Crónica de Alice Vieira | Bruxas com pão

 

Bruxas com pão
Por Alice Vieira

 

Cada país tem as suas tradições, e isso é uma das riquezas de cada um.

Não se encontram em mais lado nenhum, senão em Portugal, as danças dos pauliteiros, o cante alentejano, o vira do Minho, os caretos de Podence,  o banho de mar de São Bartolomeu em Esposende—já para não falar dos santos populares e das romarias e procissões por esse país fora. Durante a pandemia tudo deve ter ficado muito abalado, mas esperemos que a alegria inicial regresse.

Quero eu dizer que não precisamos de ir buscar tradições alheias. Irritam-me sempre muito as festarolas do S. Valentim, sobretudo porque é um santo estrangeiro que vem tirar o lugar ao nosso Santo António que faz o mesmo e muito melhor.

E quando chega Novembro lá temos o Halloween, e mais as bruxas e mais as abóboras e mais os sustos pregados às pessoas.

Este ano o que o Halloween teve de melhor aqui na Ericeira foi a montra da casa José Rola (a  casa da “Rolinha”, para mim) com bruxas, e vassouras e abóboras — mas também com a história  dessa tradição, vinda de cultos pagãos celtas, que depois a Igreja cristianizou. Tirei uma data de fotografias à montra e, pelo menos quem não sabia, ficou a saber donde tudo aquilo vinha.

Quando os meus netos eram pequenos viviam em Inglaterra e o calendário escolar era diferente do nosso.

Um dia a minha neta mais velha veio passar as férias de Natal comigo. Estava-se em finais de Outubro e eu tinha marcado a ida a uma escola na cidade de Angra do Heroísmo. Levei-a comigo.

E calhou com o Dia do Pão-Por-Deus— que ela, evidentemente, nem sabia o que era…

Logo no primeiro café onde entrámos o dono deu-lhe um saquito de pano e meteu lá dentro uns chocolates. Ela olhava de boca aberta para o senhor, e tive de lhe explicar o que era. E por onde quer que entrássemos, logo alguém lhe dizia “dá cá o teu saco!”—que se ia enchendo. E eu expliquei-lhe que, se ela vivesse lá, podia bater à porta das pessoas  a pedir o “Pão-Por-Deus”

A tradição do “Pão-Por-Deus”era então muito forte em Angra, e ninguém falava em Halloween… Isto já foi há uns bons 15 anos, e não sei se por lá ainda se passará o mesmo . Possivelmente as bruxas já terão invadido o arquipélago—mas ao menos que coexistam com o Pão Por Deus…

Era o que devia acontecer por aqui.


Alice Vieira
Trabalhou no “Diário de Lisboa”, no“Diário Popular” e “Diário de Notícias”, na revista “Activa” e no “Jornal de Notícias”.
Atualmente colabora com a revista “Audácia”, e com o “Jornal de Mafra”.
Publica também poesia e é considerada uma das mais importantes escritoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.

Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Alice Vieira


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