Crónica de Jorge C Ferreira | As guerras

 

As guerras
por Jorge C Ferreira

 

Há dias que custam a passar. Dias estranhos nesta voragem do tempo. São, por vezes, horas esquisitas que nos incomodam. Tempo que ilustra vontades não alcançadas neste mundo complicado que estamos a viver. Degraus que não conseguimos subir. Escadas que não têm fim.

Já se fala tanto da guerra que não me quero atrever a falar de tal. Digo apenas que a Rússia invadiu a Ucrânia. Acontecimento que não aceito de modo nenhum, que me custa compreender. O importante é falar do sofrimento das pessoas. Das Mães que perdem os filhos na idade de todos os sonhos. Das Mães Ucranianas e das Mães Russas o sofrimento é igual. São mortes incompreensíveis. Gente que caiu nas mãos dos senhores da guerra. Essa gente que faz dos jovens carne para canhão. Odeio Impérios.

Eu não compreendo as guerras, nunca as compreendi. Acordei em casa, após muita discussão com o meu Avô, que iria para o serviço militar mas que nunca iria para a guerra colonial. Que desertaria se fosse mobilizado. Trato aceite. Não gosto de fardas, de armas, de galões e divisas. Tudo me faz confusão. Tudo me sabe a coisas sem sentido. Os quarenta meses que estive na tropa serviram para acirrar a má vontade contra tudo aquilo.

Sou um ser estranho para muita gente. Não entendo as fronteiras. O tempo que já passei para entrar em certos países ainda me irritou mais. Há lugares onde não irei mais. Tanta burocracia. Tanta desconfiança. Tanto controlo. Vivemos num mundo que chega perfeitamente para nós. O mar que separa os continentes é imenso. Correr mundo é o melhor que podemos fazer. Somos todos frutos da mesma raiz. Acredito que na diversidade nos entenderíamos.

Temos gente a mandar no mundo cada vez mais estranha. Estamos no século XXI e há quem, embora tenha uma terra imensa, continue a querer conquistar terra, quem seja rico e continue a querer ser mais rico. Gente que deve passar os dias a ver-se ao espelho e a olhar para os cofres e os mapas. Estou farto desta gente. Gente que só pensa em si e no ter. Eu sou mais do ser. Espero acabar da forma mais simples possível, a vida inteira numa mochila e a viver num quarto com uma janela para a liberdade.

Não gosto das proibições. Todos somos diferentes. Por isso aquela célebre frase do Maio de 68 “É PROIBIDO PROIBIR” me bate tanto na cabeça. Há quem me diga que não pode ser assim. Quando pergunto porquê as respostas vêm atrapalhadas.

Nunca vi tanto especialista em coisas que eu não sabia que existiam a opinar sobre tudo e sobre nada. Tudo gente com formação superior, com muitos cursos e mestrados. Será que conhecerão a natureza humana? É aí que está a chave de tudo. Temos de a conhecer porque ainda há tanta gente que vive sem liberdade de exprimir as suas ideias e manifestar o seu desagrado perante quem governa. Temos de saber a razão por que ainda há tanta gente com fome e sem uma casa para viver. Hoje há quem trabalhe e o que ganha não lhe chegue para viver! Precisamos de saber porque a água ainda não chega a muito lugar. E, acima de tudo, saber porque vivemos nesta sociedade de consumismo louco e não fazemos nada para mudar isto.

Agora quero fazer um contracto convosco, vamos acabar com as guerras, combinado?

«Tem-me custado tanto esta guerra. Até já me custa ver televisão.»

Fala de Isaurinda.

«Custa muito. As crianças que morrem e que perdem os pais. Algo que nos envergonha. Temos de mudar isto tudo.»

Respondo.

«Temos, sim, tens razão. Vamos acabar com a guerra.»

De novo Isaurinda e vai, a benzer-se com a mão direita.

Jorge C Ferreira Maio/2022(349)

 


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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20 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | As guerras”

  1. Maria Luiza Caetano Caetano

    Nada venho acrescentar ao seu texto.
    Venho só dizer-lhe, que concordo em tudo que tão bem e tão sentido escreveu. Obrigada, porque li o que gostei, mas não conseguia fazer nesta dimensão. É ímpar a sua escrita.
    Nasci no auge de uma guerra. É muito triste para mim, pensar que vou deixar os meus queridos netos, envolvidos neste horroroso conflito, causado por homens horrivelmente diabólicos.
    Mas sei que ainda há homens bons! Continuo a acreditar.
    Abraço de gratidão, querido escritor.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Luiza, querida Amiga. Estamos a passar um tempo horrível. Parece que não há nada que não aconteça. Temos de saber vencer os contratempos. Os nossos netos irão viver noutra sociedade. Beijinho

  2. José Luís Outono

    Leio-te e retrato-me nesse reflectir. Custa-me entender a guerra, que apesar de ter regras, viola todos os direitos. Ver crianças mortas, provas de tortura, “abatimento” de zonas residenciais, destruição de património cultural, “invalidar” hospitais … e o que mais adiante virá. Ainda no outro dia ouvia um pseudo-entendido clamar que há gente a mais no mundo, logo as guerras até são benéficas para defesa desta “bolinha” um pouco achatada nos pólos .
    Infelizmente ainda vivi a guerra colonial, e “rasgo-me” de pensamentos continuados dessa destruição a troco de interesses de mentes acéfalas.
    Oportunismos ditos entendidos e actuações insípidas, são os presentes e continuados momentos deste mundo carregado de pontos de interrogação e equações sem resolução saudável. Não chega a guerra, e ainda temos de viver enclausurados com pandemias ditadoras.
    Excelente reflexão este artigo bem denunciador.
    Abraço!!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado José Luís. Por quantas guerras já passámos? Contra quantas já lutámos? Os Impérios que nunca mais se contentam! Os golpes de estado e os assassinatos feitos pelas mãos de tiranos a soldo sempre dos mesmos. Estou farto. Grande abraço.

  3. Isabel Soares

    Uma crónica sobre a guerra. Sobre as guerras. Várias. Não só a que envolvem armas e bombas. A visão pessoal do cronista. A visão de desprezo, revolta, indignação e incompreensão por todas as formas de violência sobre o outro. A ” pretexto” da hedionda guerra, que, actualmente, nos entra diariamente em casa, todas as outras. As da fome, as do abandono, as de condições indignas de vida. Tudo isto perpassa neste texto. Uma narrativa onde também se subentende o sofrimento pessoal e alguma impotência por não se encontrar uma solução pacífica e de entreajuda global.
    As palavras aqui ditas revelam também incompreensão pelo que é inconcebível. Como não? ! O desejo utópico de mudar o mundo. Pelos valores humanistas que deveriam reger as nossas actuações. Mas tal continua a não acontecer. Porquê?! (Questão também sempre presente na crónica. ). Difícil resposta. O dinheiro e o “poder” continuam a sobrepôr-se. Mesmo causando sofrimento e morte nos demais seres, desde que não seja ao próprio, aos próprios.
    A natureza humana. Ao longo da história da humanidade, desde a sua suposta racionalidade, muito se escreveu sobre isso. E talvez devessemos continuar a reflectir. Como expressa o cronista, como definir esse conceito à luz do que narrou, à luz dos factos apresentados?

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Isabel. As guerras são sempre estúpidas. Temos de enfrentar a estupidez e sermos capazes de trazer luz às trevas. Querer sempre a Liberdade. Fazer frente aos poderosos. Abraço.

  4. António Feliciano Pereira

    Bm Dia, Jorge!
    Como diz e muito bem, sou da sua opinião: falta conhecer a natureza humana!
    Um abraço, Jorge!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado António. Tem tanta razão. Conhecer a natureza humana. Conhecermo-nos. Abraço

  5. Arménia Almeida

    Arménia Almeida
    Há seres Humanos sôfregos por ambição; por adorarem “penachos” e entenderem poderem ter quereres e implantarem imposições, sem olharem a quem e a quê !! Homens, que quanto mais amealham mais querem e não repartem, porque o muito é sempre pequeno, para eles. Eles adoram mundos faustosos, bem ‘ iluminados ‘ e que ‘caibam’ nos seus quereres. Homens que dormem e sonham, de olhos abertos e que cada vez mais só veem grandeza agarrada a vaidade de ” ser ” , fazendo sofrer quem não tem um pão e que acaba por morrer sem razão, às suas imundas mãos.
    Já deixei de ver e ouvir certas e determinadas notícias que me enfurecem. O mal, é que existe este ” vício do querer mais e mais “, não olhando a quê nem a quem, se alastra pelo mundo, aterrorizando-O e impondo, soberbamente, a sua vontade infame, que não é mais do que um querer austero, soberbo e egoísta. Detesto imposições que ultrapassam os parâmetros da razoabilidade. Tudo na vida deve ter o seu peso, conta e medida, para que todos os seres humanos tenham a possibilidade de se sentirem em relativa felicidade, ou pelo menos, com uma certa justiça pelo seu lado e, comer sempre no SEU prato, sem que tenham, forçadamente, terem de o deixar, ainda com a comida, que tanto desejavam. Adorei o seu Texto Poeta-Escritor. Muito pertinente, o assunto que o escritor nos traz esta semana e tanto e quanto, o pôde mais evidenciar. Parabéns e um abraço, Amigo Jorge !! Até a Isaurinda se benze, por tão surpreendida com o que não concorda.
    ( este, é um assunto/desabafo sobre o qual não gosto exprimir, pois sempre me incomoda.)

    1. Eulália Pereira Coutinho

      Crónica excelente. Tempos difíceis estes, que estamos a viver. Dia após dia, assistimos a uma guerra em directo. Destruição de cidades, reduzidas a escombros. Homens, mulheres e crianças a viverem horrores. Tudo em nome da ambição dos senhores do mundo.
      Valas comuns a perder de vista.. Ninguém pode aceitar uma guerra em pleno século XXI.
      A fuga deixando toda uma vida para trás.. Mulheres que deixam maridos, filhos, pais.Familias separadas e destruídas. Recomeçar no desconhecido.
      O mundo inteiro assiste., Dia após dia, semana após semana.
      Nada ficará igual.
      Vamos acabar com a guerra. Que bom seria.
      Obrigada meu Amigo por estes momentos de reflexão. Que os poderosos pensem na Humanidade.
      Um grande abraço.

      1. Ferreira Jorge C

        Obrigado Eulália. Nenhuma guerra faz sentido. É a antítese da inteligência. Temos de ser fortes contra os senhores da guerra. Paz Sempre.

    2. Ferreira Jorge C

      Obrigado Arménia. Temos de enfrentar os poderosos. Ser impiedosos com essa gente. Não simplificar as coisas. Tudo isto é complicado porque nós somos complicados. Paz sempre. Liberdade. Abraço

  6. Lénea Bispo

    Partilho dessa ânsia de viver em liberdade, sem peias nem prisões, sem fome nem desemprego com direito à saúde e à educação. Estes princípios bem os proclamávamos dantes. Muitas coisas se conseguiram , outras ainda não. A fome nos dias de hoje é uma realidade
    ao arrepio da democracia , mas o desemprego grassa e a pandemia só veio prejudicar. A guerra também, já estamos a sentir os efeitos . Como acabar com ela ? Eu também queria . Já me manifestei na rua contra a guerra do Vietname ,, mas acabar com a guerra só pode fazer parte de um projeto que quero integrar.também . O sonho é que nos move !

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Lénea. Temos de nos manifestar contra todas as guerras e golpes de estado feitos a soldo dos senhores da guerra. Lembras-te do Vietname e do Chile? Éramos tão novos e lutámos sempre. Vamos enfrentar ezta gente. Abraço grande

  7. Maria Matos

    Maria Matos
    Concordo completamente com o texto. Penso da mesma maneira. Já mudo de canal televisivo quando vejo a guerra, as crianças e a crueldade que lhes é infligida…ficarão marcadas para sempre.
    E para quê, esse poder absurdo?
    Paz…Peço tanto por ela..,

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Matos. Tudo é horrível. O próprio jornalismo o é. A guerra é a maior prova da falta de inteligência da natureza humana. Temos de lutar contra tudo isto. Paz Sempre.

  8. Regina Conde

    Tudo o que vemos, sentimos e o esforço de não querermos ver mais. Quantas vezes me questiono como sobrevivem as Mães. Crueldade sem sentido. Mundo confuso de senhores que não se cansam de proibir de viver. Fronteiras inventadas para derrubar. Texto muito bem escrito. Que fazer para acabarmos com as guerras? Abraço Jorge.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Regina. Todas as guerras são cruéis. Os mais fracos são sempre os que mais sofrem. Estamos fartos de tudo isto e de tantos especialistas sobre a crueldade. Paz Sempre. Abraço

  9. Também conheço a sensação de, em certa medida, os dias custarem a passar.
    De resto, identifico-me com o teu ponto de vista no geral deste texto.
    Boa semana, amigo.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Sofia. Tudo isto custa a passar. Custa ver esta triste informação. Temos de lutar pela Paz. Abraço

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