Crónica de Jorge C Ferreira | E viva Portugal

E viva Portugal
por Jorge C Ferreira

 

Não sei que vos diga sobre o futuro, o nosso futuro. Estamos aqui especados nos anos mais antigos. Ouvimos conversas sem sentido. Vemos os tipos que se vão vendendo. Parece que estamos num beco sem saída. Estamos num vai e vem pandémico e com as vacinas à porta de casa. Há um Almirante que manda nestas coisas, de picar e inocular.

Cá em casa já tomámos as duas doses da vacina mais discutida. Sobrevivemos até hoje. Amanhã logo se vê.

Entretanto vão acontecendo as coisas do costume neste nosso país pequenino.

Ao cimo da rua onde eu nasci, do lado esquerdo de quem sobe, no gaveto que dá para outra avenida, havia uma garagem enorme onde dormiam camionetas e automóveis. Chamava-se os Palhinhas. Melhor, Cooperativa Lisbonense de Chauffeurs. Foi nesse terreno que construíram a embaixada da antiga URSS.  Embaixada hoje da Federação Russa.

Foi a esta embaixada que chegaram uns mails da Câmara Municipal de Lisboa que identificavam os promotores de uma manifestação contra o regime de Putin. Coisa que me deixou boquiaberto. Pensava (sou tão crédulo) que tal não era possível quase 50 anos após o 25 de Abril.

Um senhor com cara de menino que, por vezes, aparece com um colar ao pescoço veio a terreiro assim que as notícias foram públicas. Esse senhor é o presidente da câmara. O Herman foi só presidente da junta. Vinha nervoso e até me pareceu um pouco afogueado e não trazia o colar.

Trazia desculpas para pedir e poucas explicações para dar. A coisa era feia. Causou incómodo. Uma coisa difícil de explicar e de perdoar.

Seguiu-se o inquérito do costume. Do inquérito resultaram culpados os serviços. Burocracias! Ficou tudo como dantes “Quartel-General em Abrantes”. Vá lá, não foi culpada a Senhora da limpeza, nem o electricista.

Atenção, não quero dizer que o Sr. Presidente da Câmara seja um delator. Agora que há aqui incompetência…

Entretanto o carro do ministro do costume, o Cabrita, começou a atropelar pessoas. As desculpas habituais. Dava ideia que o trabalhador é que tinha atropelado o automóvel.  Um comunicado desastroso. O inquérito do costume iria ser feito. Vieram depois os da Brisa desmentir a versão do ministro Cabrita. Está montado o circo. Consta-me que nem um representante do governo apareceu no funeral! O trabalhador deixou duas filhas e viúva. Convém falar disso.

Este Cabrita é o máximo. Não há nada que não lhe aconteça. Parece que prolongar a sua estadia no governo é um castigo.

Isto parece um corridinho algarvio. “E cuidado com as moças/ Não batam com o cu no chão”.

Para Cúmulo: após o Presidente da Assembleia da República nos ter convocado para “invadir” a Andaluzia, ficámos por cá, nós e ele, a assistir ao afastamento da selecção de futebol do europeu. Quando havia o foco do futebol para distrair o pessoal, esta hecatombe!

Valeram-nos os doutos comentários do Sr. Presidente da República no intervalo e no fim do jogo.

Agora continuamos aqui neste rectângulo de noventa e tal metros quadrados, a ver passar navios. Temos sol, temos praia, temos limos e rochas, extensos areais. Temos sardinhas e peixe fresco. Bom vinho. Recebemos bem. Só precisamos de quem nos visite. A coisa está feia. Hotéis e restaurantes fechados. Muitos trabalhadores sem trabalho. Uma crise que se vai arrastar. A pobreza a aumentar.

E viva Portugal.

«Tu andas a pisar terrenos esquisitos. Tem cuidado contigo. Não abuses.»

Fala de Isaurinda.

«Minha querida, estamos num País livre. Não podemos deixar que nos calem.»

Respondo.

«Nunca fiando, nunca fiando. Ouve o que te digo.»

De novo Isaurinda e vai, a mão aberta a aconselhar-me calma.

Jorge C Ferreira Julho/2021(309)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

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16 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | E viva Portugal”

  1. Jorge C Ferreira

    Obrigado Regina. Já vivemos o tempo de todos os sonhos. Já sonhámos. Estes tempos dos acomodadinhos enerva-me. Temos de gritar. Temos de mudar. Abraço grande

  2. Cecília Vicente

    Ai as vacinas, que trapalhada geral, não fosse o almirante ainda estaríamos a léguas com a tal DGS, que tanto diz como desdiz ….
    Tantos são os que têm nome e gabinete que não se entendem, ou se entendem procuram o elo mais fraco para culpabilizar. O Sr. Cabrita, nem gosto de lhe chamar sr. ministro saiu-me cá um ministro com mestrado em inquéritos que nunca se veem resultados conclusivos porque a culpa morre solteira, lá diz o ditado…
    E assim vai o nosso Portugal, doente, viral e pandémico com todas as variantes que estão e outras que hão-de vir… Abraço meu amigo,continua a manter as distâncias, a máscara porque os tais 100% não são gratuitos nem certos…

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cecília. Os pequenos e os grandes poderes. A culpa que arrasa os mais fracos. A falta de ética Republicana. Abraço forte

  3. António Feliciano de Oliveira Pereira

    Bom texto, boa crítica, sempre atual e incisivo!
    Um abraço, Jorge!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado António. Há coisas que não podemos calar. Temos de avisar e fazer eco. Abraço grande.

  4. Isabel Torres

    Um crónica que entrelaça vários assuntos. Uns preocupantes,outros vergonhosos,outros de uma esperança desesperante. Muito bem escrita,como sempre,e que verbaliza o que sentimos. Foco-me neste suspense das nossas vidas. Não vemos luz ao fundo do túnel,mesmo com um processo de vacinação a decorret bem. E a ausência,no mínimo, do ministro é um acto cobarde e nojento (perdoem-me a expressão). Perdeu-se uma vida e o senhor continua como se nada se tivesse passado. Uma vergonha.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. Acontecimentos que deixam incrédulas as pessoas de bem. Temos de ser mais exigentes. Não podemos comer e calar. Temos direito a fazer ouvir a nossa voz. Abraço grande

  5. Eulália Pereira Coutinho

    Excelente. As confusões deste país e do mundo. Onde acaba a verdade é começa a mentira. Os crimes que se cometem em nome do poder. A arrogância. A falta de solidariedade.
    Tem toda a razão , meu amigo, não podemos calar, estamos num País livre. Fazê-lo com este sentido de humor, desta forma única é só para alguns. É um privilégio ler os seus textos.
    Vamos resistir.
    Viva Portugal!
    Obrigada por estar sempre desse lado.
    Grande abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália. Prometo que terá aqui a minha voz enquanto puder. As tais coisas que custam a entender nunca deixarei passar. Grato pela sua constante presença. Abraço grande

  6. Maria Luiza Caetano Caetano

    Nesta sua Crónica, está bem explícito o seu olhar atento.
    Na verdade é imprescindível falar. Falar de coisas, que na verdade em nada dignificam este País e ele merece dignidade. Tão pequeno, mas tão belo, onde nasci e gosto de estar. Não vou especificar nada.
    Está bem claro, tudo o que tão bem escreveu querido escritor e eu concordo. Muito obrigada, por fazê-lo.
    O meu abraço enorme e grato.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Luiza. Tão importante a sua presença. Se amamos de verdade este País. Temos de denunciar os que fazem coisas que nos envergonham. Temos de ter verticalidade. Abraço imenso

  7. Filomena Maria de Assis Esperança Costa Geraldes

    Açorda à nossa moda
    Juntam-se as burocracias do costume e deixam-se a demolhar.
    Depois de bem desfeitas, sem grumos, acrescentem-se os inquéritos, as omissões e as desculpas, a preceito. Por fim, para dar um toque de portugalidade, uns temperos com cheirinho ao europeu de futebol e os esclarecidos incentivos do nosso PR em terras andaluzas.
    Acompanhar com desemprego, uma crise sem fim à vista e a pandemia que, pelos vistos, caminha a passos largos para uma quarta vaga.
    Jorge, nunca te cales.
    Isto é que vai para aqui uma açorda, hem?
    Viva Portugal!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Mena. Sempre belos os teus comentários, sempre acutilantes. Hoje temos o prato que já enjoámos. É tão bom estares sempre aqui. Abraço imenso

  8. José Luís Outono

    Olhares precisos dos incómodos que vamos encontrando.
    Diria meio mundo – Inacreditável, só não vê quem não quer.
    Perfeito “documento” deste respirar duvidoso, onde uma recta pode ser uma curva ou vice-versa, pela conveniência de um estar, ou de um viver … melhor enriquecer, enquanto é tempo, e a página da razão nada dita regras precisas.
    Triste elo onde cada folha de calendário dita um mar de interrogações, e o amanhã é um jogo teatral do logo se vê
    Insisto – Perfeito documento de análise simples, para um reflectir complexo.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado José Luís. Não deixemos que as amizades nos obriguem a contar histórias da carochinha. Temos de ser verticais. Nunca calar grato pela tua presença. Abraço grande

  9. Regina Conde

    Que tempo é este que vivemos e o que está para vir. A perda de sossego de quem já sente a pobreza a entrar em casa. O senhor com cara de menino não precisou de perguntas com rasteira, escorregava sozinho sem ser empurrado. O senhor com nome de animal, terá que pedir desculpa às cabritas de verdade. foi muito feito enquanto se manteve em silêncio, foi muito feio quando falou. Há que prestar atenção ao rectângulo tão cobiçado.
    Um texto sério escrito com sentido de humor inteligente. Excelente. abraço Jorge.

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