Crónica de Alice Vieira | Ser ou não ser

Ser ou não ser
Por Alice Vieira

 

Está a passar na RTP-2 ( 2ª feira, às 23.40), uma série de oito episódios chamada “Arde Madrid”. Dizem-me que há anos já tinha passado e que estão a repeti-la.  Não importa: há-de haver muita gente como eu, que nunca a viu, e os que já viram decerto vão querer vê-la outra vez.

Não percam. É a vida da actriz Ava Gardner, nos anos em que viveu em Madrid, vista através dos olhos dos criados. Em plena ditadura franquista, com perseguições a todos os dias e a todas as horas, há criados informadores da polícia, outros que denunciam toda a gente por meia dúzia de patacos, outros que bailam conforme o vento.  Ainda por cima Ava Gardner vive quase ao lado do General Péron, o que também não ajuda.

Ava Gardner começou muito cedo a sua carreira. Uma vez, sem qualquer tipo de preparação, decidiu apresentar-se nos estúdios dirigidos por Luis B.Mayer (que mais tarde seriam os estúdios da Metro Goldwin Mayer )  Segundo a tradição, depois de a ver e ouvir, o Sr. Mayer terá dito: “não sabe andar, não sabe cantar, não sabe actuar, não sabe falar : é fantástica!”

Possivelmente os mais jovens  já não saberão quem ela era, mas os mais entradotes nunca a esqueceram. Quem não se lembra, por exemplo de “As Neves do Kilimanjaro”, “Mogambo”, ”55 Dias em Pequim”, “A Noite da Iguana” ? E dos seus muitos casamentos, que nunca duravam mais que um ano—com excepção do último, com Frank Sinatra, em que lá se conseguiram aturar um ao outro durante seis anos, ou seja, uma eternidade.

Mas tudo isto vem a propósito de outra coisa muito diferente.

O meu querido amigo e grande jornalista Batista Bastos (de quem tenho muitas saudades) uma vez contou-me uma história muito engraçada. Ele tinha começado a trabalhar muito cedo, primeiro em tipografias, depois lá foi escrevendo umas coisas nuns jornais e revistas, até que, finalmente, em 1965,  entrou a sério para o “Diário Popular”. E quando o começaram a mandar fazer serviços (entrevistas, reportagens ) ao estrangeiro, foi uma alegria. E começou a ser aquilo que ele foi sempre até ao fim da sua vida: um jornalista com um J muito, muito grande.

Então estava ele um dia num aeroporto internacional—não me lembro em que país—e olhou para uma mulher, já não muito nova, sozinha, sentada num banco. Olhou uma vez, olhou duas, olhou ainda mais uma vez –  e não teve qualquer dúvida.

Levantou-se, foi ter com ela e perguntou, ainda meio acanhado:

“Desculpe…mas a senhora não é a Ava Gardner?”

E ela olhou para ele, sorriu, e só disse:

“ Fui. Fui a Ava Gardner”.

Quando oiço falar de Ava Gardner, é logo disto que eu me lembro.

(Ah, e não se esqueçam de ver “Arde Madrid”)


Alice Vieira
Trabalhou no “Diário de Lisboa”, no“Diário Popular” e “Diário de Notícias”, na revista “Activa” e no “Jornal de Notícias”.
Atualmente colabora com a revista “Audácia”, e com o “Jornal de Mafra”.
Publica também poesia e é considerada uma das mais importantes escritoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.

Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Alice Vieira


   

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