Crónica de Licínia Quitério | O Conde Drácula

 

De ontem e de hoje – O Conde Drácula
por Licínia Quitério

 

Ouvir falar da Roménia, dos Cárpatos, dos seus castelos, logo me faz vir à lembrança o nome de Bram Stoker, o escritor que deu vida à sua assustadora e sedutora criatura, o conde Drácula, vampiro insaciável de sangue humano, nas noites fabulosas do seu castelo. Drácula veio povoar os primeiros sonhos góticos de uma geração muito marcada pela rigidez dos costumes vitorianos, permitindo inclusivamente alusões à sexualidade proibida e perseguida.

Lembro-me de ir ver, com o meu pai, o primeiro filme sobre o conde Drácula, interpretado pelo actor húngaro Béla Lugosi, que muito bem agarrou o papel, sendo levado a encarnar posteriormente vários filmes do género chamado “de terror”. Eu era muito novita, mas nessa altura, pasme-se, não havia leis restritivas da idade autorizada para uma ida ao cinema. No regresso a casa, provavelmente percebendo-me perturbada pelo horror exibido no filme, o meu pai, não futurando a técnica de efeitos especiais, ia-me dizendo, com as expressões da época:

– Aquilo é tudo fantasia. Os vampiros não existem. São truques do cinema.

Eu fazia-me muito forte, esforçava-me para que a minha voz não tremesse e mentia, convencida que enganava o meu pai:

– Não me meteu medo nenhum. Nenhum.

Ele assentia, carinhoso, a segurar com mais força a minha mão na dele:

– Claro que não.

Entretanto, chegávamos a casa e eu deixava o meu pai ir à minha frente acender a luz, não fosse algum vampiro andar por ali perdido no escuro.

Quando há alguns anos fui ver o filme de Coppola, Bram Stoker’s Dracula, já não precisei de mentir, não tive mesmo medo nenhum. Dediquei-me, isso sim, a apreciar a excelente qualidade do filme. Da Roménia, com outro tipo de vampiros, não me interessa falar.

 

Licínia Quitério


Licínia Quitério
Licínia Correia Batista Quitério nasceu em Mafra em 30.Jan.1940. Foi professora, tradutora e correspondente comercial. Tem publicados oito livros de poesia – A decadência das falésias; Da Memória dos Sentidos; De Pé sobre o Silêncio; Poemas do Tempo Breve; Os Sítios; O Livro dos Cansaços; Memória, Silêncio e Água; Travessia (Menção Honrosa do Prémio Internacional de Poesia Glória de Sant’Anna 2019). Participou nas Antologias de Poesia – Cintilações da Sombra 2 e 3; Clepsydra; A Norte do Futuro; 13 Poetas Portugueses Contemporâneos (bilingue). Publicou os seguintes livros de ficção –  Disco Rígido (contos); Disco Rígido (contos) – Volume II; Os Olhos de Aura (romance); A Metade de um Homem (romance); A Tribo (romance); Mala de Porão (romance). Tradução (do castelhano): O Vizinho Invisível, de Francisco José Faraldo

Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Licínia Quitério.


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One Thought to “Crónica de Licínia Quitério | O Conde Drácula”

  1. Maria Clara Pimentel

    Realmente, fiquemo-nos por estes vampiros quase românticos e deixemos os actuais, bem piores.
    Ler a sua crónica, Licínia, como tudo quanto escreve, é mergulhar em encantamento.
    Muito obrigada por ser quem é e como é e por escrever com tanta magia.
    Clara

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