Crónica de Mário de Sousa | O regresso

 

Crónica de Mário de Sousa
O regresso

 

Uba Nhaga regressou da Bissau. Muitos anos de trabalho, dois cobertores de lã, dois pares de sapatos, uma farda de ganga descorada e algumas notas de peso dentro da mala de chapa, eram todas as suas bambas. Sem troco para toca-toca, viajou no pé, comeu raízes da terra e bebeu água de bolanha. Uba Nhaga, velho e cansado, voltava ao seu chão. Pouca gente encontrou na tabanca. Das suas mindjeris apenas a garandi, a primeira mulher, o esperou. Fora a única que os outros não quiseram debochar, porque a sua barriga escorria em pregas e seus seios já há muito haviam caído, murchos como mamões engelhados. A velha, quase não o conheceu. Afinal, dos maus-tratos padecidos, a sua pele estava mais preta, curtida como pele de vaca, seu cabelo já branco rareava, e dos olhos baços, vertia uma humidade em pinga-pinga, como se a vida lhe escorresse por ali.

Uba Nhaga ficou triste quando viu sua bolanha, agora capim e mato cerrado, e o mangal, avançando, lavra dentro a engolir a lama, onde em tempos o arroz verdejava. Da sua canoa, apenas as goelas se viam, meia cheia que estava do lodo podre da margem. Agora só servia para ninho de saltões.

Sacudiu o corpo magro afastando uma tristeza. Não era homem de desistências. Encheu o peito de ar e bateu pé de volta à sua morança. Entrou de um sopro, abriu a mala de lata e do fundo retirou um pedaço de pano-pente que desembrulhou com cuidado. Apareceu uma navalha de barba, um pincel com pouca cerda e uma pedra de amolar.

Manhã cedo, ainda os jagudis descansavam a cabeça debaixo da asa, e já Uba Nhaga, de saca às costas, conquistava lugar, bem no centro do mercado. Alisando a terra, foi tirando da saca um banco, um alguidar que encheu com água, um pano que pôs dentro do alguidar, um sabão, e a navalha a brilhar. Uba Nhaga agora era barbeiro, raspava cabeças e freguesia não lhe faltava. Afinal, raspar a cabeça era coisa importante para se fazer uma vez em cada lua. E trabalhava, navalha reluzindo, ensaboando e raspando crânios e pescoços com destreza e rapidez. Se, por desgraça do paciente, a navalha resvalava e na alvura do sabão aparecia uma nódoa vermelha, Uba Nhaga, com voz de Sô Dôtô, logo fraseava: Kumpadre, veia de seu Irã hoji, tá munto inchada. Kumpadre precisa tê cudado. Sangui tá fervendo; já tá a saí. E pegando no trapo encharcado, limpava a carniça e o sabão, do coco do paciente.

Mas ia juntando moeda a moeda no farrapo, e à hora de atacar o angú e o molho de palma, já muitas cabeças lhe tinham passado pelo fio da navalha. Uma tarde de domingo, sonolento, mordiscando a cana do seu cachimbo de barro, falou para a sua velha: mindjer nós já tem dinheru que chegue. Você ‘manhã vai na tabanca e pede gente pra capinar lá na bolanha! E respirou fundo de satisfação.

Ainda, o alma-biafada não tinha acabado o seu canto de acordar o Sol, e já a tropa em farda caqui se alinhava na porta da casa de Uba Nhaga. Papel na mão, o Chefe de Posto gritou o nome do dono da morança. Dizia o papel que agora as lavras de Uba Nhaga já não eram sua pertença. Se homem não amanha sua terra, então ela não tem dono. Se alguém compra selo e põe no papel, pode reclamá-las como suas. É a lei. Mas Chefe de Posto é homem bom e vem avisar Uba Nhaga. Tem todo o dia para capinar a lavra. Se o fizer, então Chefe de Posto não pode entregar a terra ao novo dono e papel com selo não tem valor.

Uba Nhaga está abatido. Vai buscar uma catana de capinar e uma enxada, e mete-se à picada. Na pressa, nem lambisco meteu na boca. Carregava sessenta e muitos anos, mas levava asas nos pés. Corre, espera-o muito capim para cegar e muita terra e lama para cavar. O sol despertava com força e o calor secava os últimos farrapos de nuvens. Ao fundo, avistou os primeiros capins da sua bolanha…

A catana começou a capinar, e Uba Nhaga quase não enxergava de canseira. Mas cegou, cegou sempre, e a catana a fender o ar, zzzt! zzzt! zzzt! E o capim a cair, a ficar para trás, molhado do suor do pobre velho. Quando acabou de cortar, já o cansaço principiava a lhe arrepanhar os músculos das pernas. Endireitou-se. O sol alto do meio-dia dardejava húmido nas suas carnes secas, e foi então que sentiu uma picada no estômago a lembrar-lhe o seu jejum. Levou a mão ao farrapo mas nem cheiro de nada lá havia. O suor escorria-lhe e esfregou os olhos. Um desequilíbrio inesperado quase o fez cair para a frente mas a catana serviu-lhe de apoio.

Agora a tarde nascia. Outra fúria arrancou-lhe os pés do chão. Correu para a enxada. Os primeiros torrões saíram bem, mas depressa se acabou a terra seca e a lama pesava muito. As pernas estavam doridas e um fogo começava a secá-lo por dentro. Continuou. A noite já se adivinhava na cor sanguinolenta do horizonte. Os joelhos dobraram-se-lhe. Na queda, doeram-lhe cotos de mato contra o peito. Sentiu a humidade da lama na boca e uma dor como que uma agulha a cravar-se-lhe no peito, cortava-lhe a respiração. Mas as mãos iam-se enterrando na lama pegajosa, arrancando, pela raiz, pedaços de mangal. A maré começava a subir e a noite desaguava com força. Arquejante, Uba Nhaga agitava os braços e arrastava o corpo, deixando atrás de si uma ruga funda no chão. A língua seca e pegajosa de lama atafulhava-lhe a boca, e não o deixava respirar. Uba Nhaga agonizava de cansaço e desespero. Por fim, deixou cair a cabeça enterrando a cara no lodo. Os saltões espreitaram o vulto quieto, atrevendo as cabeças fora dos seus buracos. Quando a água escura do mangal lhe banhou a meia calva, Uba Nhaga respirou fundo, as mãos crisparam-se e desistiu de viver. Só a Lua foi testemunha do mangal a sepultá-lo.

 

Mafra, 5 de Maio de 2022

Mário de Sousa

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