Crónica de Jorge C Ferreira | O Meu Nome É Gal

 

O Meu Nome É Gal
por Jorge C Ferreira

 

“O Meu Nome É Gal”. Foste Índia. Foste a voz da canção para Gabriela. Gabriela a que Sónia Braga deu corpo e lascívia. Sónia mulher desejo e que, neste país, foi idolatrada. Foste essa “Força Estranha” que nos inebriou. Foste uma das vozes dessa maravilhosa turma da Bahia. Com Caetano, Bethânia e Gil ajudaste a modificar a música que nos fez sonhar.

O Tropicalismo. Esse movimento que nos entusiasmou. Movimento que englobou a música, as artes plásticas, o cinema e o teatro. Era o final da década de 60 e a ditadura militar imperava no teu país. Todo esse movimento encontrou eco na sociedade brasileira, e não só. Lembro-me de ver, no Estúdio do velho Império, um filme de Glauber Rocha. Tinham gosto e coragem. Foram rebeldes e faziam bem o que se propunham fazer. Era um tempo duro no Brasil.

“O Meu Nome É Gal”.

E cantaste coisas tão belas. Os discos de vinil que tinha em casa. As capas lindas. O interior belíssimo. O diamante a correr as estrias e tu a cantares para mim na sala da minha casa. As colunas “leak” de madeira davam o som ideal à tua voz. O meu “Rotel” fazia o resto. A minha alcatifa grenat, os meus sofás negros e uma parede cheia de livros. Uma magia ter passado tantas noites a ouvir-te. Era deliciado que adormecia.

Depois da festa bonita que o Chico tão bem cantou que aconteceu deste lado do charco. Depois dos cravos. Quando a liberdade foi nome próprio, apareceram as telenovelas brasileiras na nossa televisão. A tal Gabriela. E apareceu a tua belíssima voz. Uma voz que nos cativava. Que nos anunciava a novidade de cada episódio. “Gabriela ê meus camaradas”.

Por certo tiveste conhecimento que os trabalhos do parlamento português pararam para assistir ao último episódio de “Gabriela Cravo e Canela”. A nossa ainda incipiente democracia não resistiu à fogosidade de Sónia Braga e à tua voz quente. O presidente aceitou a proposta e todos os deputados foram, para a frente da caixa mágica, assistir ao desenlace da estória. A nós ainda nos sabia melhor estar a ver um romance de Jorge Amado a ser assim amado.

Com Caetano cantaste e encantaste. Foi quase o início de um caminho brilhante. Um desgosto que tenho é nunca te ter visto ao vivo. Mas, “Meu Nome é Gal”. Vi Bethânia, vi Caetano, vi Gil e não te vi a ti. Não me perguntem porquê. Algo se passou na minha vida que me impediu de ter tal prazer. Perdoa-me Gal.

Uma coisa é certa, vou continuar a ouvir-te e a divulgar-te dentro das minhas possibilidades. A tua voz a ficar mais quente, cada vez a encantar-nos mais e tu que gostavas de Roberto Carlos a ser cada vez mais nosso aconchego. “Meu Nome é Gal”. Gal ê meus camaradas.

Foste para parte incerta, por certo estás bem. Mereces tudo de bom e continua a cantar, alguém se irá deliciar com a tua voz. Espero que tenhas coisas gravadas por publicar para ouvirmos novas cancões tuas. Entretanto vou ouvindo essa “Força Estranha” que de ti se liberta. Uma força que nos dá vontade de ser mais, de amar a vida.

“O Meu Nome é Gal”.

«Olha que bonito o que dizes sobre essa senhora cantora.»

Fala de Isaurinda.

«Foi com muita dor que o escrevi.»

Respondo.

«Mas disseste coisas bonitas.»

De novo Isaurinda e vai, os olhos brilhantes.

Jorge C Ferreira Novembro/2022(373)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

Pode ler (aqui) todas as crónicas de Jorge C Ferreira


Leia também

22 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | O Meu Nome É Gal”

  1. Eulália Coutinho Pereira

    Sublime. Bela homenagem a Gal.
    Que bela viagem no tempo. Gal, a diva de voz doce. Gal. Betânia, Caetano , Chico, vozes imortais. Aplausos, sonhos. Vozes que cantam Liberdade.
    Obrigada Amigo por tão bela memória.
    Um abraço.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Eulália. A turma da Bahia e a genialidade de Chico. Gente do lado certo da vida. Gal, a voz quente e sensual. Saudades. Ouvi-la sempre. Abraço grande

  2. Filomena Geraldes

    Todos nós partimos. Um dia.
    Gal deixou-nos a sua voz.
    Quente. Melódica. Sentimental.
    De uma sensualidade efervescente.
    No entanto, intimista e límpida.
    Há canções que nos olham de frente.
    São como o lume das estrelas, espinhos de rosas cravados no silêncio, brocados que o sol deixou esquecidos nos telhados, alvos vestígios de espuma das ondas espreguiçados sobre os areais.
    Gal cantava os sentimentos.
    Permitia-se evocar a voz dos suspiros, beijos, saudades, solidões, amarguras, desesperos, traições e vagas memórias.
    Gal era o rosto da voz.
    O arrepio.
    O elã.
    O aplauso.
    A pano cru que caiu.
    O virar das costas…

    O nosso cronista dedicou esta breve narrativa fazendo um sentido elogio à artista.
    À mulher.
    Ao seu percurso de vida.
    Ao impacto que surtiu na vida de muitos de nós.
    Fê-lo na sua habitual forma. Evidenciando os doces gomos, os mais doces.
    Que deixaram no ar um leve aroma a pomar. A frutos. A mar. A açúcar e a café.
    A terras de Vera Cruz…
    A Gal!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Mena. Disseste tudo. O movimento musical tão importante para o período que se vivia. Gal, essa “Força Estranha”. Aquela voz quente viverá para sempre em nós. Gratidão. Abraço forte

  3. Regina Conde

    A voz doce que nos encanta. Tão linda a tua homenagem. Preciosos também os detalhes. Obrigada Jorge, meu Amigo.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Regina. Bela e preciosa. Pedra rara. Luz. Tanto o que continua a viver em nós. Minha gratidão. Abraço

  4. Maria Luiza Caetano Caetano

    Tanta beleza, no que tão bem disse.
    E que serenamente, Gal está a escutar. Sentida e bela homenagem escrita com “dor”, mas repleta de carinho e sensibilidade.
    Abraço muito amigo.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Luiza. Que comentário lindo. Tanta sensabilidade. Próprio de uma pessoa especial. Muito grato. Abraço enorme

  5. Isabel Soares

    Uma crónica de beleza e sobre a beleza. A perda e as recordações de uma grande artista. A bonita e sentida homenagem. Obrigada por não esquecer e não nos deixar esquecer.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Isabel. Nunca esquecer quem foi importante para nós. Gal nunca será esquecida. Muito grato pelas suas palavras. Abraço grande

  6. José Luís Outono

    Excelente memória , que me emocionou ao lembrar-me da Gal, que muitas vezes coloquei a rodar na agitação de fazer “fazer rádio”, e mesmo fora dos estúdios.
    Abraço muito grato!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado José Luís, meu Amigo, Poeta. Não a vamos esquecer. Vamos continuar a ouvi-la. Grato pelo comentário. Abraço enorme

  7. Fernanda Luís

    Parabéns pela bonita e sentida homenagem.
    Gal merece. Amava-a tanto.
    A sua inesperada partida dói imenso.
    Vamos continuar a ouvi-la. Inesquecível o arrepiante e divino concerto com Gal Costa, Mercedes Sosa, Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento. Ouço muitas vezes.
    “Canto Latino/América”
    Abraço

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Fernanda. Vozes que ouviremos para sempre. A nossa língua e uma canção bela. Gente genial. Grato pelo comentário. Abraço enorme.

  8. Ivone Maria Pessoa Teles

    Muito belas palavras, sempre. Vamos ouvi-La ainda. Beijinhos

  9. Ivone Maria Pessoa Teles

    Meu querido Amigo/Irmão, com as tuas magníficas ( sempre) palavras disseste TUDO. Escreveste com dor e ficou a SAUDADE e, felizmente podemos continuar a ouvi-La.

    Beijinhos da Ivone

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Ivone, minha Amiga/Irmã. Tanto em tão poucas palavras. És tão sábia. A minha imensa gratidão. Abraço grande

  10. ana bela didelet

    Obrigada poeta, por tanto carinho demonstrado nesta homenagem a Gal. Um abraço enorme de gratidão 🌹🌹🌹

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Ana Bela. A Gal merece tudo. A gratidão é minha e é imensa. Abraço grande.

  11. maria rosa matos

    Lindíssima crónica e homenagem.
    Obrigada meu Amigo por nos recordar o que nunca poderemos esquecer.
    Continuaremos a ouvi-la . Abraço

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Rosa. É isso, nunca a iremos esquecer. Muito grato pelo seu comentário. Abraço grande

    2. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Rosa. É isso, minha Amiga, nunca a esqueceremos. Enorme. Mukto grato pela sua presença. Abraço grande

Comentário