ENTREVISTA | Vencedores do concurso apresentam o projeto de instalação do Museu da Música no Palácio de Mafra

O consórcio constituído pelo atelier Site Specific Arquitetura, Lda. + P06 Atelier, Ambiente e Comunicação Lda venceu o concurso para a Instalação do Museu Nacional da Música no Palácio Nacional de Mafra, tendo o júri considerado que este projeto “apresenta grande qualidade estética, simplicidade, funcionalidade, sentido de intemporalidade e intrusão mínima, com particular relevância na flexibilidade de opções funcionais nas áreas não expositivas (…), oferecendo garantias de melhor articulação entre o Museu Nacional da Música e o Palácio Nacional de Mafra”.

Os nossos entrevistados são os arquitetos responsáveis pelo projeto de instalação do Museu da Música no Palácio Nacional de Mafra.

 

Jornal de Mafra (JM)Querem dar-nos a conhecer o Site Specific Arquitetura e os seus mentores?
Patrícia Marques (PM) – É uma história comum a muitos ateliers de arquitetura. Nós trabalhávamos em ateliers distintos, onde trabalhámos durante cerca de 10 anos, mas chegámos a uma altura em que começámos a ambicionar fazer outras coisas. Eu saí primeiro e fundei a Site Specific em 2011 e o Paulo saiu um ou dois anos depois. Somos um atelier que procura os seus trabalhos, fazemos muitos concursos públicos e temos um historial comum, sem nada de particular.

JM – Entretanto expandiram-se, mesmo internacionalmente.
PM
Não há propriamente uma expansão internacional.
Paulo Costa (PC) –
Digamos que temos vindo numa escala de crescimento sustentado, sempre com bastantes parcerias com outros colegas, até de outras áreas, como é o caso da P06 neste projeto da instalação do Museu da Música no Palácio de Mafra.

Estas parcerias têm-nos permitido ir por caminhos que não são muito evidentes para os arquitetos, como é o caso dos estúdios de Abu Dhabi, que foi uma experiência fantástica, uma experiência diferente desta rotina diária da arquitetura. Sempre gostámos de desafios, de entrar em locais onde não estamos confortáveis, de projetos desafiantes, como é o caso desta relação que temos agora com o Palácio de Mafra, até pelo facto de não sermos propriamente um atelier especialista em recuperação de património ou em restauro.

JM Há uma filosofia subjacente ao trabalho do atelier?
PM –
O nosso trabalho adapta-se àquilo que estamos a fazer. Saber o mais possível acerca do sítio, se há um sítio. Nste caso há uma preexistência, que é o Palácio de Mafra. Portanto, quatro meses depois estamos muito mais informados do que estávamos quando fizemos o concurso, embora nessa ocasião já tenhamos feito uma extensa pesquisa.

Não há propriamente uma filosofia, o trabalho é sempre adaptado, mas sempre com este princípio, saber o mais possível acerca daquele trabalho concreto.

PC – Este é um caminho que se faz caminhando, é uma prova de resistência, nós não temos 50 trabalhos nestes 10 anos, o tempo da arquitetura é uma coisa que anda nos 3, 4, 5 anos e provavelmente, ao fim de 20 anos, poderemos olhar para trás, e dizer, de facto há aqui alguma coisa com que nos identificamos.

Nestes anos em que trabalhámos, a Patrícia com o arquiteto Manuel Mateus e eu com o arquiteto Carrilho da Graça, trabalhámos em ateliers que já são escolas diversas no panorama nacional e até internacional, e o nosso trabalho funciona um pouco à volta desses dois universos.

JMComo é que surgiu a ideia de ir a este concurso?
PC –
Nós já temos essa experiência, até como a Patrícia já disse, de ir a concursos. De resto, é algo que também vem já das escolas pelas quais passámos. 

O concurso é provavelmente o trabalho em que temos mais liberdade enquanto arquitetos, pois, embora exista um caderno de encargos, na realidade, trabalhamos por nós mesmos, ou seja, não temos contactos com o cliente e detemos a liberdade de provocar e de explorar formas diferentes de fazer o projeto.

Neste caso em particular, e da experiência que temos, nomeadamente, com a P06 com quem já trabalhámos em vários museus, gostamos de trabalhar a quatro mãos, no sentido de dominarmos a escala. Por exemplo, no caso de um hotel, o arquiteto faz o edifício, depois vem alguém que faz a decoração ou que faz os interiores, mas nesta equipa, nós gostamos de trabalhar assim em equipa com a P06, porque deste modo, em parceria, dominamos todo o processo até à inauguração. O Nuno Gusmão [P06] tanto está na fase inicial, em que desenhamos as linhas mestras como, depois, nós estamos nos interiores, e este é um processo muito interessante.

Este concurso permitiu-nos concretizar um desejo muito grande, que era o de trabalhar num edifício daqueles, e pela experiência que já tínhamos em museus, o projeto era super apetecível e constituia para nós uma mais-valia. Este foi um concurso que demorou muito tempo, uns sete ou oito meses numa primeira fase, por questões processuais, e depois apanhou a pandemia, teve duas ou três fases de entregas diferentes e nós trabalhámos muito em todas estas fases, estávamos com muita vontade de conseguir chegar a este projeto.

JMHá um conceito a enformar este projeto? Que objetivos concretos estão a ele subjacentes?
PM –
Há duas coisas que orientam todas as decisões que vamos tomando. Desde logo, a recuperação do palácio no seu esplendor, dando ao espaço alguma dignidade, visto que o museu irá ocupar áreas do palácio que estavam desativadas, muitas delas, abandonadas, de onde os militares já saíram há bastantes anos, e outras às quais tinham sido dadas utilizações distintas, como é o caso da cisterna.

Por outro lado, temos a implementação do Museu da Música, uma entidade autónoma do palácio, com a sua identidade e a sua autonomia, com uma coleção valiosa e relevante do ponto de vista histórico e patrimonial, obrigando-nos a conjugar a preservação do espaço do palácio, o invólucro que passa a conter o museu, um espaço também com a sua identidade e com requisitos que lhe são próprios.

São estas duas realidades que nos guiam ao longo deste processo, nenhuma delas mais importante do que a outra, obrigando-nos a encontrar o ponto de equilíbrio e referimos isso no concurso, é importante perceber que as pessoas que irão visitar o Museu da Música terão a possibilidade de fruir um museu dentro de outro museu.

PC – Essas duas entidades têm de conviver bem e de se valorizar uma à outra.

PM – Nesta primeira fase do trabalho, quanto mais conhecemos e quanto mais nos envolvemos, mais certezas temos, de que este é o caminho a seguir.

PC – Também temos a consciência clara, que esta operação permitirá fazer o restauro daquela área do palácio.

JM – Em que estado é que encontraram a área do palácio que será alvo da intervenção?
PM –
Estranhamente, não está muito degradado, e isso só acontece porque o edifício foi muito bem feito e muito bem construído. A base, a génese do edifício é muito, muito boa. Os militares já saíram desta ala nos anos 80, depois de uma utilização muito, muito intensa, nomeadamente durante a fase da guerra colonial, com muitas alterações, algumas dasquais foram, entretanto, demolidas.

Estes espaços estão, obviamente, em mau estado, mas não estão a cair, o edifício mantém a sua solidez, não há problemas estruturais.

PC – Já estivemos envolvidos com edifícios antigos, nos quais se tem de fazer um descasque até ao osso, não é o caso do palácio, está tudo novo, está tudo ótimo, não vamos picar paredes, nem há reforços estruturais que tenham de ser feitos. Os danos passam muitas vezes por janelas partidas, que permitem a entrada da chuva e isso acaba por se refletir no piso de baixo.

Não sabemos se os pavimentos que vemos no palácio serão os originais, e alguns deles foram estragados, temos cento e tal janelas, janelas gigantes, que representam um custo significativo de reparação, mas se não se reparar, os custos acabam por ser maiores a longo prazo. Parece que nunca há dinheiro para chegar ali, é tudo demasiado grande e isto devia merecer uma grande reflexão.  Mas tudo o resto está em ótimo estado ou num estado perfeitamente razoável para ser recuperado.

O Palácio de Mafra é um edificio com varandas, com terraços, com espaço exterior, com claustros, e a parte do convento, que é a zona militar, tem salas de uma dignidade extraordinária, mas que ninguem conhece. Na verdade vamos para fora e vemos coisas incríveis, mas na realidade, não há muitos destes. Este edifício, no seu todo, tem muita capacidade de atração, e isso requer uma reflexão aprofundada.

PM – Devemos ter em conta, que este palácio nunca foi ocupado em permanência, o tempo de residência dos reis foi quase sempre muito curto e o palácio, com a saída da família real para o Brasil, ficou um pouco ao abandono, algo que não aconteceu, por exemplo, com Versailles. Por razões económicas, não tem sido possível manter a conservação do palácio como seria necessário, mas vai-se caminhando.

PC – O edifício tem uma história riquissíma, que constitui uma grande fonte de atração. A própria construção do edificio daria, por si só, para fazer um museu. De resto, este edifício pode ter muitos museus, as próprias escolas podem ter uma relação permanente com ele em diversas valências, como a música, a construção, o conhecimento dos reis,  o edifício merece que se faça sobre ele uma grande reflexão.

JM – Querem descrever-nos o projeto com detalhe? Os visitantes podem esperar o quê, dos espaços que constituirão o futuro Museu da Música?
PC –
A entrada será comum ao Palácio e junto do claustro haverá um espaço de receção partilhado, com uma cafetaria, uma loja e um espaço polivalente, sendo este o ponto de partida e de chegada dos visitantes. O acesso ao museu faz-se através da escada do Campo Santo, sendo esta uma alteração recente ao projeto, a qual não fazia parte do concurso.

JM – Como é que será o acesso a visitantes com mobilidade reduzida?
PC –
O acesso desses visitantes será feito através do elevador que está a ser montado, e que também não fazia parte da proposta, elevador que se localizano saguão onde existia o elevador da raínha D. Amélia. O elevador ligará o piso -1 com o piso nobre, com ligação também ao piso 1, que albergará a exposição. Através do claustro acede-se à escada e ao elevador. A cafetaria dará vida ao claustro, permitindo a sua utilização enquanto espaço de contemplação.

O Museu da Música irá ocupar a área a azul

O piso de baixo, na zona da cisterna, é um piso reservado, não estando aberto a visitas, servirá de área de serviço, albergando também as reservas do museu. Já foram removidas algumas paredes deste espaço, mas terão de fazer-se ainda algumas sondagens, sendo estas que irão instruir a forma como iremos lidar com ele.

Este piso disporá de algumas câmaras de tempratura e humidade controladas, dispondo ainda de uma área de reparação e restauro de instrumentos. Neste piso haverá também espaços destinados a servir como espaços técnicos, que serãopartilhados com o palácio.

Ao nível do piso nobre, o piso do museu, a chegada dos visitantes faz-se junto da capela, funcionando o elevador como um eixo de transição entre o palácio e o museu.

A antiga Sala da Mesa de Estado, onde o rei fazia os despachos e onde o governo tinha sede, sempre que o soberano estava em Mafra, funcionará como espaço de receção do público do museu e do palácio. Esta sala permitirá também a realização de concertos, de conferências ou o acolhimento de instalações de arte sonora, por exemplo. Aqui manteremos o mesmo principio de restauro que o palácio tem, por exemlo, as tijoleiras serão mantidas.

Será a partir daqui que nascerá a nova identidade do Museu Nacional da Música, com um novo pavimento e com as vitrines.

JM O pavimento está degradado e será substituído?
PC –
Precisamente. Será um pavimento em madeira, até porque, no palácio já há espaços com pavimento em madeira, como é o caso da enfermaria. A madeira funcionará aqui como um elemento de distinção.

A exposição dos instrumentos é também uma proposta nossa, enbora tenha também sido aferida pela Dra. Graça, Diretora do Museu. Teremos uma parte inicial relacionada com a música em Portugal, a partir do atual espólio do Museu Nacional da Música, que será constituida pelos instrumentos mais significativos e por iconografia e pintura.

Haverá depois uma segunda sala, que poderá até vir a ser um conjunto de duas salas, que tem a ver com uma ideia nossa relacionada com o conceito de edifício-instrumento, relacionando-se com a música em Mafra, tendo por referência o palácio, os seus órgãos, os carrilhões e as suas peças, embora não venhamos a ter aqui as peças dos carrilhões, até porque há um espólio consideravel, capaz até de dar um outro museu.

Podemos explicar aqui como funciona o carrilhão, mas remetendo depois para uma outra área do palácio onde se poderá ver as peças, sendo também possível fazer, a partir daqui, a relação com a biblioteca, que tem um espólio incrível em termos de partituras.

Segue-se uma sala que esbelece a relação entre as duas alas, o corpo poente e o corpo nascente, sala que funcionará como um espaço interativo e imersivo, levando o visitante a contactar e a fruir a diversidade da música.

O visitante entrará depois no antigo espaço designado como a Sala dos Armários, onde se encontram as vitrinas que alojarão os instrumentos históricos divididos por tipologias. Esta será a parte mais tradicional da exposição. O recurso a vitrinas justifica-se com a necessidade de manter o controlo da tempratura e da humidade.

Haverá ainda salas onde os visitantes, à imagem dos museus de ciência, poderão ter um contacto direto e interativo com os instrumentos, pernitindo-lhes fazer experiências e conhecer a física que lhes está subjacente.

No Palacete dos Infantes será instalado um espaço de fonoteca e de biblioteca, que terá consulta exterior. Haverá também um grupo de salas de reunião.

Chegados ao fim, temos a sala principal, que é a antecâmara norte da biblioteca, onde ficarão as peças mais especiais, os tesouros do museu, que esperamos conseguir que venham a ser tocados naquele espaço, aproveitando a relação única que a sala tem com a biblioteca, fazendo aqui pequenos concertos para 20 ou 30 pessoas, num espaço, que no passado já desempenhou essa função.

JM – Quais são os principais problemas com que se depararam?
PC –
Os principais problemas passam pelas instalações sanitárias, pelo menos para o pessoal de serviço, e pela instalação elétrica.

PM – As infraestruturas são um problema, é aquilo que nós estamos a tentar savaguardar, mas durante o processo da obra podem aparecer situações que agora não conseguimos antecipar e que podem vir a criar dificuldades. As redes são o grande desafio.

As vitrinas precisam de condições especiais de temperatura e humidade e isso obriga a um controlo mecânico exterior ao edifício, obrigando a distribuição de cabos elétricos e de condutas de água, que não poderão alterar o aspeto original do edifício, sendo necessário assegurar isso de uma forma dissimulada.

PC – No projeto, ao considerarmos o pavimento em madeira, já anteviamos a possibilidade de podermos transportar o máximo possível de instalações por via horizontal. O grande desafio são os verticais, não se faz um buraco aqui, não se faz um roço maquelas abóbadas, não é suposto isso acontecer. No entanto, podemos dizer que o próprio edifício nos forneceu as soluções para resolver este problema.

PM – Por exemplo, o Museu da Música gostaria de dispor de uma zona de vestiário, onde as pessoas que vão tocar pudessem tomar um duche, mas ainda não conseguimos resolver essa situação.

JM – Prevê que os prazos de entrega da obra sejam cumpridos?
PC –
Vamos fazer tudo para que os prazos sejam cumpridos. Houve aqui uma fase inicial que levou um pouco mais de tempo e que tinha a ver com o programa, ultrapassado isso… mas em processos destes, semana a semana vamos tendo novidades.

Pelo que temos até agora, tudo indica que os prazos possam ser cumpridos, mas também sei que os últimos meses também já estão fora do prazo. Por outro lado, o tipo de edifício em presença, não nos permite andar para a frente, sem ter tudo muito bem decidido. Este é um terreno demasiado importante, para não esperar 15 dias ou 3 semanas por uma melhor decisão.

Sei que da parte do dono da obra existe vontade, mas também algumas condicionantes, porque há a consciencia de que este território é sensível e tudo precisa de ser feito com consciência e de uma forma consistente.

A nossa intervenção tem 3 pisos, mas o piso nobre é tipo, o 8º piso de um edifício normal… há aqui complexidades que na fase de obra requerem atenção e que na minha perspetiva devem ser tomadas em consideração, até porque num edifício desta natureza, não podemos pressionar os empreiteiros a fazer as coisas à tripa-forra.


Patrícia Marques
Lisboa 1975

Licenciada em arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa [1999] e Mestre em Estudos Curatoriais [a arquitectura em exposição] pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa [2009]. Ainda como estudante, foi bolseira Erasmus na École Nationale Supérieure d’Architecture de Paris La Villette [1998] e venceu o prémio Arquitectura Jov’Arte 97 da Câmara Municipal de Loures. Iniciou a actividade profissional em 1999, no atelier holandês De Zwarte Hond, em Roterdão e em 2000 inicia a colaboração no atelier Aires Mateus e Associados, em Lisboa, que deixa em 2009, para trabalhar em regime independente em diversas colaborações, com arquitectos, engenheiros, paisagistas, designers e artistas plásticos. Em 2010 funda o atelier site specific – arquitectura, lda onde mantém o mesmo princípio de colaborações interdisciplinares e onde tem desenvolvido projectos em diferentes áreas de trabalho.
Em 2012 e 2013 colabora com a Trienal de Arquitectura de Lisboa como coordenadora do programa Lisboa Open House. Em 2015 vence o Prémio FAD Interiores

Paulo Costa
Lisboa 1973

1993/4 Curso de Desenho de Arquitectura I e II no AR.CO Centro de Arte e Comunicação Visual
1993/1998 Licenciado pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa
1999 Estágio académico no atelier Kees Christiansen Architects and Planners em Roterdão, Holanda
1999/2000 Colaboração no atelier OMA – Office for Metropolitan Architecture em Roterdão, Holanda
2000 Colaboração com Inês Lobo / Pedro Domingos + Ricardo Bak Gordon / Carlos Vilela, Lisboa, em concurso para a Universidade de Évora.
2000/2012 Colaboração no atelier de João Luís Carrilho da Graça, Lisboa, como coordenador de projecto.
2012/- Doutoramento em Arquitectura, Interior – Novos Territórios, da Universidade de Évora.
2012 Associado do atelier site specific – arquitectura, lda
2015 Vencedor do Prémio FAD Interiores

   

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