Crónica de Jorge C Ferreira | Um passadiço mágico

 

Um passadiço mágico
por Jorge C Ferreira

 

Os perdidos e achados. Tanta coisa esquecida. Tanta tralha por lembrar. O passadiço do elevador de Santa Justa. As ruínas do Convento do Carmo. Aquele estreito caminho. As caixas de madeira envernizada que desciam até à Rua Áurea e subiam de novo. Um vai e vem que alucinava. A vista deslumbrante. O convite ao delírio.

Aquela casa com um balcão e um guichet. O mundo lá dentro. Coisas impossíveis de esquecer. Outras impossíveis de lembrar. Dos guarda-chuvas aos mais inesperados objectos, tudo morava ali. Muitas vezes saíamos da Veiga e íamos arreliar o senhor do guichet. Íamos perguntar pela coroa de dar corda ao relógio que tínhamos perdido. O senhor já nos conhecia e quase saltava o balcão. Nós corríamos de novo para a escola.

Um perfume que perdeu a fragância. Um sapato sem par. Uma carteira sem dinheiro. Uma bengala com castão em prata. Uma mala de senhora. Uma pulseira e um brinco. Um saco com trinta moedas e mais trinta e uma mil coisas. Tudo catalogado. Tudo registado. Eram os perdidos e achados da Carris.

Nunca perdi a coroa de dar corda ao meu relógio de pulso. Relógio que o meu querido Avô me deu após o exame da terceira classe. Um Hertig Certina banhado a ouro de não sei quantos quilates. Um orgulho para mim. Um relógio que já dei ao meu filho que o tem exposto na entrada da sua casa juntamente com as fotografias dos bisavós. Acho que nos devemos desfazer das coisas em vida. Passar o testemunho.

Será que muitas daquelas coisas não foram perdidas e foram antes deixadas ficar para que alguém as encontrasse e delas fizesse um uso útil? Ao fim de algum tempo tudo irá a leilão. Haverá quem se interesse por aqueles despojos. Quem ofereça uma bagatela por eles. Tudo vale pouco para quem só faz negócio e não vê o simbolismo dos objectos.

Aquele armazém fascinava-me. Um caixa de música. Uma flor seca dentro de um frasco de vidro. Um maço de cartas atadas por uma fita muito antiga. Uma caneta de tinta permanente. Lágrimas em caixas de fósforos. Sempre suspeitei que, por ali, se encontrariam amores perdidos. As lâminas da traição. A consciência de muita gente. Um frasco com a última respiração de alguém.

Tudo imaginava e em tudo pensava enquanto um professor nos fazia ler textos que não me agradavam. Sempre que atravessava aquele passadiço havia uma voz que me chamava para dentro daquele mundo, daquela estranha casa. Por vezes sentia-me perdido e queria que alguém me achasse. Faria eu parte de todos aqueles restos esquecidos?

No Convento os pombos faziam ninhos e procriavam. Enchiam o nosso largo. Ocupavam todos os espaços. Não havia Passos Perdidos naquele largo. Mais tarde, depois de se ter reformado, o meu Avô foi trabalhar para o Convento do Carmo. Foi lá que viu acontecer a Liberdade. Tinha setenta e quatro anos e tinha vivido, dito por ele, um dia que tinha pensado que já não iria ver. A liberdade que não se encontrava nos perdidos e achados. Foi gritada por muitas vozes naquele Largo tão nosso.

«Tu, nessa altura, devias andar era de cabeça perdida.»

Voz de Isaurinda.

«Éramos muito jovens. Coisas de miúdos»

Respondo.

«Tu e as tuas desculpas. Tens sempre resposta para tudo.»

De novo Isaurinda e vai, um sorriso rasgado.

 

Jorge C Ferreira Janeiro/2023(380)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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24 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Um passadiço mágico”

  1. Regina Conde

    Gosto de caminhar nesse passadiço mágico. Cada um de nós tem lembranças semelhantes a sonhos à dimensão enquando crianças. Tão bonito o teu filho enaltecer o teu relógio oferecido pelo avô. A minha filha fez questão de levar para a casa dela diversos objectos da avó paterna. Serão cuidados os legados.
    Adorei a crónica, ternura e sensibilidade. Abraço meu Amigo.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Regina. A nossa vida a passar num passadiço para o belo. Os nossos objectos importantes e a passagem de testemunho. A minha gratidão por estares aqui. Abraço

  2. Filomena Geraldes

    Os perdidos e achados.
    ” Um frasco com a última respiração de alguém” …
    São estes os lugares onde a magia tem lugar cativo.
    A réstia de luar, o peão do jogo de xadrez, uma fantasia do dedo anelar,
    as pétalas de um crisântemo, um chapéu de palha de marca italiana, o mapa do tesouro, um soldadinho de chumbo, o livro de poemas com corações desenhados à mão, a bruma de que se cobre a cidade.
    Ao anoitecer.
    Tudo tem o seu esconderijo.
    Nos perdidos muito se acha.
    Era tal o fascínio que nem quero imaginar como essa imaginação prodigiosa te instigou a seguir as pegadas do sapato, o odor perdido do frasco de perfume, o sumiço das moedas da velha carteira ou o traço
    da caneta de tinta permanente.
    São objectos. Tantos deles que narram estórias de vida, desgostos de amor ou ténues nostalgias que o tempo acabou por apagar.
    Como me foi agradável saber do testemunho que já passaste ao teu filho. O relógio de pulso que outrora pertenceu ao teu avô…
    É em vida que devemos partilhar amor.
    Pouco conservo do meu passado.
    Algumas fotografias, jóias com significado sentimental, livros escritos por um tio-avô e pela mãe,
    os desenhos de estátua do meu pai, um rádio e uma máquina de escrever com dezenas de anos e algum pó à mistura.
    Como é meu hábito sigo a tua escrita com deslumbramento. Aprecio o modo como nos narras os mil e um dias. Ficamos à espera do milésimo primeiro…

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Mena. Sempre belos os teus comentários. São só para agradecer acrecentar seria estragar. Só uma nota, no meu tempo havia exame da terceira classe. O tal relógio foi uma prenda do meu Avô, mas novo. A minha imensa gratidão. Beijinho

  3. Maria Luiza Caetano Caetano

    Que história linda, tão sua.
    É encantador lembrar os avós, que tantas memórias deixaram e guarda no coração. O avô ofereceu-lhe um relógio, que fez as suas delícias.
    Prenda inesquecível, que quis legar em vida. Não foi só a passagem do testemunho, também foi exemplo de um bonito gesto. Sempre sensível.
    Lugares tão bonitos, que nos recorda. Largo do Carmo, lugar de Liberdade, que seu avô ainda teve a felicidade de viver.
    É mesmo muito bom lê-lo! Em pensamento, estou a percorrer todas as voltas, que a sua história me fez recordar. Adorei, querido escritor.
    Abraço, muito amigo.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Luiza. É tão gratificante ler os seus comentários. As nossas vidas, um passadiço para a cidade e um relógio com história. Muito grato por tudo. Abraço enorme.

  4. Eulália Martins

    Consegues fazer com que eu veja e sinta como tendo sido esse lugar onde nunca fui e de que apenas ouvia falar. Sim, ouvia porque hoje já não ouço. Lugares mágicos. Em particular o lugar que é a tua infância e juventude. Infância e juventude partilhadas.
    Beijinho ❤️

    Beijinho

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Eulália. Que feliz fico por lhe mostrar este pedaço da minha vida. Que bom o seu comentário. Muito grato pela sua presença e palavras. Beijinho

  5. José Luís Outono

    No ontem “cabeça perdida”, no hoje um relembrar apelativo de tempos que foram, e hoje são “flores do nosso jardim de memórias”.
    Confesso-me impressionado como relês o teu antigo diário, e hoje abres a janela desse infinito irrequieto, que teceu seguramente momentos ímpares.
    BRAVO!!!
    Que bom ler-te e caminhar em calçadas do teu sorrir, e crescer água na boca de voltar aos meus recantos … para outros olhares perdidos … mas sedutores
    Grande abraço.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado José Luís, poeta. Fico feliz por gostares do que escrevo. É muito gratificante. A minha gratidão. Abraço forte

  6. António Feliciano Pereira

    Boa tarde, Jorge!
    São as relíquias de infância guardadas na memória, com muitas traquinices à mistura! Nem o peso dos anos consegue fazer vergar as costas!
    Que saudades eu tenho desses tempos!
    Um abraço, Jorge!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado António. As pequenas loucuras de uma idade que as solicitava. Aprender os caminhos da aventura. Vergar nunca. Muito grato. Abraço grande

  7. António Feliciano Pereira

    Boa tarde, Jorge!
    São as relíquias guardadas na memória, com muitas traquinices à mistura! Nem o peso dos anos consegue fazer vergar as costas!
    Que saudades eu tenho desses tempos!
    Um abraço, Jorge!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado, António. Já respondi. Abraço

  8. Branca Maria Ruas

    Já me desfiz de muitas coisas mas, confesso, há outras de que (ainda) não me consigo desfazer.
    Tantas lembranças ligadas a cada objecto. Tantas memórias associadas a cada carta que não se consegue rasgar.
    Cada um de nós tem o seu “baú” de recordações. É importante sabermos o que fazer delas e com elas…
    Quem sabe alguém, um dia, as encontre num qualquer “passadiço mágico” e as reinvente.
    A imaginação e a criatividade juntam-se num voo para celebrar a Liberdade!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria. Sim, quase todos temos uma repartição de perdidos e achados. Coisas que queremos muitas vezes sem saber porquê. A minha gratidão pelo teu comentário e por estares aqui. Abraço

  9. Eulália Coutinho Pereira

    Que viagem extraordinária aos lugares que fazem parte da vida.
    Recordar ompanheiros de adolescência e juventude, aventuras próprias da idade, lugares com história, memórias para sempre.
    O grande marco da nossa geração, o Quartel do Carmo, para sempre símbolo de Liberdade.
    Concordo plenamente com a passagem de testemunho em vida.
    Cada peça é um tesouro, que guarda memórias especiais..
    Obrigada por mais esta viagem no tempo.
    Grande abraço.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Eulália. Por vezes sabe bem regressar aos lugares da nossa alegria. Cada vez necessito de menos. Lembrar a madrugada de todas as madrugadas. Muito grato por estar aqui e pelo seu comentário. Abraço

  10. Isabel Soares

    Uma crónica de memórias de um lugar. De um sítio especial que começou a habitar o escritor. Os objectos a que deu vida. Atribuia-lhe um significado. Objectos pensados e sentidos de múltiplas perspectivas. A curiosidade de um pré-adolescente. Também a inquietação e indagação o modo como foi crescendo sempre fascinado e atento. Talvez esta casa de objectos de vida lhe tenham ensinado que as coisas só existem na relação com uma existência. E os seus objectos de afecto. O valor pelo significado que encerram. A afectividade sempre pulsante neste cronista.
    Perder e achar-se. Mais perder-se. E então que outra vida adquiriam estes objectos? O desconhecido para desconhecidos. O desejo de saber esta incógnita. Porque sim. Um espanto ” infantil” que continua presente.
    Uma crónica que termina desvelando que se perdia ( com certeza se encontrava) naquela amálgama e emaralhado de coisas. Anónimas mas com significantes pessoais e um objecto amor. Que o acompanha porque estrutural e estruturante.
    Uma crónica em que a descrição é sempre acompanhada de interpretação. A imaginação significativa num garoto a crescer num meio muito “rico”.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Isabel. Sembre belos os seus comentários. Nada a acrescentar. Apenas uma nota não havia um garoto a crescer num meio muito rico. A minha imensa gratidão. Abraço grande

  11. Claudina silva

    Adorei a tua crónica Amigo! Concordo plenamente com a passagem de testemunho! Parabéns

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Claudina. Devemos despojarmo-nos de tudo o que é dispensável. Entregar em vi e ter a certeza que é bem cuidado. Grato por estares aqui. Abraço

  12. Fernanda Luís

    “Passadiço Mágico”
    A observação atenta, a grande capacidade imaginativa, a elevada sensibilidade, o sonho, fazem parte intrínseca do seu ser desde criança, Jorge. Com o passar dos anos e experiência de vida foi apurando essas características ou dons que, com ,a habilidade e poder das palavras, lhe dão toda a legitimidade à sua assinatura própria no universo da escrita e da poesia. A sua pegada!
    Gostei muito da crónica.
    Confesso que também sou grande defensora e praticante da passagem de testemunho.
    Retenho com amor o nosso Largo do Carmo e a Liberdade.
    Bem haja.
    Abraço

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Fernanda. Sim, fui a criança que gostava desde o telhado da minha casa observar as estrelas e pensar no para além daquilo. Leitor compulsivo e amigo de escritores e poetas. Uma sorte imensa para quem soube o que era lutar pela vida. Grata pelas suas belas palavras. Abraço

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