Entrevista | Edward Ayres de Abreu, novo diretor do Museu Nacional da Música

 

Jornal de Mafra – Um músico profissional pode ser uma mais-valia à frente do museu da música?
Edward Ayres de Abreu –
Muito obrigado, desde já, pelo convite. É um prazer poder receber-vos aqui neste espaço que, muito em breve, esperemos, irá fechar, contando vir a encontrar-vos nas novas instalações do museu, em Mafra.

Respondendo à sua pergunta, eu diria que não necessariamente, embora no meu caso pessoal a resposta possa ser, talvez, sim, porque ser músico talvez me dê outra sensibilidade, permitindo-me olhar para o Museu Nacional da Música (MNM) não apenas como um museu de instrumentos musicais, de fonogramas, de partituras, mas antes como um espaço que transcende estes meios para chegar a um certo fim, um fim que é multidisciplinar.

O que é mais importante num museu da música é que ele tenha um conservador especializado em música, ou um musicólogo a dirigi-lo, ou, pelo menos, alguma destas especialidades a integrar a equipa de direção. Alguém que consiga olhar para os instrumentos e fazê-los brilhar para além daquilo que eles são como objeto físico, contextualizando-os.

Quer um exemplo? No século XXI não faz já sentido ter um museu com uma organização como este que vemos aqui agora, em que os instrumentos estão dispostos por tipologias organológicas e em que não há discurso expográfico que os explique. Faz tanto sentido juntar na mesma sala uma trombeta marinha e um piano Bechstein só porque são cordofones, como faria sentido juntar na mesma sala Josefa de Óbidos e Júlio Pomar só porque são óleos sobre tela… Mais importante do que identificar e categorizar os veículos de produção sonora, é conhecer os contextos históricos, artísticos, político-sociais de cada instrumento, os seus espaços e porquês de enunciação, desde o seu fabrico ao seu uso, e até ao seu esquecimento e à sua redescoberta…

Ser musicólogo permite-me olhar para a coleção de uma forma mais sustentada cientificamente e proporciona-me ferramentas para chegar mais longe neste desafio que é o de construir um Museu Nacional da Música, e não apenas uma coleção visitável de objetos mudos.

Jornal de Mafra – O que o levou a dar o salto da arte para a gestão?
Edward Ayres de Abreu –
Na verdade, esse passo não foi nem direto, nem imediato, eu sempre fui fazendo as duas coisas. Quando em 2009 criei a associação MPMP Património Musical Vivo, fi-lo já numa perspetiva de construir um projeto coletivo, e à medida que a associação foi crescendo, tive necessariamente de desenvolver ferramentas de gestão, de organização de recursos humanos, de organização de eventos diversos e de projetos editoriais. Também tenho formação em gestão e desenvolvo investigação como musicólogo.

A opção Mafra foi aquela que mais me entusiasmou. A nossa coleção vai ganhar em Mafra a dignidade que aqui nunca conseguiu ter, sobretudo devido à limitação do espaço

O que levou a candidatar-me a este cargo foi a possibilidade incrível que este lugar me oferecia de cruzar essas minhas várias experiências e formações. Na verdade, dirigir o MNM neste momento de transferência para Mafra exige um pouco de tudo isto.

Jornal de Mafra – Porque demorou tanto tempo a sair o resultado do concurso para a direção do MNM?
Edward Ayres de Abreu –
Estas instalações em que estamos agora são provisórias há quase 30 anos. Acha que um concurso de dois anos durou muito tempo?

Jornal de Mafra – Como é que olha para a saída do museu de Lisboa para Mafra?
Edward Ayres de Abreu –
Mafra está a 40 minutos de Lisboa, pessoalmente acho que nem se trata propriamente de uma descentralização… Em termos institucionais, claro, é muito importante e louvável este esforço de dotar outras regiões do país de equipamentos culturais de referência.

Por outro lado, no plano conceptual, houve muitos projetos para o MNM, chegando-se a pensar no Mosteiro de S. Bento da Vitória, no Porto, no Convento de S. Bento de Cástris, em Évora, no Palácio Foz, em Lisboa, e mesmo em Mafra equacionaram-se várias possibilidades de instalação do museu.Todas estas hipóteses tinham vantagens e desvantagens, mas há uma incrível coincidência entre a extraordinária riqueza musical de Mafra, com os carrilhões e com o conjunto dos seis órgãos históricos, expoentes máximos da organaria portuguesa, e a riqueza da nossa coleção, que também integra alguns dos exemplos mais fascinantes de instrumentos de tecla de fatura portuguesa, como os cravos Antunes, e não só. Juntar esses dois universos é muito estimulante. Realço ainda todo o imaginário musical que se associa a D. João V e ao seu projeto artístico, inspirador a vários níveis, mesmo no ponto de vista político, mesmo com as suas idiossincrasias e com todas as particularidades próprias do espírito da época.

A opção Mafra foi aquela que mais me entusiasmou. A nossa coleção vai ganhar em Mafra a dignidade que aqui nunca conseguiu ter, sobretudo devido à limitação do espaço.

Jornal de Mafra – O real edifício já tinha uma gestão quadripartida (palácio, igreja, câmara, militares). Acrescenta-se agora o Museu Nacional da Música. Isto é uma riqueza ou poderá constituir uma dificuldade?
Edward Ayres de Abreu –
A médio ou longo prazo veremos se não será necessário repensar este modelo organizacional e implementar algum tipo de macro-gestão centralizada, mas nesta fase não me parece que isso seja viável, nem necessário. Também não creio que estes diversos elementos desenvolvam relações necessariamente difíceis, pelo contrário.

O Real Edifício de Mafra é um dos mais, se não o mais subaproveitado edifico histórico português de todos os tempos. Há mais do que espaço para que estas entidades coabitem pacificamente, embora seja preciso acautelar uma série de questões de gestão quotidiana que exigem articulação e constante diálogo… mas não vejo razões para que isso não aconteça.

Jornal de Mafra – O museu terá de criar novos públicos em Mafra. Como pensa que isso poderá ser feito?
Edward Ayres de Abreu –
O projeto que apresentei há dois anos, o qual irei implementar, incidia também sobre esse ponto e oferecia uma programação intensiva de atividades diversas, desde exposições temporárias até concertos e atividades pedagógicas de diversa ordem.

Não tenho a menor dúvida de que iremos ter mais público em Mafra do que em Lisboa, e também não tenho dúvidas de que o público lisboeta irá a Mafra assistir aos concertos. Também não tenho dúvidas de que em Mafra conquistaremos novos públicos.

Jornal de Mafra – O museu não estará demasiado centrado na música clássica?
Edward Ayres de Abreu –
Quero também “descentralizar” o museu o mais possível desse imaginário da música clássica. Quero trazer para este museu outras linguagens musicais. Afinal, estamos a falar do Museu Nacional da Música, que deve estar aberto a todas as práticas musicais e constituir-se como plataforma mediadora entre a comunidade científica e as mais diversas tendências musicais. Jazz, rock e pop e todas as outras linguagens serão bem-vindas, quer no contexto de temporárias, quer através da organização de concertos em estreito diálogo com a nossa coleção.

Jornal de Mafra – O que pensa do abaixo-assinado que circulou em Lisboa contra a mudança do museu para Mafra?
Edward Ayres de Abreu –
Há argumentos nesse abaixo-assinado que fazem muito sentido e é muito saudável que haja esta tensão, mostrando que temos um público fiel, atento, cuidadoso e preocupado com as condições de conservação da nossa coleção. No entanto, no que respeita à deslocalização propriamente dita e à capacidade de atração de públicos, estou plenamente convencido de que a opção Mafra é muito mais virtuosa.

Sejamos francos, em Lisboa, por mais incrível que seja a nossa coleção, competimos com mais de 50 pequenos, médios e grandes museus, e a mudança para Mafra não representa uma verdadeira descentralização, pois estamos perto de Lisboa. Por ser nacional, o Museu Nacional da Música poderia estar em qualquer zona do país que o fundamentasse e que permitisse que a coleção brilhasse.

Jornal de Mafra – Conta com a partilha de públicos com o Palácio Nacional de Mafra?
Edward Ayres de Abreu –
Eu, como visitante do palácio, ficaria radiante com a possibilidade de fazer uma visita guiada aos órgãos da Basílica e aos instrumentos de teclas que fazem parte da coleção do museu. É uma solução que merece ser articulada, visitar os dois espaços é uma alternativa de bilhética extraordinariamente aliciante.

Jornal de Mafra – Como estão a evoluir as obras em Mafra?
Edward Ayres de Abreu –
Tanto quanto sei, o projeto de arquitetura está concluído e o anúncio do concurso da empreitada estará para breve. Se tudo correr bem, as obras começarão no próximo ano e se tudo também correr bem com a obra é possível que o museu seja inaugurado em 2025.

Jornal de Mafra – Irão manter-se aqui mais dois anos?
Edward Ayres de Abreu –
Não necessariamente, uma vez que atravessaremos um período de mudanças. Teremos também de iniciar uma campanha de restauro de alguns instrumentos, e provavelmente o museu irá fechar mais cedo aqui em Lisboa, antes mesmo de as obras terminarem em Mafra, de modo a poder preparar toda a tremenda logística que isto exige.

Jornal de Mafra – Esses restauros já têm verba atribuída?
Edward Ayres de Abreu –
É evidente, se não houvesse verba não haveria museu.

Aqui, vemos apenas 20% da coleção, em Mafra teremos um espaço expositivo mais amplo, e será desejável que o museu tenha uma agenda diversificada de exposições temporárias que permitam mostrar outros tesouros que, por razões diversas, temos de guardar nas reservas.

Aliás, tesouros não faltarão para que os mecenas interessados possam apoiar os necessários restauros.

Jornal de Mafra – Que olhar lança sobre o papel do mecenato na vida do museu?
Edward Ayres de Abreu –
Essa é uma grande questão em Portugal…

Defendo que o Estado tem obrigação de proporcionar as condições mínimas de salvaguarda, de estudo e de comunicação das coleções, isto é, de assegurar a vocação essencial de um museu. A partir daqui cabe-nos, enquanto cidadãos, sensibilizarmo-nos para esta causa patrimonial, e parece-me que o meio empresarial português é ainda pouco dado a este tipo de empreendimentos. Este é um caminho que temos de explorar, até porque, como gosto de dizer, o Estado somos todos nós.

As empresas podem e devem ter um papel mais ativo na revalorização do nosso património coletivo. Esta coleção encerra um saber de séculos, um saber precioso, fundamental na formação intelectual de todos os portugueses e de todos os que nos visitam.

Jornal de Mafra – Sediadas em Mafra temos algumas empresas com impacto nacional e internacional; vai sensibilizá-las para a importância do mecenato cultural?
Edward Ayres de Abreu –
Com certeza, não poderia ser de outra forma.

As empresas de Mafra e não só… mas essa ligação local é muito importante nesta missão de consciencialização para a necessidade de cuidarmos deste património comum.

Jornal de Mafra – Há dinheiro para novas aquisições?
Edward Ayres de Abreu –
Se houver um instrumento importante disponível… isso depende muito do contexto em que as oportunidades surgem. Às vezes dá-se o infeliz acaso de surgirem várias oportunidades de aquisição incríveis e simultâneas.

Havendo um tesouro disponível para adquirir, nós temos de nos esforçar para fazer novas aquisições.

Jornal de Mafra – Qual é o orçamento do museu em 2022?
Edward Ayres de Abreu –
Não lhe posso dizer números exatos, porque o Museu Nacional da Música, apesar da recente lei da autonomia dos museus, integra a DGPC [Direção-Geral do Património Cultural] e, portanto, do ponto de vista orçamental, grande parte da despesa do museu é de gestão centralizada, não havendo uma gestão própria do orçamento do museu. Além do mais, como estamos num processo de transferência, muitas das nossas atividades estão otimizadas para esse projeto. Globalmente falando, e partindo do que se estipulou no concurso para cargos dirigentes, ao Museu Nacional da Música cabe um orçamento anual de 449.831,27 euros. A orçamentação prevista para atividades de programação corresponde a 10% deste orçamento total do museu. É um orçamento muito magro que, naturalmente, terá de ser reforçado aquando da instalação em Mafra.

 

Atualização em 2-10-22 às 14:53

Leia também