a ser felizes na minha cidade, embora sejamos há tantos anos magoados e hesitantes no sentir… O que nos dá a aparência de todos os nostálgicos.

Cresci com ideias caladas, assisti às ideias soltas, encantei-me com as palavras. Aproveitei-as como aproveitava o Sol que lutava com as nuvens. Em menino, decidi que, no que escrevesse, o riso ia ser um rasto irregular, porque palavras que riem são desordenadas – e a ordem parecia-me sempre uma enorme falta de razão. Da desordem, do caos, as novas ideias emergiam.

Dos deveres eu extraía um direito: o riso. E afinal, tudo é uma questão de direitos. Direito a pensar, a sentir, a agir, a ser dono de um próprio destino, a comer, a trabalhar, a ser saudável, a amar e a criar…
Eu escutava à porta dos risos na minha cidade triste. E ainda hoje o faço, mesmo correndo o risco de ensurdecer de vez… Porque a minha cidade triste aprendeu a rir e ainda não parou, mesmo quando se esquece de fazê-lo, ou perde a consciência de que essa é uma das suas principais conquistas. O nosso riso de menino coletivo, que nos surpreende tanto, a todos nós que temos a liberdade como destino recém gerado.

A nossa História, convém não esquecer, não é a que foi escrita, mas a que escapou à censura e aos censores. É, para ser mais exato, a nossa memória. E nela encanta-me o riso. Sobreviveu às guerras civis, às guerras religiosas, à Inquisição, ao Holocausto, ao Nazismo, ao Fascismo, ao Franquismo, ao Estalinismo, ao Salazarismo, à guerra colonial… O riso como o lado oculto e perpetuador. O riso que liberta, emancipa, denuncia, crítica e age.

Cresci, portanto, à sombra das palavras, sugando-lhes os risos, e ao redor das árvores de Lisboa, fintando-lhe as sombras para aprender a sorrir sem elas.

Se não as conhecem, às palavras e às árvores de Lisboa, parem na cidade. Ouvirão palavras vindas dos quatro caminhos da lembrança, palavras de África, da Oceânia, da América do Sul, misturadas agora com sabores eslavos e sotaques de Leste, crioulos de muitos ventos, sons da diáspora, fusão de memórias, um parlar encantatório, guizos de muito sentir, sempre a tilintar.

 

Alexandre Honrado


Alexandre Honrado
Escritor, jornalista, guionista, dramaturgo, professor e investigador universitário, dedicando-se sobretudo ao Estudo da Ciência das Religiões e aos Estudos Culturais. Criou na segunda década do século XXI, com um grupo de sete cidadãos preocupados com a defesa dos valores humanistas, o Observatório para a Liberdade Religiosa. Dirige o Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos Humanistas para a Paz, integrado na área de Ciência das Religiões da ULHT Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. É investigador do CLEPUL – Centro de Estudos Lusófonos e Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do Gabinete MCCLA Mulheres, Cultura, Ciência, Letras e Artes da CIDH – Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos da Globalização.

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