Crónica de Alice Vieira | Um agradecimento aos tios

 

Um agradecimento aos tios
Por Alice Vieira

 

As tias que me criaram tinham uma paixão mórbida pelos mortos. O tipo podia ter sido um canalha—morria e era um santo. (Como cantava a Juliette Gréco, “os mortos são todos uns tipos bestiais!”). Além disso, para elas era quase um crime deixar morrer os parentes no hospital. Tinham de vir morrer a casa. À nossa, claro.

De vez em quando havia um telefonema a avisar: “O tiozinho já vai para aí.”

Tios que nem eram tios. Tios que eu nem sabia quem eram

Sempre me lembro de haver um tio doente no quarto ao fundo do corredor da minha  casa.

Muito doente.

Doentíssimo.

Moribundo.

Morto.

Então as minhas tias desarmavam a  mesa onde sempre almoçávamos e jantávamos—e no seu lugar punha­-se o caixão, enquanto abriam as janelas do quarto ao fundo, “para arejar”, enquanto esperavam outro.

Uma das tias ia para a porta da rua—que tinha de ficar aberta—para deixar entrar as pessoas que vinham para o velório.

Era muito divertido ter um tio morto lá em casa. Para já porque eu não conhecia o senhor (ou a senhora) de parte nenhuma.

E depois porque nesses dias ninguém se importava comigo : eu podia deitar-me às horas que me apetecesse e não lavar os dentes que ninguém se ralava.

E ainda mais: para eu estar sossegada no meu canto, todas as pessoas que vinham para o velório–  e eram sempre um batalhão…- traziam-me um livro.

Tinham todos umas dedicatórias meio  estranhas:

“Com muitos beijinhos do tio Sebastião, que gostava tanto de ti, mas que já não tos pode dar.”

“Em nome do teu tio Augusto, que gostava de estar agora ao pé de ti, mas já não pode.”

“Muitos beijinhos da tia Maria, que te adorava, mas viajou  para o além.”

Etc,etc, etc …

Tenho todos estes livros muito bem guardados numa prateleira da  minha estante: por acaso tenho 5 exemplares do “John Chofer Russo”, do Max du Veuzit, que todas as velhas daquele tempo adoravam—e claro, também não dou nenhum destes porque, evidentemente, as dedicatórias são  diferentes.

(Um dia mostrei-os a uma das minhas netas, e acho que ela ainda não parou de rir.)

Mas o que é verdade é que eu devo a minha paixão pelos livros e pela leitura a toda essa legião de tios que escolheram (ou alguém por eles) vir morrer na minha casa de jantar.

E por isso lhes estarei eternamente grata.


Alice Vieira
Trabalhou no “Diário de Lisboa”, no“Diário Popular” e “Diário de Notícias”, na revista “Activa” e no “Jornal de Notícias”.
Atualmente colabora com a revista “Audácia”, e com o “Jornal de Mafra”.
Publica também poesia e é considerada uma das mais importantes escritoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.

Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Alice Vieira


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