Crónica de Jorge C Ferreira | Ser pai

 

Ser pai
por Jorge C Ferreira

 

Vinte sete anos e alguma inocência. Apesar de trabalhar desde os quinze anos. Um primeiro casamento. Uma experiência de vida. Uma casa só nossa. Uma casa de bonecas viria a chamá-la o meu filho. Uma terra na linha do Estoril. Os comboios a passarem e a vida a crescer. A guarda da passagem de nível, a sua casa e a sua bandeirinha. O mar e o seu ruído. Descer a rua e ir vê-lo.

Um filho esse júbilo coberto de medo. O que se faz com um ser tão indefeso. O não estar preparado para tal. O berçário e os choros que pareciam desesperados. Um hospital particular em Lisboa. Lisboa, a minha querida cidade. A cidade da minha vida. (Gostava de morrer lá.) Dois dias depois o rapaz chegava à Parede aconchegado dentro de uma alcofa cheia de folhos. Será sempre um filho da Parede registado em Lisboa. Nesse tempo não sabíamos qual o sexo da criança antes de nascer. Havia quem olhasse para o feitio da barriga das mulheres e dissesse, de “ciência certa”, qual o sexo do inquilino. Nem sempre acertavam. Eu sempre tive a certeza que ia ser um rapaz. Acertei.

Todos os vizinhos vieram espreitar a criança que viaja na alcofa. Cada pessoa deu a sua opinião sobre parecenças. Claro que as opiniões variavam. Uma vida nova ia começar. Um medo assaltava-me. Acho que ainda me assalta passados quarenta e cinco anos. As vidas que sucedem a outras vidas. Um rodopio que nunca acaba. Os medos que se perpetuam.

Nessa altura toda a gente vinha ver o menino. Não sei como é agora. Com o meu neto foram ainda bastantes os que se deslocaram. Mas já lá vão quatorze anos. Penso que já mudaram alguns rituais. As redes sociais. O instagram cheio de crianças que parecem ter nascido já velhas. As mães a mostrarem as crias. Muito faz de conta. Muito “show-off”. As fotos que tenho guardadas num álbum são, agora, quase uma peça de museu.

Acordarem-te a dizer que já és pai, que é um menino. Sonhar com isso tudo acordado. Ser acometido de uma imensa ansiedade. O corpo a tremer. Serei capaz? Nunca estamos prontos para nada. Que estranha situação. Que responsabilidade tão grande. Parece que as costas encurvam um pouco. Fazer de tudo isto uma festa, o grande desafio. Enfrentar a vida. Tentar acreditar em nós. Acho que, naquele dia, aparecem os primeiros cabelos brancos.

Faz dele um homem! Faz dele um homem! Sempre me repetiu a minha Avó sábia. Tinha um bisneto e sempre gostou de o ver, indiferente a tudo e a todos os acontecimentos. A minha Avó sábia que, para nos beijar, nos segurava a cara com as duas mãos. Uma mulher feita ternura. Que sempre gostou do novo e gostava de sonhar com o futuro. Estava praticamente surda. Mas falávamos tanto nos nossos silêncios e num ciciado falar que ninguém mais entendia senão nós. Faz dele um homem! Faz dele um homem.

As primeiras maleitas, os primeiros sustos. Ter uma médica que, para nós, era uma santa. O leite e o bolsar. As fraldas ainda de pano. Um alfinete de Ama. Todo o cuidado para não picar o menino. Todos os cuidados exagerados. O não saber.

Ser filho único e ter um único filho. Será sina, como diria a Amália?

“O teu menino já está muito crescido. Os vossos meninos já são independentes. Não te conhecia na altura do nascimento do menino. Devias ser pouco picuinhas, devias.»

Fala de Isaurinda.

«Sim, tudo me preocupava. Que queres? Era muito novo.»

Respondo.

«Vocês, homens, são muito complicados!»

De novo Isaurinda e vai, um sorriso trocista na mão.

Jorge C Ferreira Outubro/2021(320)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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24 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Ser pai”

  1. Susana Canais

    O eterno amor que por vezes, nos queima por dentro.
    Bonita crónica Jorge, um abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Susana. O amor incondicional. Muito grato pela sua presença. Abraço

  2. Torres Isabel

    Muito bonito o texto. Uma viagem biográfica ao passsado. As emoções e os sentimentos da paternidade. Únicos. A alegria imensa e o medo gigante transparecem. Outro olhar sobre a vida e a sua própria vida. E a vida no seu início às suas mãos. A transformação subjectiva por isso. Uma intraquilidade nova a emergir nesse processo. Até hoje. Muito bonito.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. Tudo fica diferente a partir daquele acontecimento. Muda tudo na nossa vida. O sentimento de impotência. Lutar contra o medo. Obrigado. Abraço

  3. Isabel Campos

    “(…)Uma casa de bonecas (…)”
    Tão bonito o que ficou na memória. Diz da casa e de quem a habitava.
    Parabéns!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. Uma história de crescer. Uma casa de brincar. Um ninho. Abraço grande

  4. Eulália Pereira Coutinho

    Uma ternura, esta crónica. Levou-me 45 anos atrás, ao tempo em que também eu fui mãe pela primeira vez. A alegria, a responsabilidade, amor infinito.
    Os primeiros banhos. Mil cuidados. Sono leve.
    O primeiro filho, no meu caso, uma menina.
    As fraldas de tecido, os sustos.
    Amor maior.Amor que se prolonga nos netos.
    Obrigada amigo, por este texto maravilhoso escrito de forma única.
    Grande abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália. O que veio mudar a nossa vida. A nossa vontade de fazer bem. Como eles crescem. Abraço enorme

  5. Maria Luiza Caetano Caetano

    É sublime o seu texto.
    Como ansiosamente esperava o momento de ser pai. Sei como é maravilhoso, dar vida ao mundo.
    É o momento em que aquele ser indefeso é só nosso. O nosso amor maior, a nossa responsabilidade tão grande.
    Que texto lindo e delicado é dos mais belos que já li, tão bem descrito, por um pai atento e ternurento. Que por longos anos continue a acariciar, o seu filho muito amado.
    Obrigada, querido escritor foi um gostoso momento, ler a ternura das suas palavras. Adorei !
    Abraço enorme.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Luiza. Sempre belos os seus comentários. Sempre ternos. A nossa alegria e o nosso medo. Uma condicionsnte para a vida. Tão grato. Abraço imenso

  6. Ivone Maria Pessoa Teles

    MARAVILHOSO o texto sobre a maravilha de ser pai. Sei da maravilha de ser mãe e o sentimento é de cada um e dos dois. Tu e o teu Gonçalo, ainda lindo. Beijinhos em TERNURA.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone. Tu és uma pessoa maravilhosa. Os teus comentários também. Vamos continuar. Beijinhos ternos

  7. Geraldes Filomena Maria de Assis Esperança Costa

    Imagino como terá sido esse momento mágico de trazer vida ao mundo.
    Imagino quantos temores, quanta ansiedade, quanta esperança misturada com um tremendo de um amor.
    De sangue e carne. De alma, também!
    Imagino os conselhos da sábia avó. Surda mas escutando e doando o som da ternura. Das carícias, a duas mãos.
    Imagino o pai. O esmero. O cuidado. O mimo. As preocupações.
    O menino de berço a fazer-se homem. Já lá vão quarenta e cinco anos.
    Esse mesmo homem que te presenteou com um neto.
    Mantém-se a ternura.
    Os cuidados. O mimo. As preocupações.
    Ser avô é ser pai duas vezes. Não duvido.
    E eu que não cheguei a dar à luz mas tenho um filho, filho do coração, sei que criar é amar.
    Parece-me que esta terá sido a mais pungente, enternecedora e tocante crónica que terás escrito.
    Tem lugar cativo no teu coração. Que outra coisa poderia ser?

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Mena. Os teus comentários são sempre textos de antologia. É tão bom estares de volta. É tão bom ler-te. És um poço de ternura. Abraço

  8. Branca Maria Ruas

    Falas do sublime amor incondicional. Do amor para a vida. Do amor que faz parte de nós.
    E falas também da irreversibilidade. Porque tudo muda a partir do momento em que nos nasce um(a) filho(a). Mudamos nós, muda a tranquilidade dos nossos sonos, muda o mundo que nos rodeia. Surgem medos e inquietações mas surge também uma imensa Luz que nos ilumina quando mais precisamos.
    Tal como tu também sou filha única e tenho uma única filha.
    Desejo as maiores felicidades ao teu “menino” (para nós serão sempre aqueles seres indefesos e frágeis que tínhamos medo de magoar).
    Muita saúde para os dois!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria. Tu sabez o quanto te estou grato. Sabes como gosto de te ver aqui. Sim, tudo mudo e nasce um amir incondicional. Ums coisa que não sabemos explicar. Serão sempre os nossos meninos. Abraço grande

  9. António Feliciano de Oliveira Pereira

    O começo de uma nova vida é sempre um projecto no qual apostamos tudo para ser perfeito.
    A felicidade deles faz-nos felizes, também.
    Um abraço, Jorge!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado António. É uma tarefa para a vida. Uma eterna inquietação. Uma enorme aventura. Abraço forte

  10. Cecília Vicente

    A história repete-se, difere muito pouco o acto e a existência de aprender ser pai ou mãe. Hoje como sempre há pais e progenitores, a diferença está na parte e reparte da criança ou crianças quando pai e mãe tentam fazer ou refazer deles armas que como consequência traumas emocionais. Tudo para dar certo mesmo quando existe um ponto final, filhos são como alguém escreveu ( que não Saramago) um curso intensivo, são nossos sem o serem, por vezes erradamente tornamo-nos possessivos, eles e nós somos de vidas paralelas com elo eterno no nosso coração. Filhos são, pais serão, tudo se repete com o mesmo amor ou desamor, tudo é, tudo será tal qual o instinto nos ajuda a conjugar a vida. Parabéns ao pai, ao filho, ao neto e à genra, e, claro, à Isabel. uma família às direitas, serão muitas como serão poucos, o que manda e comanda é o amor, depois dele a educação emocional com que se transmite sem obrigação de querer ou exigir. Como tudo neste universo somos o que escolhemos ser, predestinado ou não, perfeitos nesta eterna imperfeição quando pais de primeira viagem. Obrigada meu muito amigo Jorge. Abraço!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cecília. Sim, pertencem ao mundo estão apenas a nosso cargo. Uma ciclópica nova vida. Quantos sonhos e quantos medos. Abraço grande

  11. Cristina Ferreira

    Um filho é para a vida. As preocupações estão sempre contigo. És pai. E ainda por cima, és picuinhas.
    Tão delicada esta crónica.
    Abraço

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. Sou picuinhas sim e tudo me mete medo. Vou ser assim até ao fim. Será que isto tem fim? Abraço forte

  12. José Luís Outono

    Impressionante tacto de um sentir continuado desde o projecto até ao clima da posse via nascimento e olhares opinativos.
    Permite-me meu caro amigo, traças textos com a ligeireza de um pincel numa tela, que acaba para o leitor, e para ti ainda e sempre existe o pormenor do enriquecimento de imagem amada.
    Abraço grato !

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado José Luís. Sempre tão bom ter-te aqui. És companhia indispensável. Não temos posse apenas o cargo de fazer bem o que nos aflige. Abraço imenso

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