Crónica de Alexandre Honrado – Ainda à procura da memória

Ainda à procura da memória
Por Alexandre Honrado

 

Ora cá está outro texto que não foi feito para ser lido até ao fim. Se fala de gatinhos, esqueci-me ou serão provavelmente desses gatinhos esquecidos que não encontram o caminho para o pires de leite ou, abandonados, para a lixeira que os socorra. Então cá vai.

Tentamos esquecer o que nos desagrada, o que para trás ficou e que não passou de erro. O fascismo, o nazismo, o estalinismo, o salazarismo, cavaquismo, os anos da troika, o retorno da extrema-direita bacoca, a desobediência civil servida como prato requentado de outros exemplos mais genuínos. Procuramos mesmo alindar a história, esquecendo-a ou formatando-a com pequenos pedaços de nada que lhe ofereçam uma capa – uma amnésia – para poder seguir em frente. Esquecer. É a melhor forma de recordar. Assim suportamos o desencantamento do mundo – expressão tão querida a Max Weber -, assim nos libertamos dele, porém, inevitavelmente, desencantamo-nos do outro e esse desencanto (o humano trai-nos, o humano é para esquecer) exige-nos um novo tempo: o do esquecimento. Até nos olharmos no espelho e desconhecermos aquele estranho que nos olha.

A mnemónica grega – forma musculada de reter conhecimento, de aprender – torna-se com singelas variantes a memoria latina.

Da memória e reminiscência (em latim, De memoria et reminiscentia, em grego Περι Μνημης και Αναμνησεος) é um dos tratados que compõem a Parva Naturalia de Aristóteles. A memória aliás é da maior importância no corpus aristotélico, isto é, no pensamento registado do filósofo grego que nasceu e morreu em Estagira, Macedónia. Isto para dizer que a nossa cultura, embora hoje não pareça, radica nestas coisas: povos de memória. De reminiscências.

Estes conceitos – memória e reminiscência – são bem diferenciados na obra Aristotélica: “a memória não é apenas uma capacidade para recordar, mas tem a ver também com o intelecto que o ser humano possui, no momento em que pode julgar após uma sensação específica”. A questão da reminiscência é muito mais complexa. O juízo da pessoa é formulado não apenas com uma sensação, mas com um conjunto delas. “A reminiscência tem a ver com um leque de vivências que fazem com que a pessoa se lembre de várias coisas como se fossem elos de uma corrente”.

Em português, pode-se utilizar metaforicamente a diferença entre lembrar e decorar, como, analogamente, da diferença entre reminiscência e de memória.

À margem e lendo Cícero, Marco Túlio Cícero, advogado, político, escritor, orador e filósofo da gens Túlia da República Romana eleito cônsul em 63 a.C. , e fazendo-o a partir do texto Como ganhar eleições, verificamos “a importância da memória na sua primeira e evidente função utilitária: os oradores da antiguidade tinham de pronunciar com frequência longos discursos sem o auxílio de notas escritas. Davam, portanto, grande atenção à memorização”. Mesmo assim, Cícero é um dos autores latinos que via a memória apenas como uma aptidão natural e não como uma técnica.

Outros autores, como Quintiliano, consideravam-na também uma técnica capaz de  ser aprendida. Quintiliano sugeria que “para memorizar um discurso devia-se recorrer à mnemotecnia, isto é, ao decompor o discurso em partes, que são individual e progressivamente aprendidas de cor e às quais são associados sinais mentais que facilitem a sua recordação na altura certa”. A memória depende, segundo Quintiliano, também do estado físico do orador (é necessário ter dormido bem e estar de boa saúde) e da estrutura do discurso (isto é, da sua maior ou menor coerência). Também foi o que se pretendeu nesta pequena reflexão. Dormir bem e estar de boa saúde. Não há melhor por estes dias.

Alexandre Honrado
Escritor, jornalista, guionista, dramaturgo, professor e investigador universitário, dedicando-se sobretudo ao Estudo da Ciência das Religiões e aos Estudos Culturais. Criou na segunda década do século XXI, com um grupo de sete cidadãos preocupados com a defesa dos valores humanistas, o Observatório para a Liberdade Religiosa. É assessor de direção do Observatório Internacional dos Direitos Humanos. Dirige o Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos Humanistas para a Paz, integrado na área de Ciência das Religiões da ULHT Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. É investigador do CLEPUL – Centro de Estudos Lusófonos e Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do Gabinete MCCLA Mulheres, Cultura, Ciência, Letras e Artes da CIDH – Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos da Globalização.

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