Crónica de Alice Vieira | Bruxas com pão

 

Bruxas com pão
Por Alice Vieira

 

Eu bem me esforço, eu juro, eu prometo e eu faço (agora até parecia a Bárbara Tinoco…) mas não dá : assisto aos jogos de hóquei em patins mas  não acho graça nenhuma àquilo.

Mas como ? Como é que foi possível?

Em tempos que já lá vão, o hóquei era o nosso desporto! Mas qual futebol!,  o hóquei aparecia e tudo o mais deixava de ser importante. Lembro-me de estar num cinema e o filme ser interrompido para aparecer no écran o resultado do jogo àquela hora!

Eu sabia—ainda sei!—o nome de todos os jogadores das várias equipas portuguesas: Raio, Jesus Correia, Correia dos Santos, Edgar,  Matos, Adrião, Velasco, Bouçós, Livramento…e por aí fora. E, para além da equipa nacional que ia jogar ao estrangeiro, havia evidentemente as  várias equipas  que disputavam o campeonato nacional.

Como hoje somos do Benfica, do Sporting, do Porto, então éramos do Paço d’Arcos, do Sintra, etc.

Em minha casa éramos do Sintra—que então rivalizava com o Paço d’ Arcos. Mas o tio que me criava era muito amigo dos pais do Raio ( então um dos jogadores do Sintra), que tinham um óptimo restaurante mesmo diante do Palácio da Vila, onde íamos almoçar quase todos os domingos. E claro que tínhamos de apoiar o filho dos donos.

Lembro-me de irmos todos a Montreux para acompanhar uma final do campeonato–que Portugal ganhou.

Era a loucura—digo-vos eu.

E de repente…

De repente chegou a televisão. E foi uma das coisas que mataram  o hóquei. Os encontros de hóquei eram para ser ouvidos — e a gente entusiasmava-se com os relatos, e vibrava, e gritava… Mas não eram para ser vistos. Nas transmissões televisivas mal se vê a bola, que é muito pequena. Vemos uma data de homens a correr –mas não vemos o que estão eles a fazer. A baliza é muito pequena, nunca se percebe bem o que está a acontecer.

E para além disso… Para além disso, ganhávamos sempre. Que graça é que isso tinha? Praticamente aquilo passava-se entre Portugal, Espanha e Itália, às vezes a Suíça — e pouco mais. Lembro-me de um jogo em que demos 18 a 0 ao Japão!

E claro, depois o futebol apareceu em grande—e tudo acabou.

Mas palavra de honra que ainda me esforço por ver. Este ano tive azar,mas pronto. Virão dias melhores…  Talvez um dia eu até volte a saber o nome dos jogadores


Alice Vieira
Trabalhou no “Diário de Lisboa”, no“Diário Popular” e “Diário de Notícias”, na revista “Activa” e no “Jornal de Notícias”.
Atualmente colabora com a revista “Audácia”, e com o “Jornal de Mafra”.
Publica também poesia e é considerada uma das mais importantes escritoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.

Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Alice Vieira


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