Crónica de Jorge C Ferreira | O que vemos

 

O que vemos
por Jorge C Ferreira

 

Sobram-me noites nestes dias inquietos. Um dormir agitado e apressado. Assim andamos quase todos entre notícias que gritam crimes, violências, pandemias e banqueiros presos e por prender. Entretanto a festança dos nababos continua.

Um foragido foi preso longe do país e lá apareceu o homem com um pijama de uma companhia aérea. Uma oferta para quem viaja no luxo de uma boa transportadora aérea. O homem também não deixa nada para trás. Ou será que tudo se agarra a ele? Não sei, nem arrisco uma opinião.

Entretanto um ex-político ficou em prisão domiciliária. Outros foram feitos arguidos. Outros não o foram por terem prescrito os crimes de que eram acusados, o costume. Logo os advogados e juristas enxamearam os canais de notícias. A darem as suas opiniões. As mais diversas. As mais esquisitas e as mais banais.

Uma narrativa vai aparecendo na voz dos mesmos, nos do costume. Isto faz parte de uma campanha que se vai intrometer com a campanha eleitoral. Não há pachorra! Já é demais. Cidadão não aguenta. Não se esqueçam das eleições, são a 30 de Janeiro.

Digam-me como está a taxa de ocupação dos hotéis de 5 estrelas. Como está a marcação para os restaurantes mais caros. Como está o takeaway para esses restaurantes. Como está a lotação dos voos em primeira classe para destinos paradisíacos. Tenho pouca informação sobre isto. São lugares que não frequento.

Depois há também os programas que exploram a desgraça humana, a cirurgia que não se consegue fazer, as bocas desdentadas, os corpos fora do sítio, a cadeira de rodas que falta e as ofertas que enchem de júbilo quem as recebe e fazem chorar quem assiste. Muitas vezes a busca de um padrão de beleza que está na moda. Programas de televisão que ficam baratos e fazem chorar as pedras da calçada. Depois ainda há os telefonemas de valor acrescentado, uma lotaria para aliviar a pobreza. Uma receita importante para as antenas televisivas.

Também aparecem os tipos de produtos milagrosos que curam todas as maleitas e um fulano que corre os canais todos a vender um seguro de saúde. Tudo isto me faz lembrar um homem suado e com ar estranho que, na feira da ladra, gritava para um microfone roufenho que estava doido e começava a dar coisas a quem comprasse uma que pagava todas as outras.

Entretanto continuam as filas de espera para as cirurgias. Continuo a ver pessoas a coxearem nas ruas, indivíduos com as hérnias em risco de estrangularem, outras com as cervicais e as lombares feitas num oito.  Eu tenho medo de me deslocar até Inglaterra devido à minha provecta idade e à nova variante que pôs tudo em alvoroço. O primeiro-ministro inglês entre as festas da downing street, vai fazer de conta que está com as mãos na massa e colocar uns pensos rápidos no pessoal vacinado. Este mundo, como diz o cantor: “é o avesso, do avesso, do avesso.” Nós vamos dançando conforme a música e conforme nos deixam. Continuamos mascarados.

Falta-me falar dos programas de opinião. A que eu chamo de falsa opinião. Os falantes são escolhidos a dedo. Já reparei que são sempre as mesmas forças políticas a tentarem moldar as cabeças de quem ouve. Tudo muito democrático até determinada latitude.

Assim navegamos nesta paz podre. Se cheira mal? Por vezes cheira.

«Olha que tu hoje deste-lhe bem. Estou farto de te dizer para desligares a televisão. Isso é só lixo.»

Fala de Isaurinda.

«Temos de saber em que mundo nos movemos. A televisão é um meio muito poderoso. Temos de estar informados e saber filtrar as notícias.

Respondo.

«Sim, sim e ainda compras o Jornal para ler alguns dos que aparecem ali. Tu não te fartas!»

De novo Isaurinda e vai, a benzer-se com a mão direita.

Jorge C Ferreira Dezembro/2021(328)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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20 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | O que vemos”

  1. Ivone Maria Pessoa Teles

    Pois é, querido amigo Jorge. O mundo atravessa tempos feios e que perturbam quem gosta de gente que não rouba, nem se vende. Apetece-me ” pegar ” nas palavras da sempre atenta, Isaurinda. O lixo parece crescer em cada canto.
    Gostei muito da tua opinião. Mas há que continuar a luta pela justiça e solidariedade. Assim os vírus parem de, também, de se multiplicarem para que a possamos fazer. É, então, que voltaremos a descer as Avenidas .

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Ivone, minha Amiga/Irmã. Não vamos perder a esperança. Havemos de descer de novo as Avenidas numa festa vibrante. Abraço imenso

  2. Filomena Maria de Assis Esperança Costa Geraldes

    “Ai, Agostinho!
    Ai, Agostinha!
    Que rico vinho…
    Vai uma pinguinha?
    Este país perdeu o tino.
    A armar ao fino!
    A armar ao fino! (coro)
    – Falam pr’aí que há demissões e admissões.
    Que nos partidos andam todos à tapona.
    E nós, todos na lona… todos na lona!
    -O Zé pagante é que fica sempre na mó debaixo.
    Os banqueiros e os ex-ministros, esses, era vê-los com tacho!
    Corrupção, offshores, fugas e escapatórias….
    -Já viste, Agostinho que isso são só histórias?
    E das mal contadas. É só paleio e pouca prova.
    O que nós estamos a precisar é de gente com garra, gente nova!
    – O pior, Agostinha é que são mais as vozes do que as nozes…!
    Que venha quem vire isto do avesso e acabe com o compadrio. Ponha fim à paz podre, às pandemias e à saúde sem assistência, um buraco sem fundo!
    -Ai, Agostinho é vê-los de rastos,
    sem serem atendidos. Se queres
    ser consultado, procura o privado!
    De quem é a culpa disto tudo?
    Este país perdeu o tino.
    A armar ao fino!
    A armar ao fino!
    -Já que falas de ricaços que me dizes dos hotéis pr’ós finórios? Dos voos lotados, em primeira, sei lá pra onde…?
    -O que te digo, Agostinha?
    Dá cá uma pinguinha!
    Vai tudo de vento em popa.
    Eles são uns espertalhões. Já nós,
    os zés-ninguém, com misérias de pensões, se quisermos dar umas voltas, damos aos quarteirões!
    Isto é que é uma vida…
    Isto é que é uma vida…! ”

    Jorge C. Ferreira. O teatro de revista veio dar o seu ar brejeiro e satírico à tua excepcional crónica.
    Actual. Acutilante. Incisiva. Pertinente.
    Talentosa!
    Abraço, mestre.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Mena. Tão bom. Tu e o teu teatro. Um par de referência. Um programa que já não se faz. Temos de nos reinventar. Abraço enorme

  3. Isabel Soares

    Uma belíssima crónica sobre a realidade sociocultural e política. O desvendar de vários verentes. Um grito de revolta e indignaçâ. Diria mesmo nojo. E a maldita impotência. Num segundo tempo,o cronista,passa para miséria económica, mas também social e cultural,em dois aspectos:os que sofrem física e psicologicamente,sem meios para se tratarem e que silenciosamente aceitam ua . . situação . Um sistema de saúde e social que mâe lhes rsponde. E a televisão na sua pior forma,alimentando a apatia,o analfabetismo e o adormercimento. Grotesco, como tâo bem descreve o autor.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Isabel. Há muita coisa a mudar urgentemente para manter a nossa dignidade. Merecemos mais e melhor. Temos de lutar por tudo a que temos direito. Todos somos pouco. A esperança que não perdemos. Abraço grande.

  4. Coutinho Eulália Pereira de

    Crónica extraordinária.
    Tudo o que reclamo, quando logo a televisão, descrito de forma brilhante. O mundo e o país como nunca pensei ver. Crimes ao mais alto nível. Corrupção. Violência de toda a natureza. Tanta coisa mal contada.. Dias e dias e as notícias sempre as mesmas. Só mudam os protagonistas
    Obrigada amigo, por estar sempre desse lado para alertar as consciências desta forma única.
    Um grande abraço.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Eulália. Onde está o mundo porque lutámos e vamos continuar a lutar. Havemos de conseguir. Ainda vamos ver fazer justiça aos nossos artistas. Lutar sempre. Abraço grande

  5. Maria Luiza Caetano Caetano

    Uma Crónica que nos dá conta do que vai pelo nosso país e pelo mundo. Uma reflexão única. Como única é a sua escrita. Direi ímpar. Que tonteria minha, acrescentar uma palavra que fosse. Subscrevo as palavras de Isaurinda. Obrigada sempre, querido escritor por estar connosco, por elevar a sua voz e nunca esquecer os que tanto precisam. Abraço enorme.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Maria Luiza. Ainda iremos ver outra realidade. Vamos acreditar. Tão grato pela sua presença. Abraço imenso

  6. Cristina Ferreira

    Uma reflexão lúcida à realidade que vivemos. Gostei muito. Abraço

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Cristina. Sempre bonita a tua presença. Abraço grande

  7. José Luís Outono

    Mundos actuais onde o viver é quase ídêntico ao morrer, numa equação indefinida de poeiras gritantes, que alastram sóis escondidos e incertos, mas escoltados em florestas inimagináveis.
    Gritos tão lógicos, mas que os degraus da justiça não encontram fins … apenas intermédios de acusações e defesas constantes multiplicadoras de compassos de espera escritos em livros de armazém.
    Triste sina de olhares caminheiros, sem definição justa.
    Sorte grande, o teu olhar em reflexão ímpar, num texto preocupante e preocupado. O sinal de interrogação cada vez mais ganha simbologias surdas e mudas , via gritos de interesses … e a política acontece.
    Grato estimado amigo pelo teu traço directo!

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado José Luís. Que belo o teu comentário poeta uma visão perfeita. Vamos continuar a ser caminheiros do caminho da liberdade inteira. Abraço forte

  8. Lénea Bispo

    O que vemos nem sempre é bonito de se ver .
    Desligarmo- nos do mundo? De todos os meios de comunicações social ? Não podemos .
    Vamos pensar que um dia as coisas vão mudar … vamos continuar a trabalhar e a acreditar .

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Lénea. Que bom ter-te neste nosso espaço. Sim, o caminho é esse o de lutar para conseguir a verdade toda. Grande Abraço.

  9. Regina Conde

    O que vemos, ouvimos e lemos. Miscelânea de prosmicuidade. Nos intervalos, os supermercados que incentivam ao consumismo perfeitamente desnecessário, faz parte da época de natalícia. Talvez eu tenha perdido esse apelo. As eleições que não levam a sério. Este não é o mundo que imaginei a curto prazo. Reitero o que te disse: escreves muito bem, creio que ainda melhor, com a lucidez que neste caso dói. Abraço grande meu Amigo de verdade.

    1. Ferreira Jorge C

      Obrigado Regina. ” Vemos, ouvimos e lemos não podemos ignorar”. Para onde nos querem levar? Vamos acreditar que somos capazes de alcançar outro mundo. Grato por estares aqui. Abraço enorme.

  10. Isabel Campos

    Que lista de coisas, das que não queremos mas por muito que queiramos ignorar é a realidade deste tempo.

    Salvemos alguma coisa em nós, no nosso círculo familiar, de amigos. Salvemos o que nos move nas lutas por uma vida melhor, mais justa, mais equilibrada.

    Festas Felizes no coração!!!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. Que bom é ter a tua presença neste espaço. Vamo-nos salvar pelos afectos. Vamos lutar pelo que nos pertence. Festas felizes. Abraço imenso

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