Crónica de Alexandre Honrado – Neorracismo, um dos pináculos do neofascismo

Neo-racismo, um dos pináculos do neo-fascismo
Por Alexandre Honrado

 

O racismo e os racistas de novo tipo emergem nos dias de hoje e elevam-se do caldo azedo da mais notória falta de cultura, como matéria putrefacta vinda da história derrotada, a evaporar-se, misturando-se com o ar de que precisamos tanto, de forma lipa e não assi conspurcada e fétida. Vêm, cada vez mais evidenciando-se de formas múltiplas e obscenas; sobretudo emergem de um medo inexplicável e irracional, animalesco, que os tolhe e impele a uma guerra de preconceitos que se torna rapidamente num dos conflitos mais temíveis e sangrentos dos nossos tempos. Essa característica afasta-os definitivamente da condição humana.

O insulto maior e que nos rebaixa a todos é aceitar frases como estas que ora andam à solta: “o outro não é como nós, não o sendo, o outro é inferior a nós”.

Vivemos na antecâmera de uma era assustadora, a do neorracismo, um dos pináculos mais visíveis do neofascismo contemporâneo que cresce a olhos vistos, que procura reconquistar o mundo, minando de todas as formas os formatos que a Democracia tem vindo a desvalorizar. São os herdeiros dos ditadores de outrora que esmagaram o mundo e o adulteraram, que promoveram genocídios e cenários de pavor e morte. São os herdeiros dos derrotados, dos frustrados, dos que a história enterrou, provavelmente sem os cuidados necessários. São eles que põem em perigo o espaço coletivo que temos para cuidar.

Como todos os medrosos, também os neorracistas recorrem a métodos violentos para se afirmarem – métodos que podem ser verbais ou utentes da força armada, tornando-se temíveis em qualquer dos casos. Estes neorracistas não são exclusivos desta ou daquela cor de pele. São apenas extremistas dos novos formatos em que o fascismo se reorganiza no nosso tempo, um tempo tão débil e ameaçado por tantas agressões. São apenas instrumentalizações dos seres inaptos para o progresso, que certas formas de poder usam como lacaios, mastins sem açaimo atiçados para os seus objetivos de domínio de pessoas e de estados. A corja dos desesperados. Os servidores da raça. Os lacaios de quem move os cordelinhos da sua atuação tão desastrada.

Ora uma das provas da sua ignorância reside precisamente neste pormenor: o conceito de raça não é aplicável aos humanos; utiliza-se em zoologia e tem a ver diretamente com seleção artificial. Por outras palavras, aplica-se à criação orientada de animais domésticos, provavelmente o que os invasores colonialistas do passado desejaram fazer com os povos livres que escravizaram e subjugaram das formas mais diversas, que, por não os entenderem, julgavam seus inferiores. Uma atitude a vários títulos ridícula e desprezível.

Em 1960, que é, como todos os anos, um ano de contradições, William White Howells sugeria que “desde o Neolítico as populações humanas perante pressões de cenários socioculturais muito específicos, foram vítimas de processos modificadores, e até de autodomesticação” (o homem é o único animal que domestica o seu semelhante, conseguindo mesmo domesticar-se, alguém o disse e muitos o repetiram).  William White Howells, nascido a 27 de novembro de 1908, em Nova York, EUA e falecido a 20 de dezembro de 2005, em Kittery, Maine, era um antropólogo físico, especializado no estabelecimento de relações populacionais através da medição física. Tornou-se conhecido pelo seu trabalho no desenvolvimento de currículos antropológicos e pelos seus textos que foram amplamente traduzidos e amplamente utilizados em sala de aula).

O conceito Raça transposto para a humanidade tornou-se um dos piores e se dúvida o mais radical dos mal-entendidos e também uma tentação para o “campo de forças” ideológico (onde teólogos e marxistas pareceram quase sempre ser os mais interessados e ativos). Hoje volta a ser brandida a bandeira remendada das diferenças fenotípicas expressivas ou, na sua ausência, o chamado “racismo étnico”, subproduto das intolerâncias que será traduzível como xenofobia, parente mais ou menos pobre do racismo. A história está condenada a repetir-se para aqueles que a desdenham.

Discriminar pelas crenças e pelas práticas culturais foi sempre sintoma dos mais pobres de espírito. Logo se seguirá a discriminação pelo género, pelas opções, sexuais ou ideológicas, e ainda outros critérios de diferença e de diferenciação que desfazem o grande grupo humano num quadro de fragmentos não humanos.

É caso para dizer que o Zeitgeist – o espírito do tempo – está contaminado. E o ser humano tende a tornar-se uma vergonhosa raça impura, que opera por vontade própria uma seleção artificial: de um lado os ignorantes, os imbecis à solta –  e do outro as suas vítimas indefesas. Aqui em Portugal até já temos um deputado para mostrar e exibir, como uma mulher barbuda ou um homem das duas cabeçorras dos circos de antanho; por enquanto é apenas uma aberrante manifestação zoológica isolada mas, como é sabido, os vírus multiplicam-se avidamente.

Alexandre Honrado
Escritor, jornalista, guionista, dramaturgo, professor e investigador universitário, dedicando-se sobretudo ao Estudo da Ciência das Religiões e aos Estudos Culturais. Criou na segunda década do século XXI, com um grupo de sete cidadãos preocupados com a defesa dos valores humanistas, o Observatório para a Liberdade Religiosa. É assessor de direção do Observatório Internacional dos Direitos Humanos. Dirige o Núcleo de Investigação Nelson Mandela – Estudos Humanistas para a Paz, integrado na área de Ciência das Religiões da ULHT Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa. É investigador do CLEPUL – Centro de Estudos Lusófonos e Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e do Gabinete MCCLA Mulheres, Cultura, Ciência, Letras e Artes da CIDH – Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos da Globalização.

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