Crónica de Alice Vieira | Reunião

Reunião
Por Alice Vieira

 

Passou há pouco tempo na RTP-2 uma série de 6 episódios chamada “Reunião”.

E logo duas coisas me vieram logo à cabeça.

Quando eu vivia em Paris, um estudante que estava no mesmo hotel que eu—e que muitas vezes, quando não tínhamos dinheiro para pagar ao fim de semana, partilhava comigo a arrumação de todos os outros quartos—tinha família longe. Às vezes dizia-me que ia fazer um telefonema para os pais e quando voltava e eu lhe perguntava por eles só respondiam “não consegui falar com eles, estavam em  reunião”. E esta era a resposta muitas e muitas vezes. Comecei a achar estranho, por que raio a família estava em tantas reuniões? Só muito mais tarde percebi que ele não tinha conseguido falar com eles porque eles tinham ido para a Ilha da Reunião. Ele riu que nem um maluco e eu achei-me muito burra.

Mas não é só por isso que eu me lembro da Ilha da Reunião. Aí pelos anos 80, a Caminho incluía sempre nos seus livros um postal pedindo aos leitores que respondessem dizendo que livro tinham lido e se tinham gostado. E depois enviavam esses postais aos autores dos livros referidos.

Um dia recebi um postal de uma senhora chamada Janine Loupy, que vivia na Ilha da Reunião, e dizia que tinha aprendido português para ler o meu livro “Rosa, Minha Irmã Rosa”, de que tinha gostado muito. Como diria o Bogart, foi o início de uma bela amizade. Eu escrevia-lhe, ela escrevia-me, eu mandava-lhe muitos cadernos daqueles que eu então fazia, com poemas, textos, desenhos,  fotografias—tudo de autores portugueses, e ela adorava. Às vezes mandava-lhe mesmo um pequeno livro de um desses autores de que ela tinha gostado.E os meus livros, claro.

Um dia o marido morreu, ela não tinha mais família, foi para um lar. Mas um lar a sério, só com quartos individuais, biblioteca, aulas de línguas, etc. E ela gostava de lá estar.

E continuámos a escrever-nos, pelo menos uma vez por semana.  Às vezes o meu marido também lhe mandava uma palavrinha e ela respondia-lhe. Um dia ele até me disse : “por que não vais lá vê-la? Ela havia de gostar!!” Também achei que era uma boa ideia, só que naquela altura estava cheia de trabalho no jornal e nem pensar em sair de cá. Mas fiquei de ver como estava a minha agenda dali a uns tempos.

Depois houve uma semana em que ela não me escreveu—e achei estranho (ainda não tinha telemóvel nem net…). Escrevi-lhe e, mais uma vez, nenhuma resposta.

Até que lá veio uma carta.

Da directora do lar.

A informar que Madame Loupy tinha morrido naturalmente, durante o sono, não tinha sofrido—e que eu era a única pessoa a quem elas podiam dar a notícia. Contavam-me da alegria dela quando recebia as   minhas cartas, os cadernos, os livros –que partilhava com todos lá do lar.E pedia-me, se eu não me importava que todos os livros e os cadernos que, ao longo dos anos eu lhe tinha mandado,  pudessem ficar lá na biblioteca, concluindo:”é que há muitas pessoas aqui a quem ela ensinou português e lêem esses livros e cadernos.”

Claro que disse que sim — e ainda lhes mandei mais algumas coisas.

E elas deram o meu nome à biblioteca do lar.

De uma terra onde nunca pus os pés.


Alice Vieira
Trabalhou no “Diário de Lisboa”, no“Diário Popular” e “Diário de Notícias”, na revista “Activa” e no “Jornal de Notícias”.
Atualmente colabora com a revista “Audácia”, e com o “Jornal de Mafra”.
Publica também poesia e é considerada uma das mais importantes escritoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.

Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Alice Vieira


   

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