Crónica de Jorge C Ferreira | Um maço de tabaco estrangeiro

 

Um maço de tabaco estrangeiro
por Jorge C Ferreira

 

Por vezes as noites eram danadas. Histórias que se construíam. Invenções que não lembrariam ao demo. Tudo era bem combinado e cada um tinha o seu papel bem estudado. Tudo aconteceu naquele tempo em que ainda se conversava às esquinas dos lugares mais atractivos.

Um amigo nosso tinha um tio embarcado. Esse tio quando chegava, além de outras coisas, trazia pacotes de tabaco estrangeiro. Coisa que no burgo não se via a não ser de contrabando. Contrabando que se estendia às bebidas, aos relógios e outras coisas que causavam apetite a muita gente.

Esse nosso Amigo conseguia surripiar maços de tabaco aos pacotes que o tio tinha deixado lá em casa. Quando vinha com o maço de cigarros, uma embalagem cartonada, na mão, vinha um pouco inchado. Nunca mais me esqueço da marca, que não faço ideia se ainda existe, “Lark”. Era muito cioso daquele seu tesouro não distribuindo pelos restantes companheiros de conversa de esquina.

Surgiu então uma ideia, vinda não me lembro de quem.  Tínhamos de fazer uma partida ao nosso amigo do tabaco estrangeiro. Tudo foi combinado e planeado com rigor. Cada um sabia o que tinha a fazer. Será amanhã. Ou será a partir de amanhã e repetir-se-á até que a coisa cole. E assim foi.

Foi inventado que a um de nós tinha sido diagnosticada uma doença esquisita. De vez em quando, e de forma repentina, ficava agressivo e se não lhe fossem feitas as vontades passava a um estado violento. Todos o iam tentar acalmar. Todos iriam dizer ao visado a razão das exigências do nosso suposto doente, para ter calma e ceder também um pouco.

Havia um que ia falar com ele para um lugar mais recatado, explicar-lhe o que estava a suceder, que tinham sido os pais dele a dizer-nos e a pedir para termos paciência com ele.

Está bem de ver que o visado era o nosso amigo do tabaco estrangeiro e o doente o melhor actor de todos nós. Depois de tudo bem ensaiado iria seguir-se a acção.

No dia seguinte o nosso amigo a quem, para me facilitar a escrita, passarei a chamar “Lark”, chegou com o seu maço de cigarros a brilhar na mão e um sorriso no rosto. A conversa começou normal.

«Então cigarrinhos estrangeiros?»

«Gente fina é outra coisa.»

E outras bocas do género enquanto a conversa ia continuando e nós fumando um Porto, ou Português Suave. Até que, de repente, o nosso amigo com a suposta doença rara entrava em acção e, com os olhos desorbitados e quase a espumar da boca, disparava, com uma voz quase gutural, para o estrangeirado:

«Um cigarro, dá um cigarro. Já.»

O “Lark” ficava atónito. Era a altura de outro o chamar de lado e lhe contar o triste caso do nosso amigo e de o avisar que era perigoso contrariá-lo.  Os outros tentavam, entretanto, acalmar o falso doente, que não parava de dizer:

«Um cigarro, um cigarro, um cigarro…»

O “Lark” voltou, depois de lhe terem contado a treta, e foi direito ao falso doente e abriu o maço, puxou um cigarro para fora e disse: toma lá um cigarro, não há problema.»

O outro pegou no cigarro, pediu lume e começou a fumar com ar alucinado.

Agora era o  “Lark” que nos dizia:

«Ele realmente não está nada bem.  Como é que isto aconteceu?»

«Ninguém sabe. Estão a estudar o caso.»

E logo outro dizia:

«O melhor é ires para casa, não tarda nada pede-te o maço todo.»

Era então que o “Lark” se despedia como se ninguém desse por ele e se punha a caminho de casa.

O suposto doente partia, então a correr, pelo outro lado do quarteirão, e esperava pelo “Lark” dentro da sua escada.

Não tardava tínhamos o “Lark” de volta, afogueado, em pânico e sem tabaco, enquanto o “doente” desaparecia. Alguém tinha de ir levar o “Lark” a casa para o descansar.

E assim se acabou o tabaco estrangeiro na esquina do Jardim.

«Olha do que vocês se foram lembrar! Bonitas coisas sim senhor.»

Fala de Isaurinda.

«Brincadeiras de adolescência. Apenas isso.»

Respondo.

«Ainda podia dar alguma coisa ao rapaz! Com doenças não se brinca.»

De novo Isaurinda e vai, a benzer-se.

Jorge C Ferreira Abril/2022(345)

 


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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15 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Um maço de tabaco estrangeiro”

  1. Maria Matos

    Malandrices… Engraçada história… Coitado do Lark, ainda endoidava com a encenação 😃😃

  2. Lénea Bispo

    Agora lembro uma expressão em latim que condensa o propósito da sátira : ” Ridendo Castigat mores”. Uma intenção que se aplica aos autos de Gil Vicente.
    Por isso, esta brincadeira da adolescência podia muito bem ser adaptada a uma peça de teatro e representada. Tem crítica e tem humor !
    Gostei, poeta !

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Lenea. Toda uma peça ensaiada e encenada. O teatro da vida. A adolescência. Grato pela sua presença.

  3. Maria Luiza Caetano Caetano

    Impossível não rir, enquanto lia esta tão divertida história, de um menino, que todo ufano exibia uns cigarros estrangeiros junto de seus amigos. Mas partilha-los, nem pensar. E como imaginação era coisa que não faltava ao grupo, logo lhe prepararam uma cena, que para lá de ficar sem os seus preciosos Lark, apanhou um belo susto. E assim se ia divertindo a juventude e o tempo foi passando.
    Tanta imaginação a sua, querido escritor. Que bela peça e que excelente encenação. Adorei, muito obrigada. Abraço enorme.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Luiza. Coisas de adolescentes. Sempre a pensar na próxima partida. A capacidade de nos reinventar. Beijinho

  4. Eulália Pereira Coutinho

    Excelente. Mais uma memória maravilhosa e hilariante de uma adolescência feliz. Poderia ser um episódio de uma cronica de bons malandros.
    Com grande imaginação, saborearam o tabaco estrangeiro e puseram à prova o egoísmo do ” Lark”.
    Talvez tenha aprendido a lição ou talvez não.
    Os amigos continuaram felizes, sem doenças estranhas, a fumar Porto e Português Suave.
    A verdade é que são aventuras que ficam para a vida. São memórias maravilhosas para quem as viveu e quem as conhece através desta escrita única.
    Grata Amigo.
    Grande abraço.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Eulália. As brincadeiras próprias de um tempo. As brincadeiras. Criar situações e alguns disparates. Um tempo de crescimento. Abraço

  5. Filomena Geraldes

    Jorge.
    Com que então, Lark?
    O que essas mentes manhosas e astutas não engendraram para enganar o “ingénuo”?
    Quando ele nem tinha culpa de ter
    um tio embarcado que trazia mercadorias do estrangeiro, nem pobre criatura, de usufruir desses bens que eram tão cobiçados pelos amigos da esquina…
    Ainda por cima, mostrava o troféu
    e era incapaz de o partilhar.
    A propósito, Lark faz-me lembrar uma personagem de fábula.
    Daquelas que achavam que levavam sempre a melhor, sabem?
    O que tinham de “ingénuas” as raposas ou as lebres de La Fontaine ou de Esopo? Eram maliciosas e mal intencionadas. No fim da história tinham o merecido castigo!
    Lark teve a sua lição.
    Foi com um sorriso que li mais um acto da tua adolescência. Podes crer que apreciei. Rejubilei. No final da peça até ovacionei.
    O engenhoso plano delineado, o jeito
    do actor do grupo que não deve ter seguido artes cénicas e o susto que levou Lark a sentir na pele um ditado muito antigo que diz assim “o último a rir é o que ri melhor!”.
    Obrigada. Foi um gosto.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Mena. Lindo. Pois é o “Lark” aprendeu, por caminhos ínvios, o verbo partilhar. Abraço grande

  6. maria fernanda morais aires gonçalves

    Grande imaginação a do teu grupo!
    Mais algum saiu escritor?
    Já estou a ficar como a Isaurinda. Vocês eram terríveis. Abraço.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Fernanda. Não, mais nenhum. Mas havia muita capacidade criativa. Abraço forte

  7. Branca Maria Ruas

    Que malandrecos vocês eram….
    Histórias de adolescência que, por mais anos que passem, fazem sempre rir quem as viveu. Algumas das cumplicidades criadas nessas alturas ficam para a vida.
    Obrigada pela partilha desta história que nos faz sorrir só de imaginar a cena!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria. Sim, coisas que não se esquecem. Feita uma havia que pensar na próxima. Tinha de ser assim. Abraço grande

  8. Isabel Campos

    Quem tem tutu tem medo 😊

    Histórias que ficam na vida da gente. O tempo de todas as partidas, das malandrices.

    Beijinho 😘

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Isabel. Fizeste-me rir. Foi uma partida das muitas que não esquecemos. A juventude e a criatividade. Abraço enorme

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