Crónica de Alice Vieira | Recordando o Juvenil do Diário de Lisboa

 

Recordando o Juvenil do Diário de Lisboa
Por Alice Vieira

 

No dia 6 de Maio, mas de 1957, era publicado o primeiro número do Suplemento Juvenil do Diário de Lisboa. Claro que os mais novos nem sabem do que eu estou a falar, até porque o “Diário de Lisboa” fechou em Novembro de 1990.

Mas a esmagadora maioria dos nossos escritores mais velhos passou por lá (Luísa Ducla Soares, Luísa Neto Jorge, Luís Castro Mendes, Jorge Silva Melo, José Mariano Gago, Hélia Correia, Pacheco Pereira, etc). Assim como agora perguntamos “estás no Facebook?”, naquela altura perguntava-se “estás no Juvenil?”

Era dirigido por Mário Castrim e Augusto da Costa Dias, com as admiráveis ilustrações de Tossan — e, nesses primeiros anos destinava-se a publicar colaboração de jovens  partir dos 9 anos.

Fui sua leitora logo no primeiro número. Mas nesse ano não me atrevi a mandar nada para lá. No ano seguinte, já com 15 anos e a sentir-me muito adulta, lá me aventurei. E tive logo resposta. Meia dúzia de frases muito simpáticas  mas que, bem espremidas, só queriam dizer  ”isto não presta para nada. Mas, pelo menos, diziam que devia continuar a escrever. E ler muito, claro, sem isso não se conseguia nada.

Muito obediente, lá fiz o que eles diziam—mas os meus textos continuavam a ser maus. Muito maus.

E isto durou ainda algum tempo.

Até que um dia um poema meu foi publicado! E— surpresa das surpresas—não apenas no Suplemento Juvenil mas também no próprio corpo do jornal, integrado numa reportagem que dois jornalistas do DL estavam a fazer sobre Lisboa!! Lembro-me que o meu poema se chamava “Lisboa às Seis” e era sobre o que então se fazia às 6 da tarde na cidade: cinemas, encontros  no Chiado,  etc. E pronto. A partir desse dia o “Juvenil” e o “Diário de Lisboa” foram a minha casa. Tudo o que eu sei de jornalismo—aprendi lá. O contacto com os tipógrafos, que eram pessoas de grande cultura, ensinou-me imenso. Tanto assim que, quando a minha filha nasceu, o padrinho foi o chefe da tipografia  do DL — que ela adorava.

E, organizados pelo “Juvenil”, havia encontros com gente importante da cultura numa das salas do sótão do “Diário de Lisboa”. Lembro-me de encontros com o escritor Ferreira de Castro (que me tratava sempre por “madame”), com Fidelino Figueiredo, com o actor Rogério Paulo, e tantos, tantos outros. (O José Régio também foi convidado –fui eu que lhe escrevi—mas respondeu a dizer que agradecia muito mas que já estava velho para essas coisas. Ainda tenho a carta. Nem todos se podem gabar de ter um carta de José Régio…)

Alguns anos depois (assinando eu ainda “Alice Vassalo Pereira”) fiquei a dirigir o “Juvenil”. Então o Juvenil—sem que tivéssemos feito nada por isso—começou a receber textos de gente muito mais velha, aquilo a que se chama  “jovens adultos”

Então tive contacto directo com a censura, que cortava o suplemento sem dó nem piedade. Muitas vezes nem percebíamos porquê… Não se podia escrever, por exemplo, “chapeu à colonial” (para o governo Portugal não tinha colónias…) Nem sequer a simples frase “isto está  mau,olá se está!”  Por isso tínhamos sempre um outro suplemento completamente pronto –para entrar, quando a censura cortava tudo. E isso acontecia cada vez mais.

Depois, em 1970 — já eu lá não estava — o “Juvenil” acabou. Nunca, até hoje, percebi porquê. Nem houve qualquer explicação. Possivelmente quem ficou no meu lugar cansou-se de lutar contra a censura. O que eu até percebo. E então eu fui para  o “Diário de Notícias”, onde, entre outras coisas, criei o suplemento “O Catraio”, esse sim, para miúdos pequenos.

Mas o “Juvenil” do “Diário de Lisboa, continua a ser uma grande referência do jornalismo português. E, quando algum de nós se  reencontra, é sempre uma grande festa

 

Alice Vieira

 


Alice Vieira
Trabalhou no “Diário de Lisboa”, no“Diário Popular” e “Diário de Notícias”, na revista “Activa” e no “Jornal de Notícias”.
Atualmente colabora com a revista “Audácia”, e com o “Jornal de Mafra”.
Publica também poesia e é considerada uma das mais importantes escritoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.

Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Alice Vieira


 

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