Crónica de Jorge C Ferreira | Uma Ilha

 

Uma Ilha
por Jorge C Ferreira

 

Viver onde se está. Viver como os que lá vivem e com eles. O arroz com feijão. As goiabas. Ao princípio da madrugada uma garrafa de rum. Viver devagar porque o calor era intenso. Acordar muito cedo e ir para o campo. A apanha dos frutos. A plantação de árvores. A vida a crescer. O tempo de todas as flores.

Há países que são línguas que nos inflamam de ternura. A música, o canto, a nova trova. Ir à capital de todas as revoluções que povoam o nosso imaginário. Sentir o ecoar da marcha triunfal. As barbas, as boinas, os cabelos compridos. Uma estrela de cinco pontas. Acreditar que podemos ser donos do nosso destino.

Os lugares de culto. A Bodeguita del Médio, a Copélia, o Nacional e Emingway, o malecon. Os passeios sem rumo. As noites no Tropicana. O dia de descanso estragado. Tudo era uma pressa. Tudo era exponenciado. Tudo era cantado. Os charutos a fumegarem. El Comandante.

Apagar um charuto na pedra da mesa de cabeceira. Fechar o mosquiteiro e dormir. Dormir sempre só. Um mês de sonhos e corpos que voam sobre os telhados dos bungalows. Gente de todos os países da Europa excepto dos Países Nórdicos. Uma babilónia que crescia nos abraços que se davam e uma troca de ideias. Uma alegria muito vivida.

As noites e o luxo de ouvir Carlos Puebla ao vivo. O bar aberto até altas horas. Um crocodilo num lago a quem dávamos lagartos vivos. Uma Tarântula que passava imponente e indiferente aos que estavam por perto.

Os debates sobre os movimentos revolucionários. A religião. A revolução. As discussões inflamadas. As mulheres a defenderem os seus direitos. O machismo que se sente ainda latente. Os Latino lovers e o calor das mulheres da Ilha. As mulatas encantadas, os seus grossos lábios. O ardor imenso das vontades reprimidas. Os corpos expostos ao sol e inundados por aquela água esmeralda. Uma areia fina e branca. O mergulho que inebria.

O tempo de correr a ilha.  Os locais das lutas tremendas. As cidades históricas. As aldeias, os mais velhos. Os charutos artesanais. As conversas sem fim com veteranos da revolução. As histórias que se repetem. A Serra Maestra. As crianças na escola da aldeia.

É então que nos lembramos do sonho imenso que vivemos naquela data. Alguém tinha ousado combater a tirania. Alguém tinha sofrido e vencido. Quando marcharam sobre a Capital foram todos. Os mortos e os vivos. Todos chegaram e fizeram sonhar o Mundo. É possível vencer os mandantes dos Impérios nas suas barbas.

Foi o mês mais intenso da minha vida. Isto foi há mais de 40 anos. Era um menino e na minha mente ferviam ideias de futuros e alegrias para viver. Foi um tempo de enorme aprendizagem. Uma vivência que nunca se esquece. Lembro tudo. Desde o bafo intenso que senti ao sair do avião, até aos abraços e beijos enormes da despedida. Um mês de uma outra vida. Aprender a Ser.

Há amigos que fizeram essa viagem comigo que já morreram. Muitas coisas esmoreceram em mim. No entanto continuo a acreditar nas utopias. Num mundo mais justo e sem guerras. Iremos encontrar o caminho. Temos de ser capazes.

«Tu devias era estar calado. Deixaste tudo e partiste como se fosses começar outra vida.»

Fala de Isaurinda.

«Era o tempo de viver aquela experiência. Há coisas  que merecem que corramos riscos. Para as vivermos intensamente. Para crescermos.»

Respondo.

«Olha eu não sei se te aturava essas manias. Tiveste sorte.»

De novo Isaurinda e vai, um olhar crítico e a mão a dizer adeus.

Jorge C Ferreira Maio/2022(350)

 


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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20 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Uma Ilha”

  1. Eulália Pereira Coutinho

    Adorei. Excelente. Aprender a ser.
    Viagem de sonho por tantos jovens da nossa geração. Nunca ..a realizei, mas ficou o sonho.
    Esta crónica leva-me, de forma sublime a viver e sentir a luta pela liberdade, a água maravilhosa daquele mar, o cheiro dos charutos, perdido no ar, a irreverência da juventude.
    Utopia que tantos riscos corre.
    Vamos acreditar. Obrigada Amigo por estes momentos.
    Grande abraço.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Eulália. Abraçar o sonho. Conhecer a vida e as vontades. Tentar saber mais. Saber discordar quando é caso disso. Abraço grande

  2. Regina Conde

    A idade perfeita para viver o que seria uma inquietação constante em ti . As vivências que jamais esquecerás. Uma frase brilhante “Aprender a Viver”. Adorei a crónica. Que a utopia não nos falte nunca. Abraço meu Amigo.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Regina. Uma viagem imensa e intensa. Percorrer os caminhos da rebeldia. Se perdermos a utopia, perdemos a razão de viver. Abraço.

  3. Filomena Geraldes

    Há mais de quarenta anos aprendeste a ser, meu querido cronista.
    Viveste as paisagens humanas, paladares desusados, alegrias repartidas, sentiste na pele o ardor dos dias longos com sabor a revolução. Viveste uma paz que tinha um historial de luta por um ideal mais justo e equitativo. Acompanhaste de perto homens e mulheres que cantavam a uma só voz, bebiam rum e fumavam charuto. Com eles percorreste um sonho tornado possível. Com eles aprendeste ao som da festa da liberdade.Os vínculos. Tenacidades. Arrojos. A nobreza das convicções.
    Com eles conheceste as gloriosas figuras que fizeram a História de uma ilha.
    Lugares que retiveste na memória.
    O calor que se estendia pelas ruas.
    Um mar entretido a ver-vos passar. Azul.

    Há ilhas que falam.
    Respiram.Cantam.Dançam. Navegam.Transpiram.Sonham.
    Há ilhas que inspiram!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Mena. Sim as ilhas navegam. Esta fez história. Um povo que vive com a música no corpo. Não esquecer os erros. Viver numa utopia que nos aviva a memória. Lindo o que escreveste. Abraço enorme

  4. Maria Luiza Caetano Caetano

    Que maravilha, fala daquela ilha como se de lá fosse. Sei que um mês é algum tempo, mas não tanto, para tanto saber e conhecer.
    É mesmo muito especial.
    Tantos pormenores sobre Cuba.
    Tantos que gostavam de ter estado nesse lugar, no tempo de El Comandante. Que prazer ler toda a sua descrição. Que bem vivida foi essa viagem. Fantástica a sua narrativa. Adorei e aprendi mais um bocadinho. Obrigada por tão bons momentos. Conhecer o Mundo é maravilhoso, mas aprender com ele é coisa de Mestre.
    Que proveitosas foram as suas aventuras. Valeu a pena ter vivido tão intensamente. Muito obrigada por ser amigo de partilhar..
    Gratidão querido escritor. Abraço imenso.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Luiza, querida Amiga. Viajar de olhos bem abertos. Viver intensamente cada momento. Saber ver e ouvir. Aprender, aprender sempre. Grande abraço.

  5. António Feliciano Pereira

    Bom dia, Jorge!
    Os hábitos tradicionais de cada região, são perenes e raramente se alteram, de acordo com diversos preceitos que os mantêm vivos. São leis tão naturais que dificilmente se desenraizam da “mãe” que os concebeu; são Leis sem códigos escritos!
    Um abraço, Jorge!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado António. Sim, todos nós temos uma matriz que nos molda. Por vezes há situações que nos abanam a vida. Com tudo aprendemos. Abraço grande

  6. Isabel Soares

    Uma crónica que revela as vivências passadas num tempo já (?!) remoto. Uma época de sofrimento, mas também de prazer e contemplação das belezas dos sítios e pessoas.
    Ser nas circunstâncias descritas só acontece assumindo riscos. E intensidade, como descreve o cronista.
    A ruptura. A memória desta inscrita visceralmente no ser que é.
    A utopia. Sempre. Motor de mudança, transformação e esperança.
    Uma crónica “utopicamente” escrita. O contínuo sonho.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Isabel. Sim há coisas e lugares que nos marcam. Sempre gostei de estar nos sítios onde a história acontece. Saber viver o sonho. Abraço grande

  7. Maria Matos

    Maria Matos
    Cuba, e seus tempos áureos de revolução.
    Visitei-a muito posteriormente à revolução, quando em pleno… Toda a gente gosta!
    Belo texto!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Matos. Acreditar que há novos futuros. Ser jovem e viver sem medo. Amar as utopias. Sentir a música que vive num povo. Abraço

  8. Também lá estive, mas há vinte e tal anos.
    Tenho revisitado a antiga URSS, através dos meus diários de viagem. Fui lá três vezes: duas às famosas Moscovo, Leninegrado e Kiev e uma a Moscovo, Tashkent, Alma-Ata, Irkutsk e Bratsk. A imensidão siberiana. A estepe, o lago Baikal, os rios Angará e Ienessei… Um outro mundo.
    Boa semana, Jorge.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Sofia. Que sìtios imensos visitaste. Sei que viste tudo com olhos de ver. A importância de saber ver. O que o mundo mudou desde aí! Vamos continuar a aprender. Abraço enorme.

  9. Ivone Maria Pessoa Teles

    Adorei. Gostei muito.
    É assim que dizes TUDO :

    —APRENDER A SER—

    Beijinhos da tua Amiga/ Irmã.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Ivone, minha Amiga/Irmã. Sim, a importância do SER. Temos de ter sempre essa importância na mente. Acreditar nas utopias. Beijinho.

  10. Isabelpires

    A bela Cuba, a vitória da revolução, as pessoa extraordinárias. Calor, praia mergulho. Lá budeguita e o nosso Hemingway. Saudades muitas saudades. Che o heró, i Fidel estava lá com o seu charuto e o seu rum. Recordações…

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Isabel Pires. Os ícones de um sonho enorme. A rebeldia e uma nova trova. Um povo único. A utopia. Acreditar. Abraço

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