Crónica de Jorge C Ferreira | A Polícia

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A Polícia
por Jorge C Ferreira

 

Hoje, dia 12 de maio de 2021, tenho que vos dizer que o meu Sporting se sagrou, ontem, campeão de futebol cá do burgo. Sou daqueles tipos que gostam de sofrer. Ser de um clube não se discute. É um pouco como a fé, ou se tem ou não, não se explica. Interessa que tudo seja um modo de viver em bem e para o bem. Saber perder e saber ganhar é o importante. Ser do Sporting deve ser uma forma de estar.

Todos sabemos que nos fenómenos de massas há gente infiltrada, a tentar aproveitar os momentos, para criar mal-estar. Cabe a quem organiza, ou deixa organizar, saber dessas infiltrações e cuidar de as evitar. Estando ainda a vigorar um estado de calamidade, mais urge evitar certas coisas. A aglomeração de adeptos era inevitável. A presença da polícia de forma ostensiva e musculada, sem se entender muitas vezes o porquê, cria o conflito eminente.

Uma coisa que me preocupa é a forma como a polícia tem aparecido de forma agressiva e, por vezes, desnecessária. Voltaram os cães-polícias. No meu tempo dizíamos: cães-polícias e polícias-cães. Parece que alguém quer mostrar uma força que nos impeça qualquer veleidade. Já há quem lhe chame a polícia do Cabrita.

Esse Sr. Ministro, tão criticado por vários episódios e pela forma desconchavada como responde às críticas, é o responsável por estas polícias. Assim sendo não se pode esperar grande coisa, mas tal situação é perigosa.

Uma coisa que sabe quem foi preso pela polícia do antigamente é a forma como, quando nos apanhavam, nos batiam com o cassetete com o lado de metal. Ontem vi que os polícias batiam e, quando alguém caía, continuavam a bater. Para quê? Disparavam balas de borracha a uma distância não aconselhável. Suposição minha. Dava ideia que estavam a jogar “nerf”. Coisas que não gosto de ver. Serei só eu?

Já no “Zmar” o dispositivo policial e novamente os cães, pareceu-me perfeitamente desajustado para o objectivo pretendido. Tudo para realojar uns quantos, assustados, imigrantes a quem ninguém disse para onde iam e que foram recambiados, horas depois, para outro lugar.

Não estou a gostar muito da forma como o Cabrita usa a polícia, ou não é ele quem manda? Sabem, já não entendo nada. Sei que depois se instalam inquéritos. A alguns desses inquéritos perdemos o rasto. Outros arrastam-se.

No caso do cidadão ucraniano que morreu às mãos do estado português, o processo foi célere. Não me compete falar sobre se as condenações foram correctas ou não. Cabe-me dizer que vi algo que andou como a justiça exige, para ser justa, com rapidez. Vi o estado assumir as suas responsabilidades e indemnizar a família da vítima num espaço de tempo inusitado. Vi o SEF ser decapitado.

Sabemos que, por vezes, mudar um ministro não muda a política. Mas também sabemos que há pessoas que se vão desgastando e se tornam inaptas para a função.

Temos de estar atentos.

«Eu fiquei contente de ver o Sporting ser campeão. Já não gostei de ver tanta gente junta.»

Fala de Isaurinda.

«Foi uma grande explosão de alegria. A espera tinha sido muito longa.»

Respondo.

«Tenho medo é que as pessoas se tenham infectado e venham a infectar outros.»

De novo Isaurinda e vai, alguma inquietação na mão fechada.

Jorge C Ferreira Maio/2021(302)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

Pode ler (aqui) todas as crónicas de Jorge C Ferreira


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20 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | A Polícia”

  1. Filomena Maria de Assis Esperança Costa Geraldes

    Verdes somos.
    Tu, eu e tantos, tantos outros…
    A festa era previsível.
    Dezanove anos é muito tempo.
    O sangue ferve. Adrenalina.
    Explosão de energia acumulada.
    Um bando de pessoas verdes. Revoadas delas.
    Exaltados os ânimos.
    A alegria não escolhe lugar.
    O tumulto.
    Desorganização?
    Força policial excessiva?
    Violência gratuita?
    O poder de quem tem o poder?
    Desregramento?
    As opiniões que se dividem?
    As acusações que se multiplicam?
    E no fim, ninguém teve culpa.
    Não gosto desta palavra. Culpa.
    Como não gosto de excessos.
    Mas identifico-me com a tua análise. Os argumentos. As denuncias.
    Tocas com o dedo na ferida. E que ferida! És sempre o lado racional da questão quando o apontamento
    assim o exige.
    És interventivo.
    Claro.
    Direto.
    Crítico.
    Vais para além do teu papel de cronista. Nunca és omisso. Nunca te perdes na dissertação.
    Venceste outro “campeonato” . O da verdade.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Mena. Sim, verdes somos. Temos de saber medir a importância das coisas. Tu escreves sempre tudo e bem. A mim só me resta agradecer a tua presença neste espaço. És uma querida Amiga. Abraço enorme.

  2. Maria Luiza Caetano Caetano

    Como sempre são assertivas e elegantes, as suas palavras. Esta Crónica é por tudo isto excelente. Eu subscrevo cada palavra escrita. E estaria tudo dito, mas como sou um pouco teimosa, insisto em afirmar que o exemplo vem sempre de cima. E não veio! Que não gostei de ver bater nas pessoas, de maneira tão feroz. E espero que os detidos, não abarquem com a culpa dos que ficaram cá fora. Vou ficar com as falas de Isaurinda, sempre sábias e boas conselheiras. Desejo, querido escritor que continue feliz com a vitória do Sporting. Desta vez a vitória “foi nossa Viva o Sporting.” Abraço enorme.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado minha Amiga. Viva. Sempre a comentat com mestria. É um prazer lê-la. Breve e saborosas palavras. Abraço grande.

  3. Isabel Torres

    Mais uma crónica bem escrita. Sobre o sentimento da vitória do seu clube. E,para mim assustador,a violência policial que presenciou e também via TV. É de facto incompreensível e incrível a forma como se agride,intimida e… seres humanos,principalmente quando estão vulneráveis, fragilizados e indefesos. Muitas vezes sem consequências. E para quê? Continue a denunciar. E da forma bela e correcta a que já nos habituou.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. Não entendo a violência. A presença de forma, diria provocatória, da polícia. Que parecem estar num estado de guerra. Nunca ninguém é culpado. Abraço

  4. Eulália Pereira Coutinho

    Crónica excelente. Parabéns pelo Sporting, que mereceu o título de campeão. Não sendo grande adepta de futebol, compreendo o orgulho dos adeptos e neste caso a festa da vitória.
    Confesso, no entanto, que fiquei chocada com as imagens que vi e penso que todos estiveram mal. O estado de calamidade foi esquecido com a conivência de todos. Assistimos a um empurrar de responsabilidades vergonhoso. O ministro Cabrita esteve mal, situação que se repete há demasiado tempo.
    Vamos esperar por dias melhores, meu amigo.
    Que as próximas vitórias sejam festejadas em liberdade .
    Obrigada pelo alerta.
    Grande abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália. O futebol é só o exemplo que encontrei para melhor demonstrar o, quanto a mim, mau trabalho da polícia. O ministro Cabrita já cansa. Muito grato. Abraço grande.

  5. Saturada deste portugalzinho…

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Sofia. Já somos dois. Já não devia cá estar. Continuo à espera da segunda dose da vacina. Abraço imenso

  6. Cristina Ferreira

    Uma crónica muito assertiva e muitíssimo bem estruturada. Como só tu Sabes tocar nas feridas de uma forma tão delicada. Por isso a minha enorme admiração à tua escrita lúcida e terna . Parabéns Sempre.
    Parabéns também pelo teu Sporting. Imagino como estejas feliz.
    Um beijinho meu para ti e outro para a Isaurinda.
    Cristina

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. Tão bom ler o que escreveste. Sempre generosa. Temos de falar. Pode não parecer mas estou semore do lado da liberdade. Não podemos calar. Abraço grande.

  7. Regina Conde

    Parabéns!!! Sou simpatizante do Benfica, no entanto por 90 minutos fui do Sporting. Dezanove anos é muito tempo, a ansiedade e alegria previam excessos. Um tal senhor de seu nome Cabrita é de facto um desastre. Onde quer que tenha que intervir, triplica a confusão. Qualquer cão tem atitude mais assertiva. Pena que estejam treinados para atacar e incentivar o medo. Pretendem os ditos senhores em desculpas esfarrapadas que não sabiam, esqueceram. Inconsequentes. Irresponsáveis. Clandestinidade, ninguém conhecia. Mais uma violência que tenho dificuldade em ver. Obrigada pelo teu texto. Excelente. Abraço Jorge.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Regina. Obrigado pelo apoio. Sabes,muitas vezes, mudar de político não significa mudar de política. No entanto este ministro já está a mais. Vamos ter cuidado com a actuação das polícias. Os polícias são, devem ser, defensores da liberdade e do nosso bem estar. Vamos fazer com que isso aconteça. Abraço forte

  8. Maria Teresa Dias Pereira

    Ah! A polícia e os seus rafeiros…sim, tem razão,imigrantes acordados ás 2 da manhã, para irem dormir para outro lado…outras pessoas acordadas ás 4 da manhã por rafeiros e gnr para quê?…voltaram uns dias depois.
    Sim o Cabrita, trapalhão, anda a brincar?
    Vá para o raio que o parta, mas, deixe o lugar para outro/a mais competente.
    Quanto ao meu SPORTING, sagrou-se CAMPEÃO, que alegria…mas, não podia acreditar…meia Lisboa estava na rua?…aos magotes, inconscientes do que daí podia resultar?…faltam poucos dias para saber por quantos é que os sportinguistas ficaram a perder.
    A minha alegria é imensa a par de uma tristeza (medo) imensa!!
    Portaram-se mal, mas quantos lampiões e outros mais estariam, lá, para estragar a festa?
    Outra vez mais rafeiros e polícia…ai Cabrita, que te andas a portar muito mal!!!
    Deixem SPORTING gozar a sua vitória sobre os outros clubes!!
    Obrigada, Jorge Ferreira pelo tão bem elaborado texto que nos ofereceu!!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Teresa. Pondo de parte o futebol. Porque o futebol é paixão, algo que não se explica. Falemos da actuação da Polícia e sa força desnecessária que teima em mostrar. Falemos de um ministro e da política de um ministério. Falemos do Cabrita. Temos de duscutir o futuro. Abraço grande.

  9. Ivone Teles

    Pois, querido Jorge, eu que sou ” BRIOSA “, e nem com o seu futebol vibro( posso ficar contente, só), estou muito dividida entre a neta Benfiquista e o filho Sportinguista. Que ganhe quem merecer.. Mas não gosto, não, de ver o descontrolo de alguns adeptos e das polícias. Eu que, num dos CONGRESSOS DA OPOSIÇÃO DEMOCRÁTICA em Aveiro, só não levei com o cassetete, porque uma santa senhora nos abriu, ao grupo onde eu ia, a sua porta de casa a tempo. Nestes tempos que correm, o desporto deixou de ter uma acção educativa( era o que me diziam os educadores ) para me parecer que se tornou numa forma de descarregar frustrações. São novos tempos estes, num planeta à beira da rutura. Parabéns para ti pela victória do teu clube. Beijo à sábia Isaurinda. Beijinhos ternos da amiga/irmã, Ivone.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone, minha Amiga/Irmã. Tiveste mais sorte que eu quanto à política e aos cassetetes. Ainda bem. Sabes, já não vejo os jogos de futebol. Temo a forma como a polícia se apresenta. O caso de Odemira é ridículo. Sempre grato pelas tuas palavras. Abraço imenso

  10. Cecília Vicente

    Pois é, o Sporting campeão, merecidamente com uma equipa jovem, com um treinador consciente espero eu, de que , o sucesso não tem de subir ao topo, um pouco de harmonia e humildade faz o ” homem” digo eu que não tenho preferência clubista, sou pela selecção…
    Quanto à politica, policias e medição de forças aqui del rei (… ) Ao ministro Cabrita, pois, esperemos que tenha plena consciência de que muito tempo num lugar fazendo descaso do que é ser ministro nada leva avante, outro fará melhor? O lencinho da botica quem lá vai lá fica (…) Fica bem meu amigo, vamos acreditar, quero acreditar que tudo irá ficar bem desde que se acelere o que é por uma boa justiça ou causa. Abraço!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cecília. O futebol é um modo de chamar a atenção sobre outras coisas que estão a acontecer. Temos de cuidar muito da democracia e da liberdade. Não podemos calar. Um enorme abraço

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