Crónica de Alexandre Honrado – Entre a vida e a morte

 

Crónica de Alexandre Honrado
Entre a vida e a morte

 

Íamos três.

Nessa época era muito comum. Fazíamos centenas de quilómetros e conversávamos. As conversas eram mais compridas que os quilómetros contados.

Estava um verão daqueles, que só algumas zonas do mundo conhecem, com temperaturas anormalmente altas e comentários anormalmente disparatados, atribuindo culpas a quem as não tinha, e endossando os caprichos da natureza às incapacidades humanas.

Ainda na véspera tínhamos discutido coisas dessas, de vida e morte, como são sempre as coisas mais extremas entre nós, os que vivemos e morremos.

Numa pequena aldeia do sul, a GNR pediu-nos para parar, com gentileza. Havia alguns guardas fardados na rua, perto de uma casinha branca de porta aberta, e mais ninguém à vista. A gente do povoado, sem dúvida, recolhera-se nas poucas sombras que inventara. Se é que há mais sombra do que aquela que o céu permite…

Fizemos poucas perguntas e nem era preciso escutar uma resposta: na casa que eles agora guardavam, só porque a lei assim  dita, um aldeão, mais um, tinha posto termo à vida. Não haverá história mais banal, nem coisa menos digna de nota. Felizmente, há muito mais para nos entreter e ocupar.

Não me lembro de ter visto qualquer notícia sobre isso. Nem sobre esse aldeão nem relativa aos outros como ele. O verão tem sempre com que se entreter, e a sociedade do espetáculo prefere vidas espantosas ou mortes que criem espantoso alarido.

Não comentámos, também não endereçámos recados aos deuses, não chorámos lágrimas, pois as temperaturas altas seriam lestas a evaporá-las e aquilo que chorámos não tem nome nem desígnio.

O aldeão desceu à terra. Nós, íamos três, prosseguimos em silêncio. A morte é isto. A vida também.

A memória por vezes atira-nos coisas destas para cima, e não sabemos bem o que dizer.

 

Alexandre Honrado


Alexandre Honrado
Escritor, jornalista, guionista, dramaturgo, professor e investigador universitário, dedicando-se sobretudo ao Estudo da Ciência das Religiões e aos Estudos Culturais. Criou na segunda década do século XXI, com um grupo de sete cidadãos preocupados com a defesa dos valores humanistas, o Observatório para a Liberdade Religiosa. Dirige o Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos Humanistas para a Paz, integrado na área de Ciência das Religiões da ULHT Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. É investigador do CLEPUL – Centro de Estudos Lusófonos e Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do Gabinete MCCLA Mulheres, Cultura, Ciência, Letras e Artes da CIDH – Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos da Globalização.

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