Crónica de Alice Vieira | Chalés na serra

Chalés na serra
Por Alice Vieira

 

Eu sei que a Serra da Estrela não fica bem, bem aqui ao lado, mas acho que é um assunto que interessa a todos.

Imaginem que, nestes tempos de crise em que todos se queixam—e com razão– de que o comércio vai mal, o Algarve não tem ninguém, etc, etc—leio no “Expresso” que este verão para a Serra da Estrela foi muito bom, com taxas de ocupação elevadas e que, segundo os hoteleiros afirmam, ” o inverno, se a neve ajudar, também o será.”

Sendo assim, anunciaram já que vão fazer um investimento de 8,2 milhões de euros por diversos lugares, entre eles as Penhas da Saúde e o Sabugueiro. Neste último preparam-se para construir 280 chalés. “Nunca faturámos tanto como agora, há mercado, e as pessoas estão a redescobrir a Serra da Estrela”, afirmam.

Passei muitos anos da minha vida nas Penhas da Saúde e no Sabugueiro.

Era muito criança quando comecei a ir para as Penhas da Saúde. Os médicos tinham impingido às velhas tias que me criavam a ideia de que eu tinha o coração fraco e era preciso apanhar bons ares. (Até hoje nunca sofri do coração, mas adiante)

Então lá marchávamos todos para uma casinha pré-fabricada, no meio de um conjunto de seis, onde permanecíamos pelo menos três meses. Lembro-me que ninguém tinha telefone. Quem nos queria contactar tinha de ligar para o Turismo (nome pomposo para outro pré-fabricado  no meio das casas) e dizer o nosso nome. Então o Jerónimo (nunca me esqueci do nome dele…) vinha cá fora com uma gaita e tocava várias vezes. Para cada casa, um número diferente de toques. Lembro-me de que para a nossa eram cinco toques. Cada vez que se ouvia a gaita, parávamos logo  para contar, porque podia ser para nós. Ao fim da tarde ouvíamos os chocalhos das cabras que subiam por aqueles penhascos. ”Lá vêm as meninas da Covilhã”, dizia a tia Cremilde, nunca percebi porquê. Era o ritual de antes do jantar. Depois sentava-se, abria o jornal e , enquanto a tia Aurora preparava o jantar, lia para todos, com   voz bem colocada como se fosse recitar uma poesia: “a Guerra da Coreia…”  Já estão a ver em que tempo pré-histórico isto se passava…

Claro que não espero que as Penhas da Saúde continuem hoje assim. Mal estaríamos. Mas não sei o que vão fazer agora     naquele espaço tão pequeno.

O Sabugueiro entrou na minha vida muitos anos depois, já eu tinha filhos, mas ainda pequenos. No Sabugueiro não havia nada. Nem uma pensão, nada. Mas havia a loja do Sr. Martinho—daquelas lojas que se encontram nas serras, que vendem capotes, botas, chouriço, etc. O Sr. Martinho engraçou com os meus miúdos e, como por cima da loja havia um andar , deixava-nos lá ficar. Foram anos assim. Íamos de manhã para a lagoa do Rocim, ali a meia dúzia de passos—e aquilo era o paraíso.

Aí é onde vão ser construídos os tais 280 chalés… Onde ? O lugar é tão pequeno…   Aí, confesso, tenho um certo receio…. Mas se for para bem das pessoas—venham eles…

E vem-me à ideia uma cantiga que a tia Cremilde cantava quando lhe diziam que ia haver um melhoramento qualquer:

“Ó Teresa

Canta a Portuguesa

Que isto com certeza

É para bem do povo”

Não havia nenhuma Teresa na família, mas ninguém se importava.

Alice Vieira
Trabalhou no “Diário de Lisboa”, no“Diário Popular” e “Diário de Notícias”, na revista “Activa” e no “Jornal de Notícias”.
Actualmente colabora com a revista “Audácia”, e com o “Jornal de Mafra”.
Publica também poesia e é considerada uma das mais importantes escritoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.

Pode ler (aqui) as restantes crónicas de Alice Vieira


   

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