Crónica de Jorge C Ferreira | Um Amigo

 

Um Amigo
por Jorge C Ferreira

 

Era moreno, não muito alto, um sorriso malandro, sabia dançar. O pai dele imitava Fred Astaire em frente ao espelho grande da casa. Dançava e libertava-se. Chegou a dizer que estava a dançar melhor que o seu ídolo. Uma figura.

Este meu Amigo vivia perto de mim. Frequentava o mesmo café. Com ele troquei vida e segredos. Tudo até uma altura em que a vida nos separou. Uma coisa de que não me perdoo até hoje. Há amigos que são para seguir a vida inteira.

Um Amigo que era rei dos matraquilhos. Com a bola nos três da frente era letal. Tinha uma panóplia de dribles que encantavam. No jogo dos cavalinhos era campeão. Falava com os dados e as pintas eram generosas para ele. Sobre o pano verde do bilhar brilhava e sabia fazer macê. Todos os jogos pareciam ter nascido consigo. Diziam que era um predestinado. Quando vestia a camisola dos Neptunos e entrava no ringue de futebol de salão, enchia de vida o jogo. Jogava e fazia jogar. Era um gosto assistir.

Um dia apaixonou-se a sério. Não saía da porta do cabeleireiro onde a sua paixão trabalhava. Insistiu, declarou-se e conseguiu. Passou a ter na sua vida uma mulher que sempre esteve e está do lado certo da vida. Casou-se. Era 1973 e discutíamos política. Chorávamos o Chile e eles visitavam o irmão dela preso em Caxias. Eram tempos que nos pediam coragem.

Eu tinha uma namorada com quem casei. Visitávamo-nos. Fomos ao primeiro 1º de Maio juntos. Uma caminhada que valeu por uma vida. A mulher do meu Amigo é alentejana. Foi das primeiras pessoas a quem disse que me tinha separado. Lembro-me de ela dizer:

«E agora?»

e eu ter ficado sem palavras a pensar no filho pequeno. Também eles tinham um filho. Mais um filho da revolução a quem deram o nome de uma das figuras importantes do PREC.

Foi depois que me perdi um pouco e me entreguei a outro viver. Mudei de mundo. O mundo trouxe outras pessoas. Eu percorria outras vidas. Foi aí que me separei desta relação. Soube, entretanto, que também ele se tinha separado e não estive lá.

Encontrei-me, de novo, com a bonita alentejana pela qual o meu Amigo se tinha apaixonado, num momento muito triste da vida. O meu Amigo a caminho do crematório. Vi o filho já homem e as lágrimas assomaram aos olhos.

Hoje, tento estar mais atento aos Amigos de uma vida. Telefonar a saber deles. De como corre a vida. Também telefono ao filho deste Amigo de que vos falo e através dele sei da Mãe. Trocamos mensagens. No último jantar que fizemos ele substituiu o pai e fê-lo de forma impecável. Passou a ser um dos nossos.

A pandemia veio interromper os nossos jantares. Um jantar anual onde ia muita gente. Uma reunião onde sou o segundo mais velho. Temos de vencer o medo e de nos juntarmos de novo. Já chega de penitência.

Temos de voltar ao nosso lugar. O lugar onde uma parte da vida começou. Onde todas as aventuras e desventuras estão marcadas na pedra dos prédios que resistem. No último jantar que tivemos falei aos mais velhos que nunca mais íamos deixar algum dos nossos morrer sozinho.

Seremos capazes de cumprir?

«Que triste o que contas. Há coisas que nos tocam.»

Fala de Isaurinda.

«A vida é, por vezes, incontrolável. Temos de olhar mais pelos Amigos.»

Respondo.

«Tens razão. Mas há pessoas que não nos ouvem.»

De novo Isaurinda e vai, uma lágrima a escorrer pela face.

Jorge C Ferreira Julho/2022(355)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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16 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Um Amigo”

  1. Maria Luiza Caetano Caetano

    Como eu gosto de ler o que é verdadeiro, o que tem sentido.
    Um amigo de verdade, não há distância que o afaste. Fica sempre connosco.
    Não se culpe, o seu amigo partiu mas continua, no seu bom coração.
    Hoje bem representado pelo seu próprio filho.
    Achei uma delícia, que bons encontros. É importante saber uns dos outros. É maravilhoso, quando se lembram de nós.
    Bonito este pedaço da sua história de vida, tão bem contado. Porque vivido e sentido, cada momento. Adorei, querido poeta obrigada.
    Abraço imenso.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Luiza. Saber dos outros, dos que gostamos é tão importante. Cuidar dos Amigos é também uma forma de cuidar de nós. Sempre grato pelas suas generosas palavras. Abraço grande

  2. Isabel Soares

    Uma crónica lindíssima e emocionante sobre percursos de vida pessoais e o valor da amizade. Este afecto maior.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Isabel. Fico feliz por ter gostado e disso dar nota. A Amizade é um Amor especial. Abraço

  3. Eulália Pereira Coutinho

    Crónica comovente. Identifico-me com esta realidade. Perdi, há pouco tempo, uma amiga de infância e juventude. Tantos e tão bons momentos juntas.
    A vida afastou-nos e estando perto, estávamos longe.
    Pelo telefone estivemos sempre até ao fim.
    Um dia ficou o vazio e a sensação de que tanto podia ser feito.
    A amizade verdadeira não parte. Sobrevive a tudo.
    Na memória ficam os bons momentos.
    Saudade .
    Obrigada Amigo, pelo sentir transmitido desta forma única.
    Grande abraço.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Eulália. Os Amigos são o nosso maior tesouro. Temos de preservar bem o que nos une. Estar atentos. Saber do outro. Grato pelas suas palavras. Abraço

  4. Filomena Geraldes

    Quem procuramos quando nos sentimos fragilizados, chegou a estação dos acenos e das despedidas inesperadas, há segredos sufocantes que não
    cabem dentro de nós?
    A dor é dormência que fere sem dó? Os Amigos.
    Quem procuramos quando urge
    tocar as estrelas cadentes, reinventar bebedeiras de gargalhadas , pantomimar a dança da chuva,
    criar cenários fantásticos e cometer pequenas loucuras que têm outro estímulo se ousadas a dois? Um Amigo.
    Quem procuramos se a vida começa por perder a magia, toda a cor se esvai, tudo perde o fulgor, a imaginação deixa de encontrar sinónimos? As palavras andam desorientadas, sem norte, a noite
    cai a cada amanhecer, o coração desnorteia-se em labirintos de Minotauros, as sereias nunca existiram e a mente esquece o fascínio da criação e da descoberta? O Poeta!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Mena. Tão bom o que escreveste. O Amigo é aquele que espelha a nossa loucura. Com a minha idade já vi partir alguns. A nossa outra memória. Ter Amigos é maravilhoso. Abraço grande

  5. Branca Maria Ruas

    Há Amigos que ficam para sempre. Amizades que não se perdem. De outras ficam as memórias e a gratidão por termos partilhado momentos tão intensos.
    Os Amigos são as nossas âncoras. É importante promovermos reencontros. E encontros também…
    Obrigada pela partilha.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria. Disseste tudo. Saber que temos sempre alguém pronto para nos ouvir. Uma forma magnânima de Amor. Grato pela tua presença. Abraço grande

  6. Regina Conde

    Os Amigos de verdade vivem sempre junto de nós, em recordações. A falta do abraço, falar das vivências no tempo que é agora e adiamos. Procurar saber e estar, é cuidar da Amizade. Não controlamos o tempo. Obrigada meu Amigo pela tua excelente crónica. Abraço Jorge.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Regina. O Abraço no momento certo. Os Abraços em que os Amigos se reconhecem. As palavras no momento certo. É bom estares aqui. Abraço grande

  7. Cristina Ferreira

    Quanta doçura.
    Quanto saber.
    Estar com quem mais estimamos.
    Estar com quem mais amamos .
    Saber agradecer a dádiva da amizade pura. Do amor puro e genuíno.
    Não ter medo de viver. Esta passagem é muito rápida.
    São bonitas as memórias que trazes contigo dessas pessoas. Está na hora de te voltares a encontrar com eles.
    Gostei muito
    Abraço enorme

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Cristina. Tens razão. Esta passagem é muito rápida. Devemos estar sempre atentos. As verdadeiras amizades são dádivas impossíveis de não aceitar. Grato por estares aqui. Abraço grande

  8. José Luís Outono

    Momentos, que tornas apelativos, numa construção excelente!
    Abraço com muita estima e admiração!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado José Luís. Sempre generosa a tua presença neste espaço. Muito grato por me leres. Abraço

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