Crónica de Alice Vieira | Lembram-se de Max?

 

Lembram-se de Max?
Por Alice Vieira

Aqui há dias apareceu-me aqui, na esplanada da praia um rapaz, (muito simpático, foi buscar o café dele ao balcão e trouxe também o meu para a minha nessa) que me disse chamar-se Max. Eu sorri mas ele nem reparou, e ainda bem. Sorri porque de repente me lembrei de um cantor deste país, tão conhecido e de quem eu gostava tanto mas de que agora muito poucos se lembrarão.

Refiro-me a Maximiano de Sousa, mais conhecido por Max—que morreu em Maio de 1980.

Começou por ser alfaiate mas desde muito novo que gostava de cantar e dançar.

Cantou nalguns bares da Madeira mas só quando veio para Lisboa é que a sua carreira começou a sério, a partir da sua participação, ao lado  de Humberto Madeira, no Programa APA, do Rádio Clube Português, que tinha uma enorme audiência.

Dali passou para o Teatro de Revista e nunca mais parou.

Tinha cantigas para todos os gostos, desde a maravilhosa “Pomba Branca”, até  à  “Mula da Cooperativa” que foi um dos seus maiores êxitos—até porque aí entravam também os seus dotes de actor: a “Mula da Cooperativa” (que tinha uma letra perfeitamente surrealista!, “a mula da cooperativa /deu dois coices no telhado/por causa do Zé da adega/ não saber cantar o fado”…) era sempre cantada de maneira diferente. Aquela de que eu gostava mais era quando ele cantava de lenço amarrado à cabeça, a coser um pano, a enganar-se no ponto, a agulha a picar-lhe o dedo e ele a chupar o dedo, e sempre a cantar… Era de morrer a rir.

Um dia, já eu estava no “Diário de Notícias”, ele caiu na rua e levaram-no para o hospital. Mais tarde do hospital ligaram-me a dizer que ele tinha morrido. Fiquei muito triste, mas nunca pensei que do hospital não tivessem avisado a família primeiro. Quando liguei para casa dele a perguntar onde era o velório  e a que  horas era enterro—eles não sabiam de nada! Foi terrível. Só me apetecia desligar, dizer “foi engano,”—mas já não podia voltar atrás.

Até hoje foi uma das notícias que mais me custaram a escrever.

E já agora, para não nos lembrarmos só de coisas tristes, quando puderem vão ao YouTube e oiçam a “Pomba Branca”. Depois digam-me se não é, ainda hoje, uma grande canção.

 

Alice Vieira


Alice Vieira
Trabalhou no “Diário de Lisboa”, no“Diário Popular” e “Diário de Notícias”, na revista “Activa” e no “Jornal de Notícias”.
Atualmente colabora com a revista “Audácia”, e com o “Jornal de Mafra”.
Publica também poesia e é considerada uma das mais importantes escritoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.

Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Alice Vieira


 

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