Crónica de Alexandre Honrado – Outras ameaças que ignoramos

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Crónica de Alexandre Honrado
Outras ameaças que ignoramos

 

Estive a cerca de cem quilómetros de Chernobyl mais de dez anos passados do terrível desastre nuclear. Passaram-se já muitos anos sobre a data dessa viagem.

O acidente, ali ocorrido entre 25 e 26 de abril de 1986, exatamente no reator nuclear nº 4 da Unidade Nuclear de Chernobil, perto da cidade de Pripiat, no norte da Ucrânia ainda Soviética, próximo da fronteira com a Bielorrússia ainda Soviética, deixou um rasto de destruição, morte e sequelas físicas que ainda hoje são visíveis. Para quem não sabe, a  dissolução da União Soviética ocorreu em 26 de dezembro de 1991, como resultado da declaração nº. 142-Н do Soviete Supremo da União Soviética. Chernobyl foi um dos seus legados, uma terrível herança para a Humanidade.

Os anos passam e a memória parece apaziguar-se, diluir-se e por vezes desaparecer até ignorar o pior do mundo.

Quem é que sabe exatamente o que foi a chamada gripe espanhola ou as matanças da guerra do ópio que manteve a China em guerra civil durante 13 anos entre 1850 e 1864? É sempre assim com os efeitos dos grandes acidentes, das pandemias, da loucura dos seres humanos que veem na guerra o que a paz permitiu que cegassem. Hoje é a guerra entre israelitas e palestinianos ou a Covid 19, amanhã será outra aberração qualquer. Vivemos para esquecer?

Hoje, 35 anos depois de Chernobyl sabemos muito pouco do desastre nuclear e sobretudo do que se passa no local. E no entanto, a possibilidade de outro desastre ainda não desapareceu completamente. Só há muito poucos anos, os engenheiros concluíram uma obra delicada e morosa, a construção do Novo Confinamento Seguro (NSC). O enorme NSC tem a forma de um arco e foi feito com o objetivo de manter estáveis os restos existentes do reator ​​para uma eventual desmontagem, que nunca será a curto prazo, e também para manter o local seco. O NSC deveria estabilizar o local, que ainda é altamente radioativo e cheio de material fóssil. No entanto, alguns sinais preocupantes emergiram do sarcófago que cobre o reator da Unidade Quatro, sugerindo que os restos ainda podem aquecer e emitir radiação para o meio ambiente. Novamente.

Uma análise da ONU diz que apenas cerca de 50 pessoas morreram durante o colapso original em 1986, causado por uma queda de energia durante um teste de segurança importante. Mas as explosões que se seguiram lançaram uma precipitação radioativa na atmosfera por toda a Europa. Posteriormente, a ONU estimou que cerca de 4 mil pessoas morreram como resultado da exposição às partículas radioativas de Chernobyl.

Os engenheiros temem que a água da chuva vazando para dentro do prédio possa causar outro evento nuclear. Acontece que mantê-lo seco pode ser ainda pior.

Colapsos como o de Chernobyl e, mais recentemente, de Fukushima no Japão, são o resultado de uma reação em cadeia descontrolada.

À medida que os núcleos de combustível de urânio se separam, liberam neutrões que atingem outros átomos de urânio, fazendo com que também se dividam. Os níveis de neutrões no prédio destruído da Unidade Quatro, que ainda contém uma pasta derretida de barras de combustível de urânio, revestimento de zircônio, barras de controlo de grafite e areia derretida, duplicaram nos últimos anos.

A sala abaixo do reator da Unidade Quatro é agora um tanque contendo toneladas deste material nuclear semilíquido. A equipa estima que metade do combustível original do reator ainda está preso dentro desta sala.

Não há disponível muito mais do que este pequeno acumular de informações. Nunca sabemos bem o tamanho da origem das sombras que nos ameaçam. Essa é afinal a única certeza.

 

Alexandre Honrado


Alexandre Honrado
Escritor, jornalista, guionista, dramaturgo, professor e investigador universitário, dedicando-se sobretudo ao Estudo da Ciência das Religiões e aos Estudos Culturais. Criou na segunda década do século XXI, com um grupo de sete cidadãos preocupados com a defesa dos valores humanistas, o Observatório para a Liberdade Religiosa. É assessor de direção do Observatório Internacional dos Direitos Humanos. Dirige o Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos Humanistas para a Paz, integrado na área de Ciência das Religiões da ULHT Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. É investigador do CLEPUL – Centro de Estudos Lusófonos e Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do Gabinete MCCLA Mulheres, Cultura, Ciência, Letras e Artes da CIDH – Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos da Globalização.

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