Crónica de Alexandre Honrado – Festas Felizes (para mim)

 

Crónica de Alexandre Honrado
Festas Felizes (para mim)

 

Não é por tradição, talvez por nostalgia, dou comigo nesta quadra do ano a refletir. Normalmente fico a contemplar uma fita de luzes coloridas, dessas que fazem de uma árvore natural um encantamento humano. Até nisso há uma tremenda carga cultural, somos pródigos em esconder a natureza com a nossa ânsia de luz.

Fico a refletir, dizia, enredado em memórias, exorcizando erros e demónios, dialogando com os entes amados, sobretudo com os que partiram – procurando enfeites de esperança num caminho que já vai longo e nem sempre foi atapetado para caminhadas fáceis ou pelo menos cómodas.

Sinto que sou mais feliz agora do que já fui – e isso parece um certo paradoxo, já que os momentos da infância deviam ter sido os mais audazes e ingénuos, os mais desalinhados e alegres. Hoje, porém, as minhas gargalhadas ouvem-se à distância, acredito nalguns de nós, ligo-me às causas em que creio, não creio em ídolos nem em idólatras, a minha crença é um cesto cheio de flores nunca colhidas, as cores que mais me enredam são de espantosos matizes.

Se me perguntarem se sou realmente feliz, e a felicidade é sempre uma impossibilidade, digo a correr que sim. Ser feliz é usufruir das temperaturas certas, com as iguarias certas, dentro dos grupos certos, por mais pequeninos que eles sejam.

Disseram-me que tenho andado pessimista, deve ser do vírus, mas também asseguro que muito otimismo é vergonhoso. Não posso cair nos extremos, porque dos extremos, seja eles quais forem, nunca surgiu nada de bom. E enquanto reflito a olhar para as luzes coloridas, desejo-me intimamente, com um sorriso pródigo, festas felizes.

 

Alexandre Honrado


Alexandre Honrado
Escritor, jornalista, guionista, dramaturgo, professor e investigador universitário, dedicando-se sobretudo ao Estudo da Ciência das Religiões e aos Estudos Culturais. Criou na segunda década do século XXI, com um grupo de sete cidadãos preocupados com a defesa dos valores humanistas, o Observatório para a Liberdade Religiosa. É assessor de direção do Observatório Internacional dos Direitos Humanos. Dirige o Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos Humanistas para a Paz, integrado na área de Ciência das Religiões da ULHT Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. É investigador do CLEPUL – Centro de Estudos Lusófonos e Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do Gabinete MCCLA Mulheres, Cultura, Ciência, Letras e Artes da CIDH – Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos da Globalização.

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