Crónica de Alexandre Honrado – Pois, mas isso é relativo

Pois, mas isso é relativo
Por Alexandre Honrado

 

Tudo é relativo. Não sei se Einstein diria isto com maior profundidade, mas se relativizarmos ficaremos mais tranquilos, e é o que mais desejo. É relativo, todavia, mas é um caminho entre tantos.

Estamos na rua como se a rua fosse segura e deve sê-lo, relativamente. Não queríamos estar numa frente de guerra ou ameaçados pelo ébola que continua a ser provavelmente a doença mais mortal do mundo (o surto de Ébola na África Ocidental em 2014-2016 matou 90por centodas pessoas infectadas).

Também será relativo pintar as ruas de cores otimistas, se nos entrar pela porta um vírus qualquer.

Tudo é tão relativo que faz agora dez anos que nos disseram oficialmente que se anunciava o fim da pandemia de Gripe A (H1N1) (mais de uma em cada cinco pessoas terão sido infetadas com o vírus H1N1 durante a pandemia, embora oficialmente esta tenha causado menos mortes do que uma simples gripe sazonal). Já ninguém se lembra ao certo disso que falo, até porque dez anos é muito tempo e a morte é sempre um drama individual e de pequenos coletivos, tudo passa porque tudo é relativo, cumpre-se o luto e esfuma-se e…essas coisas.

Há mais de cem anos, o cientista francês Louis Pasteur avançou com a teoria microbiana das doenças (dizendo que os microrganismos são a causa de inúmeras doenças). Ah! Mas isso é relativo. Há quem nem sequer acredite que agentes impossíveis de ver a olho nu possam fazer-nos mal quanto mais existirem à nossa volta, em nós.

Há gente capaz de acreditar em tudo, dos que afirmam que a terra é plana aos que votam Trump. E de certa forma também isso é relativo e tem até uma certa graça. Inquieta-me mais os que não acreditam. Esses não são tão…fofinhos, como os que creem em unicórnios, a terra plana, em Bolsona e no que diz, e essas coisas.

Pasteur investigava a raiva em 1881 – doença infeciosa que afeta os mamíferos e se transmite pela saliva-,  quando percebeu que há micro-organismos. O microscópio eletrónico, só em 1931, veio dar-lhe razão. Mas foi no século XX – o século mais repleto de violência da história da Humanidade, com perto de 200 milhões de baixas provocadas  por  uma  centena  de  guerras e o mais atacado por doenças, como a “gripe espanhola”, que não era gripe nem espanhola e que matou milhões e milhões de eres humanos – e só em meados desse mesmo século, percebemos (é relativo, pois só alguns de nós o percebemos) que as doenças eram causadas e propagadas pela vida que não se vê, pelas “coisas” invisíveis que tomavam conta dos organismos doentes e ali se multiplicavam e dali saíam para contagiar o próximo. Na segunda metade do século XX foram registadas mais de duas mil novas espécies de vírus de animais, plantas e bactérias.

Os mais céticos – crentes de todos os formatos – ainda hoje tentam desmentir uma evidência mas até os mais convictos morrem e adoecem, injuriando os que lhes demonstram o contrário do que pensam.

Foi possível erradicar a varíola do mundo, mas sabe-se que alguns países escondem o vírus ativo em laboratórios tidos como seguros, pois pode ainda vir a ser estudado ou…aplicado como arma de guerra. Tudo é relativo.

Já não nos lembramos da Gripe das Aves, das Vacas Loucas, da Peste Suína, da Peste Negra (que, pelos vistos, também está de volta). Tememos algumas notícias sobre uma nova vaga de doenças que parece ter origem em galinhas e uma outra mutação que virá dos porcos.  Mas são os humanos quem lhes abre portas e passeiam as ameaças junto dos seus semelhantes.

Dizem-nos que o COVID 19 atingirá novo pico em outubro do ano corrente, provavelmente porque as escolas estarão cheias com as novas gerações, na mesma altura em que os professores serão as cobaias que atravessarão todos os grupos de risco em presença. Tudo é relativo.

Em relação a algumas doenças virais, as vacinas e medicamentos antivirais permitem impedir que as infeções se espalhem amplamente e ainda ajudam as pessoas doentes a recuperar.

Conhecem o Marburg? Foi identificado em 1967, e é semelhante ao Ébola e veio do Uganda para a Alemanha, de onde se propagou. Dizem que teve origem nos morcegos-da-fruta, uma espécie animal africana. Matou muita gente, na República Democrática do Congo, em Angola, no Uganda.

Conhece a doença infeciosa que mais afeta a humanidade? Chama-se VIH/Sida.

Conhece a síndrome pulmonar de Hantavírus (HPS)? Teve origem nos Estados Unidos, talvez por isso não tenha sido notícia muito difundida.
Conhece a gripe? No ano passado, segundo a Organização Mundial de Saúde, terão morrido 650 mil pessoas, das quais mais de três mil em Portugal. A pandemia de Gripe mais mortal, muitas vezes chamada Gripe Espanhola, começou em 1917 e atacou cerca de 40 por cento da população mundial, matando perto de 50 milhões de pessoas.

E o vírus da Dengue? Apareceu nos anos 1950, nas Filipinas e na Tailândia, e desde então espalhou-se pelas regiões tropicais e subtropicais do globo.
E o Rotavírus, a principal causa de doenças diarreicas graves entre bebés e crianças pequenas? O vírus pode propagar-se rapidamente através da rota fecal-oral. Diz-se que é a principal causa de morte infantil na atualidade…

O vírus que causa a Síndrome Respiratória Aguda Grave, ou SARS, apareceu pela primeira vez em 2002, na província de Guangdong, no sul da China, segundo a OMS. E agora o COVID-19 que pertence à mesma grande família do vírus SARS-CoV, conhecida como coronavírus, e foi identificado pela primeira vez em dezembro de 2019, na cidade chinesa de Wuhan. Mas foi encontrado nas águas residuais espanholas…muito antes disso.

Estou aqui com vários relatórios à minha volta, podia ficar a transcrevê-los pelos próximos dias. Mas como tudo é relativo, não estou para isso e ponho aqui uma espécie de ponto final.

Alexandre Honrado
Escritor, jornalista, guionista, dramaturgo, professor e investigador universitário, dedicando-se sobretudo ao Estudo da Ciência das Religiões e aos Estudos Culturais. Criou na segunda década do século XXI, com um grupo de sete cidadãos preocupados com a defesa dos valores humanistas, o Observatório para a Liberdade Religiosa. É assessor de direção do Observatório Internacional dos Direitos Humanos. Dirige o Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos Humanistas para a Paz, integrado na área de Ciência das Religiões da ULHT Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. É investigador do CLEPUL – Centro de Estudos Lusófonos e Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do Gabinete MCCLA Mulheres, Cultura, Ciência, Letras e Artes da CIDH – Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos da Globalização.

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