Crónica de Jorge C Ferreira | Odemira

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Odemira
por Jorge C Ferreira

 

E de repente Odemira. Como se Odemira tivesse sido um acrescento repentino no mapa de Portugal. Como se toda a gente não soubesse o que acontece há anos naquele concelho. Um parque que se diz natural e protegido cercado e invadido por plástico. Estufas sob as quais crescem frutos especiais. Porque agora queremos tudo em qualquer altura.

A multidão que é necessária para a colheita. A produção intensiva. A quantidade de água que é gasta, água que, como todos sabemos, é um bem finito.

Vem gente de paragens exóticas. Chega dos mais variados modos. Na escola de S. Teotónio convivem, ou não, mais de vinte diferentes nacionalidades. Crianças a crescerem fora do seu lugar. Que possam crescer bem. Que sejam ajudadas na sua educação para terem uma vida diferente dos pais.

A habitação em Portugal é um problema. Naquele lugar torna-se impossível. As pessoas vivem amontoadas. Há autêntico contrabando de pessoas. Gente que vagueia de país em país Gente sem direitos e paga a preços de escravidão. Receber sem condições. Apenas o lucro. Porque nós vamos na conversa de querer experimentar e não aceitar que nos falte qualquer coisinha que está na moda. Tudo isto tem um custo que iremos pagar. Sim nós também somos culpados. Talvez a pandemia nos faça mudar certos hábitos. Talvez sim, talvez não.

Pelo menos fez soar todos os alarmes para uma situação que se prolonga há muitos anos.

Apareceram ministros em barda.  Um que é conhecido por falar sempre errado e sem nexo, outro que não está habituado a falar, outro que se irrita quando fala. É o que temos. Aparecem presidentes de coisas que eu desconhecia. Mas falta o trabalho de certas instituições, não sei se por falta de meios ou por, pura e simplesmente, ignorarem a situação. Quem manda em quem?

Custa-me passar pelo Alentejo e parecer ver pistas de ski ao longe, pensar que nevou ontem, ou ver algo que foi obra de canhões de neve artificial. Isto está espalhado por todo o lado. Por todo o sul mediterrâneo. Por aí erra esta gente e, alguns, numa autêntica rota da nova escravatura.

Afinal isto não é novo. Fomos donos de entrepostos de escravos. A escravidão passou-nos pelas mãos e deixou-as sujas.

Os ratinhos vinham das beiras a pé trabalhar na ceifa do Alentejo. O manajeiro contratava e controlava. Era um tempo de imensa pobreza. Lembro também os gaibéus que vinham, da Beira-Baixa para o Ribatejo, trabalhar nas mondas do arroz. Dos caramelos que vinham da zona de Coimbra para Palmela.

Fomos e somos um país de emigrantes. Fomos para França e vivemos nos Bidonville. Barracas sobre a lama. O frio e o mal-estar. Sobreviver para mandar algum para a terra. Os bancos à cata das poupanças. Estamos em todo o lado e somos bem aceites. Porque tratamos assim os que procuram junto de nós melhorar a sua vida?

Temos de dizer não aos que nos procuram virar contra esta gente. Aos que procuram dizer erradamente que eles nos roubam lugares de trabalho. Não é assim. Todos sabemos, mas muitos fingem ignorar para atingir pedaços de poder.

Vamos ser humanos. Vamos acreditar que o outro é nosso irmão. Vamos ser solidários. Vamos comer a fruta da época.

«Olha, tens razão no que dizes. Eu também passei por momentos difíceis.»

Fala de Isaurinda.

«Eu sei. Resististe, venceste. Temos de acabar com isto.»

Respondo.

«Não sei se assistiremos a isso, não sei não»

De novo Isaurinda e vai, uma lágrima a rolar pelo negro rosto.

Jorge C Ferreira Maio/2021(301)


Jorge C. Ferreira
Jorge C. Ferreira (n.1949, Lisboa), aprendeu a ler com o Diário de Notícias antes de ir para a escola. Fez o curso Comercial na velinha Veiga Beirão e ingressou na vida activa com apenas 15 anos. Estudou à noite. Foi bancário durante 36 anos. Tem frequentado oficinas de poesia e cursos de escrita criativa. Publica, desde 2014, uma crónica semanal no Jornal de Mafra. Como autor participou nas seguintes obras: Antologia Poética Luso-Francófona À Sombra do Silêncio/À L’Ombre du Silence, na Antologia Galaico-Portuguesa Poetas do Reencontro e A Norte do Futuro, homenagem poética a Paul Celan.  Em 2020 Editou o seu primeiro livro: A Volta À Vida Á Volta do Mundo; em 2021 Desaguo numa imensa sombra. Dois livros editados pela Poética Edições.

Pode ler (aqui) todas as crónicas de Jorge C Ferreira


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20 Thoughts to “Crónica de Jorge C Ferreira | Odemira”

  1. Filomena Maria de Assis Esperança Costa Geraldes

    De Odemira chega-nos um pranto.
    É a tua voz que o traz.
    Somos um povo de emigrantes. De fugidos em busca de outros lares. De outras formas de vida
    De pão para a boca.
    Mas também somos um povo de barcos negreiros.
    De gente vendida em troca de dinheiro sujo.
    Agora.
    Como não estás desatento. As tuas palavras abrem as cortinas de palcos onde assistimos a cenas de injustiça, exploração e escravidão. Levas-nos a Odemira.
    Todos ficamos desolados. Envergonhados.
    O único termo que me ocorre.
    Crónica real. Escrita, corajosamente, com um travo amargo a correntes. Da subserviência.
    Como só tu sabes!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Mena. Nunca podemos esquecer o que somos, o que fomos. Só assim compreenderemos os outros. Os que vêm de longe fazer o que nós não fazemos. Vamos ser solidários. Abraço imenso

  2. Cristina Ferreira

    Muito lúcida a tua crónica , querido Jorge.
    Obrigada
    Cristina

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cristina. Muito grato pelas tuas palavras. Abraço.

  3. António Feliciano de Oliveira Pereira

    Não, não é ficção; é mesmo uma realidade a exploração humana “cheia de boas intenções”,… ! Por todo o mundo o ser Homem despe a pele original e veste a de lobo amansado!
    Sempre o vil metal na origem destes desmandos!?
    Um abraço, Jorge!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado António. Sim, meu Amigo. Os agiotas os falsos empresários que querem o lucro rápido e a mão de obra barata. Gente sem princípios. Grande abraço

  4. Maria Luiza Caetano Caetano

    Que indignação eu sinto ! Como se permitem dizer que não sabiam e como é que se contratam pessoas, com um mísero ordenado e depois lhe tiram 125 euros, para habitarem num lugar impróprio, para qualquer ser humano viver. Isto é uma tristeza.
    Muito obrigada, pela sua excelente Crónica. Subscrevo cada palavra sua.
    Digo não à escravatura e “Fruta só a da época.”
    Abraço imenso, querido escritor.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Luiza. Sim, minha Amiga, vergonhoso. Temos que ser exigentes com os poderes e solidários com is mais fracos. Abraço imenso

  5. Eulália Pereira Coutinho

    A realidade cruel. Todos sabiam, mas só a pandemia pôs a nú.
    Dói ver as imagens. Homens, mulheres e crianças, que em busca dum mundo melhor, acabam explorados e escravizados. Tudo em nome do lucro. Pessoas esquecidas, em nome dos interesses económicos.
    Em pleno século XXI. Que mundo este, meu amigo.
    Não podemos calar esta realidade. Veio-me à memória o poema de José Carlos Ary dos Santos, imortalizado por Fernando Tordo.
    ” Não importa sol ao sombra….
    inguém nos leva ao engano”.
    Obrigada, meu amigo, por estar sempre alerta e estar sempre desse lado.
    Um grande abraço.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Eulália. Tanta coisa para mudar. Tanta luta para travar. Tudo isto nos envergonha. Estamos fartos destes exploradores. Abraço imenso

  6. Cecília Vicente

    Cada vez mais o mundo num desenfreado descalabro, vemos e fechamos os olhos, uns mais que outros nos seus confortos que escolhem para se sentirem bem … O sol e a lua, o gato e o rato, de repente ai “Meu Deus” e tudo descamba, um apontar de dedo, os de cima mandam, os demais circundam o circo, vozes se levantam, exigem, mandam… um desgoverno entre o poder e a oposição, os mais frágeis deambulam sem saberem bem para onde se devem reajustar. Todos sabem, todos sabiam, nós sabíamos, cúmplices numa cegueira que víamos de longe. E agora? Nada, tudo irá continuar, para isso bastará a poeira assentar. A economia treme mas ganha, muitos mais farão os que da “terra” acham trabalho de escravo… Abraço meu amigo!

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Cecília. Tanta retórica. Tanto discurso de fala barato. Entretanto os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. Temos de resistir e dar a volta a isto. Abraço forte

  7. Isabel Soares

    Uma crónica sobre a triste actualidade e realidade no “debate “português “. A triste vida diária de,homens e mulheres, emigrantes explorados, discriminados e em condições quotidianas deploráveis. Um texto doído,muito bem escrito,que levanta questões pertinentes e narra a dura condição humana (ou a sua falta) daquelas pessoas. Tratadas como lixo. Escravizadas. Não podemos ficar indiferentes a esta deplorável situação. Vamos exigir mudança. Como? Antes de mais ao governo,às instituições, aos patrões, aos poderes locais. A cada um de nós. Eu desconhecia estas vivências, por ignorância ou alheamento. Não deixemos esquecer esta realidade. Vamos pressionar até à sua resolução. Cada um como puder,mas não deixemos que tudo fique na mesma. É necessário alterar profundamente esta realidade. Construir condições condignas de vida. Condições humanas. E responsabilidade a quem permite que isto aconteça. Inacreditável o que se passou. O que se passa. Não fechemos os ohos,não calemos a boca,nem no presente nem no futuro. Devemos exigir saber o que vai ser feito.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Isabel. Vamos sim minha Amiga. Não nos podemos calar. Se calarmos seremos cúmplices. Temos de ser pessoas de bem. Temos de nos sentir felizes ao fazer os outros pessoas dignas. Abraço grande

  8. Maria Fernanda Morais Maria Fernanda da Cunha Morais

    Choramos com eles.Sabemos como vivem.Pinto a minha cara de luto quando ouvi o ministro que viu as condições miseráveis em que muitos vivem dizer para todos nós em frente às câmaras de uma televisão que aquela não era uma prioridade do governo. Palhaço! Como se atreve?
    A pactuar com quem lhes deu aquelas condições para trabalhar no nosso País?
    Governo socialista de merda!
    Desculpa, amigo.
    Boa noite.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Maria Fernanda. As nossas lágrinas são o combustível par mudarmos a situação. Temos de juntar esforços e vontades. Um abraço imenso.

  9. Ivone Teles

    ” Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar “. É muito triste sabermos que, em Portugal, se pratica escravatura. Como dizes, e muito bem, o poder do capital continua enorme. A zona de Odemira, como outras no País, enchem-se de estufas e outras formas de produção de bens alimentares ” fora de época “. Para obterem maiores lucros recebem imigrantes que acumulam em locais sem as mínimas condições de habitabilidade a quem pagam(?) salários de miséria. Desgraçadas pessoas que fogem dos riscos que corriam das terras onde mal viviam para, enganados, serem escravos num SUPOSTO país de acolhimento. Uma VERGONHA. Mas os responsáveis ” lavam as mãos como Pilates”. Tão triste. Subscrevo o teu texto, meu amigo/irmão. Choro com a Isaurinda e luto e lutarei contra a escravatura.

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Ivone, minha Amiga/Irmã. Tu sabes como custa a vida e como custa lutar para a mudar. Temos de libertar esta gente das garras mafiosas que as prendem. Mais um esforço. Abraço gigante.

  10. Idalina Pereira

    Há uns bons anos que conheço a realidade destes imigrantes.
    Para além do trabalho duro durante muitas horas, ainda têm de frequentar aulas pós- laboral de Português (PLA- Português Língua Acolhimento) condição para obter o título de residência.
    Não é fácil a vida destas gentes…

    1. Jorge C Ferreira

      Obrigado Idalina. O seu testemunho é importante. Gente que faz um esforço para se integrar. Temos de os libertar. Abraço grande

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