Crónica de Licínia Quitério | De ontem e de hoje – O Carlos

Licínia Quitério

De ontem e de hoje – O Carlos
por Licínia Quitério

 

Aparece aos Sábados, o dia da folga, presumo, de trabalho precário, de salário pequenino. Isto a avaliar pela qualidade da vestimenta, dos sapatos, pelo saco dos pertences. Tudo nela é sinal de escassez de meios, de solidão de fim de semana.

Do saco vão saindo outros sacos, um deles com pedaços de pão que ela vai mordiscando. Do outro, espreitam fios de lãs de várias cores com que compõe, em gestos hábeis, flores de crochet. Imagino que daqui a muitas flores aparecerá uma manta a cobrir as zonas puídas do sofá gasto de corpos que uma patroa lhe deu.

Não se demora na renda, foi só o tempo de acalmar a excitação do telefonema infinito que fez com o Carlos, penso que é sempre para o Carlos que faz telefonemas infinitos, em discurso contínuo, apressado, a voz, de vez em quando, em falsete, a marcar alguma indignação, alguma decepção. “Ele” é o objecto do discurso, “ele é assim, ele é assado, ele disse, ele não disse”, e o Carlos só pode estar mudo, que ela não lhe deixa espaço para intervir. Será um Carlos que ouve o que ela tem urgência em dizer sem perder o fôlego, os olhos a var- rerem a sala, a meia altura, sem se fixarem em nada, em ninguém. Na mesa, um copo de água que vai beberricando, a amaciar as sílabas, a torrente de sílabas. Diz muitas vezes “não posso”, “não posso”, “estás a ver”, “estás a ver”, “certo”, “certo”, tudo com a mesma entoação, ou melhor, sem entoação alguma.

A dada altura, faz uma pausa, o Carlos deve ter dado sinal de presença, ela faz um arremedo de sorriso, e eu oiço, “pois, o festival, é isso, que bom, Portugal ganhou, chau Carlos”. Mais não disse. Desligou,  arrumou a lã, a agulha, fechou o saco com os pedaços de pão, bebeu um último golo de água, foi pôr o copo no balcão.

Disse “até logo”, saiu em passo apressado, no mesmo ritmo com que faz correr as palavras que o Carlos ouve, ou não ouve.

Ninguém atura aquela mulher dos Sábados. Só o Carlos.

Licínia Quitério
Licínia Correia Batista Quitério nasceu em Mafra em 30.Jan.1940. Foi professora, tradutora e correspondente comercial. Tem publicados sete livros de poesia – Da Memória dos Sentidos; De Pé sobre o Silêncio; Poemas do Tempo Breve; Os Sítios; O Livro dos Cansaços; Memória, Silêncio e Água; Travessia (Menção Honrosa do Prémio Internacional de Poesia Glória de Sant’Anna 2019) – dois contos – Disco Rígido e Disco Rígido – Volume II – três romances – Os Olhos de Aura;
A Metade de um Homem e A Tribo (em publicação) – participações em antologias – Cintilações da Sombra 2; Cintilações da Sombra 3; Clepsydra – e uma tradução (do castelhano) O Vizinho Invisível, de Francisco José Faraldo.

 


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