Crónica de Alexandre Honrado – Entre a visão e a cegueira cada um morre por si

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Crónica de Alexandre Honrado
Entre a visão e a cegueira
cada um morre por si

 

Há palavras que me inquietam, esta é uma delas: desisti.

A verdade é que de vez em quando me assalta. E passo a explicar e a dizer quando é que a palavra me procura.

Desisti de encontrar uma didática para o mundo em que vivo, como desisti de enfrentar aqueles que teimam na sua ignorância como se ali encontrassem um refúgio para o seu ego periclitante.

Desisti de explicar aos meus vizinhos e às minhas vizinhas que usar a máscara preventiva inclui tapar o nariz, onde os buracos vivem aos pares, prontos para inalar voluntária e involuntariamente todas as ameaças, porcarias, aromas, como também e felizmente outras sensualidades.

Desisti de dizer a alguns amigos (de todas as idades) que já promovem uma enorme quantidade de comportamentos de risco, do abracinho de amizade ao abraço apertado em família, da multidão na festa, no comício, na igreja, na maior reunião de fé ou de convívio, nos transportes públicos ou mesmo nos privados. É como atravessar o campo minado para desentorpecer as pernas, sabendo que podemos ficar sem elas, as pernas que ainda nos podem levar longe.

Desisti de ver comentadores e comunicadores que substituem os especialistas e até desisti dos especialistas que substituem o bom senso.

Desisti de ouvir e ver os negacionistas, os extremistas, os conservadores e até os revolucionários, quase todos com as máscaras descaídas, escondendo o rosto para abrir à idiotice, à mentira, à mesquinhez os seus orifícios mais despudorados.

Desisti de seguir as ideias de uma “oposição” sem causas, ideologia ou verticalidade, como desisti de seguir a “situação”, quando prova não ter ideias, trair a ideologia, perder a verticalidade.

Desisti de me assustar com aqueles que dizem que têm direito à liberdade, achando que a liberdade é acotovelar-se num bairro baixo, comer sardinhas ao ar livre com o pessoal lá da rua ou do escritório bem aconchegados entre a cerveja e o copo de tinto, ou em alternativa andar à porrada com os hooligans (os vândalos, traduzindo à letra), ou beber com eles até cair e dar cabo do fígado e do resto.

Desisti de contar borrachos e balas de borracha, mentecaptos e “mentalistas”, cobardes e coveiros.

Desisti há muito das ideias velhas, dos velhos do Restelo e de Santa Comba – não!!! Esses não!

Desisti de verificar que os números negativos aumentam, os comportamentos negativos aumentam, as ameaças aumentam e poucos de nós são aqueles que ainda estão vigilantes.

Há palavras que me inquietam, mas são sobretudo as atitudes que mais me assustam. E essa filosofia que prova como entre a visão e a cegueira cada um morre por si.

Posso no entanto dizer aqui, apesar disto tudo: não desisti. Porque não gosto da palavra e do que significa. Porque há em mim qualquer coisa como um vasto espaço de muitos lugares à minha espera e também porque conheço alguns como eu. Que não desistem.

 

Alexandre Honrado

 


Alexandre Honrado
Escritor, jornalista, guionista, dramaturgo, professor e investigador universitário, dedicando-se sobretudo ao Estudo da Ciência das Religiões e aos Estudos Culturais. Criou na segunda década do século XXI, com um grupo de sete cidadãos preocupados com a defesa dos valores humanistas, o Observatório para a Liberdade Religiosa. É assessor de direção do Observatório Internacional dos Direitos Humanos. Dirige o Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos Humanistas para a Paz, integrado na área de Ciência das Religiões da ULHT Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. É investigador do CLEPUL – Centro de Estudos Lusófonos e Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do Gabinete MCCLA Mulheres, Cultura, Ciência, Letras e Artes da CIDH – Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos da Globalização.

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