Crónica de Jorge C Ferreira | Fim de semana na praia

 

Fim de semana na praia
por Jorge C Ferreira

 

Os fins de semana eram pequenos. O dinheiro não abundava. Era verão e apetecia praia. A Costa da Caparica do outro lado do rio. Uma tenda. Um parque de Campismo, (Orbitur). Uma festa anunciada.

Primeiro o autocarro até Belém, depois o barco para a Trafaria e, por fim, a camioneta até ao Parque de Campismo. Toda a viagem era uma alegria. Uma aventura. Havia sempre a tentativa de não pagar o bilhete em qualquer transporte. Era uma ajuda para um fim de semana melhor.

Não havia telemóveis. Estávamos por conta uns dos outros. Todos sabíamos de todos. Os nossos pais confiavam. Eram as viagens possíveis. Só anos mais tarde o Algarve entraria nos nossos roteiros.

Escolhíamos sempre o mesmo sítio no parque. Mesmo em frente do “bungalow” de um futuro rosto conhecido da televisão que ali passava uma temporada com a mãe.

A tenda era à moda antiga. Não havia colchonetes e acho que nem duplos tectos. Levávamos cobertores e com um rolo de roupa fazíamos almofadas. Um amigo teimava em levar sempre um martelo. Usava-o unicamente para bater as pedras salientes no sítio onde se ia deitar. Era um espectáculo extra.

Tudo era montado num tempo record. A vontade de ir à praia era imensa. O banho naquela água um pouco fria até era apetecível. Hoje não me apanhavam lá. Aliás, hoje não vou à praia. Não posso com a areia. Estou à espera que alcatifem as praias. Trabalhar para o bronze também era importante. Usávamos uma mistela de óleo de coco e glicerina que se mandava fazer nas farmácias.

Parecia que estávamos untados para ir ao forno. O banho final e voltar ao parque. Tomar duche e preparar para sair que a noite vinha aí. As boîtes esperavam por nós e algumas amigas. Por norma íamos a pé até à vila e de lá voltávamos, já tarde, do mesmo modo.

As noites eram longas e de muita euforia. Por vezes a música ao vivo enchia-nos de prazer. Dançar, pular e, por vezes, namorar. Uma liberdade intensa. Livres de tudo e por nossa conta. Também aconteciam festas de garagem em que tudo se tornava mais íntimo. As luzes propositadamente ténues. Os slows da nossa paixão. Um beijo roubado e uma noite ganha.

Chegávamos tarde ao parque e não podíamos abusar. No entanto, primeiro que todos se acomodassem naquela tenda de chão único, não era tarefa fácil. Havia sempre a piada meio parva, o riso que se pegava, até que o cansaço nos derrotava. O nosso tal amigo repetia sempre o ritual de tentar bater as pedras com o martelo. Acordávamos esbodegados e cansados. Assim íamos para a praia onde, por vezes, adormecíamos. Mas a água tinha a suprema força de nos despertar. Tudo se repetia. Num sem fim que não queríamos que acabasse.

Quanto às comidas safávamo-nos com os enlatados que levávamos. Comprávamos as bebidas e o pão na loja do parque. As célebres latas de carne concentrada, o atum e as salsichas. Comíamos sentados em pedras sob o olhar gozado da miúda que viria a ser o tal rosto conhecido da TV e da mãe.

Como já tinha dito, os fins de semana eram curtos. Cheguei a participar em lutas para acabar com o trabalho aos sábados de manhã na banca. Demorou. Tudo chegava tarde a este pobre país.

Desarmada a tenda, era voltar a casa pelo mesmo caminho e calar todas as aventuras. Estávamos de novo na vida real. Tudo voltava ao normal. Mais um fim de semana tinha passado.

«Eu faço ideia o que vocês faziam naquele parque de campismo!»

Fala de Isaurinda.

«O normal que faziam os rapazes da nossa idade.»

Respondo.

«Sim, sim, faço ideia dessas chegadas nocturnas.»

De novo Isaurinda e vai, um sorriso aberto em ambas as mãos.

Jorge C Ferreira Abril/2022(344)

 


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velhinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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19 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Fim de semana na praia”

  1. Regina Conde

    Enquanto escreveste a crónica, terás revivido e até sorrido destes fins de semana que teimavam em terminar. Obrigada por partilhares estas memórias. O que escreves tem cheiros e cores intensas. Abraço imenso Jorge.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Regina. Reviver momentos felizes. Grato por me leres e comentares. Abraço grande

  2. Eulália Pereira Coutinho

    Maravilhoso. Neste tempo de normalidade decepada, é um privilégio poder regressar ao passado, desta forma. O fim de semana era curto, mas dava para muito. Cada momento vivido alegremente, em liberdade, mas com responsabilidade. Tudo vivido no tempo certo. Aventuras que não esquecem.
    Que bom poder recordar amigos e momentos tão bons. Nessa altura o Algarve era uma miragem.
    O campismo era uma solução, da qual tenho também boas memórias.
    Obrigada Amigo por estas viagens no tempo.
    Grande abraço.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Eulália. Foi isso. Viver tudo na altura certa. Embora o tempo fosse cinzento, arriscar e colorir a vida. A rebeldia. Grato por estar aqui. Abraço forte

  3. Maria Luiza Caetano Caetano

    Como deve ser gratificante para si, poder desfrutar todas essas belas recordações. De um juventude vivida em pleno, nada os impedia de avançar rumo à aventura. O importante era viver os momentos, que tanto gostavam. Nem as pedras do chão eram problema, uma simples martelada resolvia a situação. E dormia-se. Os enlatados eram o vosso “manjar.” Não se vive para comer, come-se para viver. E o que o tornava feliz era viver e fazer caminho, sempre à descoberta do desconhecido.
    Um filme que ainda retém na sua memória e faz o favor, de nos mostrar através de palavras tão suas: Adorei, é sempre um momento de prazer lê-lo, querido escritor. Obrigada, meu Amigo. Abraço enorme.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Luiza. Foram momentos que perduram nas nossas memórias. Aventuras de adolecentes rebeldes. É sempre uma alegria ler os seus comentários. Beijinhos

  4. Filomena Geraldes

    Jorge.
    Foste à descoberta. No ímpeto dos sentidos. Na audácia dos teus verdes
    anos.
    Saías do lugar onde te acomodavas e com os parceiros de aventuras inauguravas as surpresas de momentos inspirados. Destemidos e arrojados, experienciavam jogos de vida. Destruíam barreiras e construíam novas veredas. A Orbitur. Os banhos de praia. A comida enlatada. O sono por completar. As saídas para desfrutar as noite que convidavam ao apelo do corpo. Adrenalina. Estranhas e apetecíveis sensações. Hormonas que fervilhavam.
    Foste um jovem de espírito liberto que aproveitou o que de melhor a vida tinha para lhe dar. Esses fins de semana sabiam a pouco…
    Outros viriam mas com um gosto diferente.
    Hoje, passados anos e anos, vais ao teu álbum de recordações e mostras-nos as fotografias que nunca chegaste a tirar.
    Quase podemos vê-las tão real é a descrição.
    Como a juventude era um vendaval de despropósitos e de sentimentos renovados…
    Como continua a valer a pena recordá-la pois é desses momentos inesquecíveis que se alimenta a nossa alma…refazendo-se.
    Grata por tamanha partilha!
    Saudade.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Mena. Sempre especiais os teus comentários. Fico de alma cheia. Foi um tempo muito nosso. Tempo de aventuras. Assim o lembro. Grato. Abraço imenso

  5. Maria cristina Belchior Ferreira

    Também fiz campismo. Durante vários verões a minha tia Anita e o meu tio Alfredo levavam os sobrinhos para uma das maiores aventuras doas suas adolescências. Genuinamente alegres e marcantes eram aqueles dias passados entre a tenda num parque de campismo improvisado pelo campo de futebol do Sesimbrense, e a praia. Todos nós, os primos guardamos as melhores memórias dessa semana. Tudo era definido a rigor e no dia que se comia carne (que era só 1 durante essa semana,) era dia de festa. Pois havia sempre peixe com fartura que os amigos pescadores do tio levavam para nós. Quando regressávamos das férias não podíamos ver peixe à nossa frente. É também dos pescadores e das suas casas que lembro sempre que visito Sesimbra. Hoje, tudo tão diferente daquele tempo.
    Também tenho memórias bonitas da Costa da Caparica. Outras histórias. Só não sei conta-las como tu. Abraço, querido Jorge

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Cristina. Todos vivemos tempos especiais. Tempos em que a liberdade estava na alegria com que vivíamos determinados momentos. Como gosto de te ler aqui! Abraço grande

  6. José Luís Outono

    Gostei de ler estas memórias de uma juventude inquieta, que também senti, vivi e argumentei como vitamina pura do nosso crescer.
    Hoje, olhamos esses traços de ontem e sorrimos na aferição de desse correr de calendários, quantas vezes ainda apetecíveis.
    Excelente … é a palavra que encontro para definir este teu recordar de ontem, que soubeste retratar com a tua memória e caneta.
    Venham mais, caro amigo que muito estimo.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado José Luís. Assim fomos crescendo. Foi um tempo em que fomos obrigados a crescer depressa. A trabalhar jovens. Muito agradecido pela tua presença neste espaço. Abraço forte

  7. António Feliciano Pereira

    As memórias que todos vivemos na juventude. As atividades que nos deixam saudades e que lembramos com nostalgia!
    Bons tempos!
    Um abraço, Jorge!

    1. António Feliciano Pereira

      Boa Páscoa!

      1. Ferreira Jorge C

        Obrigado António. Páscoa Feliz.

    2. Ferreira Jorge C

      Obrigado António. Tempo nosso. Tempo vivido na altura certa. A busca da liberdade. Grato por estar neste espaço. Abraço grande

  8. Ivone Maria Pessoa Teles

    Meu Amigo/Irmão, estive, com muito gosto, nas minhas memórias, publicações tuas. Foi muito bom. Beijinhos ternos da tua amiga/irmã.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Ivone, minha Amiga/Irmã. Vidas nossas. Momentos únicos. Tão bom ter-te aqui. Beijinhos

      1. Maria Matos

        Que belas recordações. Como sabiam esses fins de semana com os amigos…
        Como era bom gozar a vida!
        Tempos inesquecíveis.
        Ando com as minhas leituras atrasadas, adorei esta,. É uma vergonha só responder agora.
        Obrigada, Jorge…por estás recordações

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