Crónica de Jorge C Ferreira | Aprender

 

Aprender
por Jorge C Ferreira

 

A ilusão de encontrar o sempre desejado. Umas pernas que não encontram o futuro. O futuro, esse acto desconhecido. Um caminhar arrastado. Uma casa no meio da floresta e os animais que nos procuram. Somos as presas mais fáceis. Os mais desfavorecidos de todos. Nada mais nos pode faltar. Não há bálsamos para este modo de estar.

Somos os restos que os nababos desta vida desdenham. Somos os velhos. Os que estamos a mais. Os que somos empecilhos para essa gente. Tinha um Tio-Avô que quando o aborreciam, pelas suas queixas das maleitas que o incomodavam, logo respondia: se chegares à minha idade, Deus queira que não… Todos nos ríamos. Hoje entendo o que ele queria dizer.

Os meninos vestidos com as calças dos pais pensam que são homens. As gravatas da moda a engalanar os colarinhos emplumados. Fedelhos de crista a falar de cátedra sobre a vida que nunca viveram. Pululam de programa de televisão em programa de televisão. De assessores de gabinete, a secretários de estado, a ministros de todas as pastas. Foram para as juventudes e serão jovens toda a vida. Há também “jovens turcos” a armar ao rebelde. No fim, tudo a mesma conversa.

Depois os que trabalham há muito tempo e ainda não chegou o tempo deles para a reforma. Os do salário mínimo que moram longe do trabalho. Os que foram expulsos das cidades grandes. A quem só as viagens para o trabalho são um cansaço. Depois a miséria com que vão conseguindo sobreviver. Têm filhos que gostavam que estudassem e fossem o que gostariam de ser. Que tivessem uma vida melhor do que a deles. A importância da escola pública. Dos professores. A importância e o direito à educação.

Lembro-me do nome de todos os meus professores da primeira à quarta classe da instrução primária:

Primeira classe: Professor Torres;

Segunda classe: Professor Trindade;

Terceira e quarta classes: Professor Costa

Tudo isto na escola primária nº 14 no Largo do Leão, ali ao lado dos Bombeiros da Cruz de Malta. Deixo aqui os seus nomes numa homenagem a todos os que dedicaram e dedicam a sua vida a ensinar os outros.

Estou a escrever este texto enquanto os professores, (muitos mil), descem a Avenida de todas as Liberdades até ao Terreiro do Paço. Uma manifestação que me emociona por alguma espontaneidade. Os cartazes feitos em casa. A criatividade a sair à rua.

Vejo uma política a falar e não gosto. Perante o que está à vista de todos devia abster-se de invadir o palco dos outros. A verdade é que a culpa também é de quem lhe dá direito de antena. Também o primeiro-ministro com um pulôver azul eléctrico, (dizem que é a cor da moda). Discursa, há mesma hora, como se tivesse chegado ontem ao governo sobre as reivindicações dos professores. Um despautério.

Temos de perder o medo. Temos de ser mais exigentes. De expor na praça pública o que é ridículo. Fiscalizar e obrigar os que elegemos a fiscalizarem a “matula” que finge que governa.

Se estiverem fartos disto, GRITEM. Não tenham medo e por favor não adiram a populismos de vendedores de banha de cobra. Essa gente que nós, os mais antigos, conhecemos bem. Muitos andam por aí. São iguais aos outros. Só se encadernam de modo diferente. Tenham atenção.

Professor Torres, Professor Trindade, Professor Costa e todos os que se seguiram, obrigado por tudo. A minha saudade imensa.

«Gostei que falasses dos teus primeiros professores, os professores que eu não tive.»

Fala de Isaurinda.

«Eu sabia que ias gostar. Os professores a que tinhas direito e não tiveste.»

Respondo.

«Outros tempos. O trabalho começava cedo e vivia numa ilha lá longe.»

De novo Isaurinda e vai, o choro a querer saltar.

Jorge C Ferreira Janeiro/2023(382)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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22 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Aprender”

  1. Regina Conde

    A dualidade de sentimentos que sinto pelos diferentes temas nesta belíssima crónica. Não vou mencionar situações que me provocam mau estar.
    São várias as lições de vida. Os nossos professores. A minha primeira professora Antónia, ternura maior, de cabelos brancos. A seguinte professora marcou-me pela negativa. Os professores não podem desistir de lutar como dizes de forma bem vincada. Precisam do nosso apoio. A surdez é uma constante. Esta crónica devia estar na mão de cada professor. Abraço meu Amigo.

    .

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Regina. Os nossos professores. O nosso respeito. Os ensinamentos. Muito do que carregamos connosco. Muito grato pela tua presença neste espaço. Abraço

  2. Maria Luiza Caetano Caetano

    Bela a sua Crónica, não pode ser mais humana em relação aos professores, que lutam pelos seus direitos. Uma classe tão nobre e tão mal tratada.
    Linda homenagem que presta aos seus professores, da classe primária. Aí, começa a cultura, que todos nós precisamos. Que trabalho lindo eles fazem.
    Lembro bem, quando comecei a juntar as letras e as palavras a fazerem sentido, para mim. Lembro com carinho a minha professora, que me acompanhou, da primeira à quarta classe. De seu nome, Alice Dias Alves.
    Como tantos, Isaurinda não teve o privilégio de falar, destes professores tão importantes na nossa vida.
    Grata a si meu amigo, pela beleza e pela força da sua escrita e pela verdade das suas palavras.
    Abraço enorme.

    1. Ferreira Jorge C

      Muito obrigado, Maria Luiza. Lembro-me de todos os cantos da minha escola primária. Lebro-me de todos os mestres que me marcaram ao longo da vida. Não tolero o modo como estão a ser tratados os professores. Não tolero muitas outras coisas. Grato pelo seu comentário. Abraço

  3. José Luís Outono

    Após uma leitura emotiva, que retrata bem os momentos errados deste viver, olho para trás e vejo-me hoje como ex-professor num grito de apoio não ao cântico do exigir, mas ao que deveria já existir.
    Quedo-me por aqui, não vá escrever sulcos de irritabilidade , apesar de lógicos e directos.
    Grato amigo pelo teu escrever … também corajoso!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado José Luís, poeta. Deves sentir bem o que se está a passar. A falta derespeito por quem tem uma profissão nobre. Não podemos calar. Imensa a minha gratidão pela tua presença. Abraço

  4. Eulália Coutinho Pereira

    Bela crónica. Também eu agradeço aos professores que me acompanharam, no meu percurso, numa realidade tão diferente.
    Lembro-me de cada um, alguns ficarão para sempre no meu coração.
    Todos contribuíram para fazer de mim a pessoa que sou hoje.
    O ensino tem que ser uma prioridade. Ensino com dignidade para professores e alunos.
    A desilusão em que se tornou a politica e os políticos,faz-nos questionar qual o caminho da humanidade.
    Obrigada Amigo, por estar desse lado.
    Grande abraço.

    O

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Eulália. Os nossos mestres. Os que não podemos esquecer. Consigo visualizar os seus gestos em múltiplas situações. Vivem em mim os seus ensinamentos. Temos de ser solidários com todos os que garantem a educação. A educação um dos principais pilares de um país que se quer desenvolvido. Grato pela sua presença. Abraço

  5. António Feliciano Pereira

    Boa tarde, Jorge!
    Vivi em Setúbal e tive como amigo um ancião, magarefe de profissão e falido pelo destino. Contava-me muitas histórias que os seus 80 anos ainda guardavam. Eu, algo travesso — 14 anos — fazia para o aborrecer
    e ouvia o que não desejava: “quando chegares à minha idade não vales um pataco”, e é verdade!
    A este Mestre, de nome Augusto Portela. rendo-me em homenagem por sua memória, um poço de sabedoria!
    Um abraço, Jorge!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado António. Que bom trazer os ensinamentos que a vida nos proporciona através da gente mais simples mas tão importante. Sábios que nos tentam passar o seu conhecimento prático. Muito grato pela sua presença neste espaço. Abraço

  6. Filomena Geraldes

    Jorge.
    Meu querido amigo.
    Meu cronista. Defensor de um
    discurso que hoje sinto como se fosse um pouco meu.
    Humanista, sensato e convincente.
    Eloquente e pelejador dos direitos de uma classe que tem sido tão esquecida…
    Como te estou grata! Por teres recordado os que te ensinaram
    Mas também aprenderam.
    Não um comentário. Perdoa-me. Excerto de um poema que escrevi quando deixei de ser professora.
    Vou sê-lo enquanto viver.
    Continuo a fazer voluntariado na escola onde dei aulas nos últimos quinze anos.

    confidência
    eu sei.
    é verdade que me falta algum brilho
    algum retorno de cumplicidades
    alguma resiliência…
    fala mais alto o cansaço do corpo.
    mas acredita em mim
    ainda sei encontrar agrado
    quando descubro que aprendeste
    questionas, desafias, recrias
    e ainda nos sentimos unidos
    nesses momentos únicos. tão nossos.
    entre quatro paredes.
    deixa que te diga que é por ti
    que ainda estou aqui.
    ainda preciso que me doa a voz
    se não entendeste e tenho que repetir…
    de escrever no quadro até que se gaste a caneta
    e tu manifestes certo desagrado pois estás cansado de escrever e de me ouvir
    que leias como quem não sabe
    e, pacientemente, eu te emende
    e digas uma tontice e eu não tenha
    vergonha de soltar uma gargalhada…
    ainda penso em ti todos os dias
    tu que tens tantos nomes que já esqueci
    penso e repenso o que fazer, como fazer
    para que te não distraias e queiras estar comigo .
    como um verdadeiro amigo
    deixa que te diga que é por ti
    que ainda estou aqui!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Mena. Que belo o que escreves. Professora uma vez, professora para sempre. Uma paixão que se sente que te acompanha. Belo o poema. A minha grata admiração o meu gosto de te ler aqui. Abraço

  7. Fernanda Luís

    Amigo Jorge, excelente crónica que espelha bem a triste realidade em que vivemos.
    Subscrevo se me autorizar…
    O direito à indignação, pois claro!
    Bonita homenagem aos seus professores, grandes pilares para a vida e a todos os professores que ensinam a voar e semeiam a vontade de conhecer mais e mais sempre, pela vida fora. Aprender todos os dias.
    Apoio a luta dos professores, sem dúvida.
    O reconhecimento da profissão e melhores condições de trabalho, uma urgência nacional.
    Quanto à corrupção, tachos e tachinhos dariam muito pano pra mangas… Por ora, fico pelo escândalo, falta vergonha e ética…
    Abraço grande

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Fernanda. Lembrar sempre e dar valor aos que nos transmitiram os ensinamentos para a vida. Saber da importância da educação para sermos um país livre e inteiro. Ser solidário. Grato pelo seu comentário. Abraço.

  8. Maria Matos

    Maria Matos. 23 Janeiro 2023 21:54
    Gostei muito da sua crónica, Jorge. O que nós devemos aos nossos professores… e o que continuam a dever os alunos de todos os anos lectivos aos seus actuais, que atravessam uma fase justa de reivindicações. Esperemos que os seus intentos sejam conseguidos .

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Matos. Sempre ter em mente a importância da educação e de quem a administra. A importância dos mestres. Nunca os esquecer. Ser solidário. Grato pela sua presença neste espaço. Abraço

  9. Lénea Bispo

    Que bonita homenagem aos professores.
    Eu também gritei bem alto, espero que se tivesse ouvido em avenidas e palácios , parlamentos e gabinetes. Porque é o grito de uma pessoa que sabe o que é ser professor e que sofre pelos direitos e liberdades que lhes são retirados .
    Que seja reposta a sua dignidade.
    É Urgente!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Lénea. Concerteza que a sua voz foi importante. Todas as vozes são importantes. Nunca esqueceros mestres. Deve-se sentir dedever cuprido pela sua acção. Imensa gratidão pela sua presença neste espaço. Abraço

  10. Branca Maria Ruas

    A minha mãe, avó materna e tias maternas (as duas irmãs da minha mãe) eram professoras. Recordo-me, desde muito pequena, da minha mãe levar para casa alunos com maiores dificuldades económicas, para os preparar para o exame da 4ª classe. A casa não era grande e, por vezes, tinha que saltar por cima das pernas deles, sentados no corredor, para ir até à cozinha. Muitos ficaram-lhe gratos por toda a vida.
    Sem professores a grande maioria das profissões não existiria.
    Também eu acabei por me dedicar ao ensino de corpo e alma durante 38 anos.
    Conheço por dentro os problemas dos professores. Um professor nunca pode parar de estudar, de aprender. E tanto que se aprende com os alunos…
    Saúde e educação deviam ser prioridades de qualquer governo.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria. A tua Mãe generosa pessoa. Assim são os verdadeiros mestres. Nunca se esquecem. Os que vão para além do exigido. Respeitar os professorea. Saber da sua importância. Grato por estares aqui. Abraço

  11. Claudina Silva

    Amei a tua crónica ! Tempos difíceis que se avizinham, uma geração com vivências que não terão seguimento….Também tenho as melhores recordações dos meus professores…enfim… vamos aguardar.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Claudina. Os nossos primeiros mestres. Os nossos primeiros saberes. O pátio da nossa escola. A nossa carteira e o copanheiro do lado. Saibamos honrar os professores. Grato pela tua presença. Abraço

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